Maranhão

O Natal e meus natais

Por Abdon Marinho

Abdon Marinho.

Abdon Marinho.

Um amigo indaga: “– por que não escreves sobre o natal? Nunca vi um texto seu sobre esse tema”. Disse que iria pensar. Na verdade, nunca me senti à vontade com o tema. O natal sempre foi uma data a me remeter às minhas maiores perdas, à saudade dos dias não vividos. Nunca gostei de falar sobre o natal e demorei muito tempo para me acostumar com ele. Se faço agora é motivado pelo sentimento de ajudar outras pessoas, que como eu, tiveram ou tem dificuldades com a data. Quando escrevi o texto “Sou deficiente. E daí?”, fui abordado por muitos amigos que disseram que aquele texto ajudou a se compreenderem ou a aceitar suas dificuldades físicas ou íntimas, de aceitação e a se amarem mais.

Não me recordo de quando se deu minha dificuldade com o natal. Acho que tem relação com a minha orfandade materna. Quando minha mãe faleceu, no parto do meu irmão caçula, tudo mudou em nossas vidas, na minha, dos meus irmãos. Éramos nove irmãos órfãos de mãe (tivemos uma irmã que morrera ainda bebê, bem antes do meu nascimento). Minha irmã mais velha, embora já casada, era, para os padrões de hoje, uma adolescente, tinha 22 anos de idade, o mais novo, um dia, a irmã depois de mim, 2 anos, eu 5, os demais distribuídos a cada dois anos, nos demais interstícios. Órfãos e pobres, nos separamos, nos distanciamos, nunca mais ficamos todos os irmãos no mesmo ambiente, cada um cuidando da sua vida. Um morando com um irmão mais velho aqui, outro, com outro ali ou com meu pai. Foi a nossa diáspora particular. Mas a ausência da nossa mãe sempre esteve mais presente que a presença do nosso pai, que sempre fez o que pôde por todos, diga-se, apesar das dificuldades, da rudeza e de sua simplicidade. Assim, nunca tivemos um natal, como deveria, com toda a família reunida, já faltava nossa mãe, os irmãos cada um para um lado, cada um vivendo seus próprios dramas pessoais. Costumo dizer que fomos criados como Deus cria batatas na beira do rio, sem festas, sem presentes. Eu, em que pese já ter meus cinco anos, o que era uma vantagem em relação aos menores tinha a desvantagem da deficiência, causada pela pólio anos antes.

Quantas não foram as vezes em que o que mais queria era um abraço de um irmão ou suas simples presenças? Um natal já seria estarmos juntos. Porque o natal é da família. E família é uma coisa que quem não há tem ali, toda hora, sabe o valor que tem.

Apesar disso tudo, sempre fui mais forte que minhas fraquezas. Aliás, fomos, eu, meus irmãos. Quando me perguntam: “–Você não tem medo dizer isso, falar aquilo, de vir a sofrer alguma represália?” Respondo: “– Quem ficou órfão na infância aprende a não ter medo de nada”.

Foi assim a nossa vida, apesar das dificuldades, nunca nenhum se desviou para mal caminho. Nunca perdemos contato e deixamos de nos tratar como irmãos e, principalmente, nunca nenhum fez nada que envergonhasse o outro. Todos pessoas de bem, sob um código de conduta não escrito e não combinado de que nada faríamos que causasse constrangimento aos demais, pelo contrário, só temos é motivo para orgulho. Continuamos pobres – nunca buscamos fortunas –, porém dignos.

No início de novembro, no aniversário de 60 anos de meu irmão, o mais velho dos homens, conseguimos reunir todos sob o mesmo teto (e ainda um dois filhos de meu pai do segundo casamento), depois de 40 anos. Foi a festa mais emocionante que participei e prova definitiva que tudo que vivemos valeu a pena. Todos juntos, felizes, rindo e contando piadas e sorrindo. Foi o meu natal antecipado que Deus, com imensa generosidade, nos concedeu.

O natal sempre me remeteu a essa saudade doída, essas ausências sentidas. Mas o tempo cura tudo. Com o passar do anos superei a tristeza que o natal me remetia. Embora restasse é resta alguns senões. Ainda hoje tenho uma imensa dificuldade de conviver com a hipocrisia que impera no período natalino. Não consigo conviver e achar normal que pessoas que passaram o ano inteiro se agredindo, puxando o tapete um do outro, no natal troquem afagos, presentes, se desejem felicidades mútuas e já no dia 26 de dezembro, estejam de volta aos jogos de falsidade, as traições, as sordidez. Prefiro o distanciamento. Nunca consegui ser cínico.

Outra coisa que sempre me causou e causa mal-estar e que está mais presente que nunca nos nossos dias é esse consumismo desenfreado. Muitos ao invés de fazerem do natal um momento para o auto conhecimento, para ai menos tentar fazer aflorar um sentimento mínimo de humanidade, fazem deste um momento para consumir, consumir, consumir. Sempre é cada vez mais. Será esse o famoso espírito natalino? E a solidariedade? O amor ao próximo? A fraternidade? Como ficam? Tantos sem nada e poucos preocupados em comprar mais belas das roupas, os mais caros luxos, os vinhos e os champanhe mais finos. Não, não pode ser natal. Não o natal que tanto desejei na minha infância e acalentei por todos os meus dias.

Já faz tempo que decidi que o meu natal seria diferente. Assim, todos os anos pego todo o dinheiro que poderia gastar com o consumo de supérfluo, com festa ou com presentes para quem não precisa e, contando com a ajuda de alguns amigos, converto esse dinheiro em cestas básicas e brinquedos para crianças carentes. Pessoas que talvez não tivessem o que comer neste dia recebem uma cesta. Crianças, uma lembrancinha, nada de luxo, apenas para que lembrem do espírito do natal. É o que chamamos de o natal da solidariedade. Já no começo de dezembro, as pessoas que trabalham comigo são indagadas, se este ano terá distribuição de cestas e brinquedos. Já contam com isso. É pouco, quase nada, mas é importante para alguém. Fazemos a festa aqui em casa na manhã do dia 24. Esse é o meu natal, o melhor natal.

Que Deus nos conceda a graça de sermos cada vez mais generosos.

Um feliz natal para todos.


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Artigo

Além da Desmoralização

Abdon Marinho.

Abdon Marinho.

Como prometi ontem, esperei por vinte quatro horas uma explicação para saída de um preso da cadeia pela porta da frente, antes de escrever este texto pesquisei no site do governo do Maranhão, no da Secretaria de Segurança (nestes dois nem tem a notícia da vergonha), nos principais sites de notícias do estado, como imirante, jornal pequeno, principais blogues, em nenhum destes lugares encontrei a nota oficial do governo ou da secretaria explicando como um preso de alta periculosidade, agiota, agenciador de assassinatos, sai da cadeia, pela porta da frente. Um dos blogues que li informa que ele teria pago R$ 150,00 (cento e cinquenta reais) pelo passe-livre para delinquir. Isso mesmo, pagou essa quantia para o vigilante e foi delinquir, continuar seu oficio de agiota, extorquindo e sequestrando.

Soube que a delegada geral concedeu uma entrevista, soube também de um colóquio na secretaria hoje cedo. Louvo a atitude da delegada, ao menos isso. Entretanto, me perdoem, isso é muito pouco para a gravidade do acontecido.

Vejam, toda a vida é valiosa e tem igual valor, porém o assassinato do jornalista Décio Sá, pelas circunstâncias, pela ousadia dos assassinos de liquidar o cidadão numa das principais vias da cidade e ainda mais pelo caso envolver, até onde se sabe, inúmeros interesses e uma outra quantidade crimes conexos, deu a esse assassínio uma importância ímpar. Não é demais lembrar que o defunto foi pranteado até pelo então presidente do Senado da República, que esteve no cemitério que lhe serve de morada derradeira.

Logo um crime, relevante. Aí, vem a notícia que um dos principais envolvidos, tem a facilidade para sair da prisão onde se encontra – pela desenvoltura, acredito, que não tenha sido a primeira vez, acredito que não seja o único –, para “tocar os negócios”, foi preso em plena atividade laboral, sequestrando uma vítima da agiotagem que domina o estado, pagando a módica quantia de R$ 150,00 (cento e cinquenta reais). Pelo valor, você identifica o grau de esculhambação que está o sistema de segurança. Um agente público permite que um preso saia do presídio, recebendo em troca essa quantia. Um peixe e uma onça. Trata-se de um valor que simboliza muito bem a quantas chegamos. Esse peixe e essa onça vão além da desmoralização.

Com quase mil assassinatos, apenas na região metropolitana, talvez o secretário não tenha se dado conta da gravidade do fato, do quanto a segurança pública do estado está desmoralizada. Tão desmoralizada, a ponto de um policial, um vigia, tenham consentido em liberar um preso de tamanha periculosidade, para que, naturalmente, fosse exercer sua atividade criminosa. Isso sem contar, com motorista particular esperando a distinta figura na porta da cadeia.

A desmoralização do sistema de segurança chegou ao ponto do vigia, determinar o regime de cumprimento da pena dos prisioneiros à disposição da justiça. E, como disse, pela desenvoltura, pela naturalidade e pelo valor, levo a crer que não foi essa única vez, que não se trata apenas deste prisioneiro. Deve ter mais truta por aí.

Como dizia, acho que o secretário não entendeu a dimensão do fato. Se entendeu, deve ter dado de ombros e achado normal. Bem, como o preso foi preso (fica até cacofônica a construção), vamos punir os “oreias” envolvidos, e fica o dito pelo não dito, até que outro fato venha ocorrer. São pessoas, pensando assim, com esse grau de discernimento que são os responsáveis pela nossa segurança. Pessoas que não atinam para gravidade do fato ou, pior que isso, acham normal o que

vem acontecendo, os quase mil assassinatos (só este ano, só na região metropolitana), as execuções nos presídios, etc.

Quanto disse no começo do texto que esperava uma explicação. Eu, como Sarney, também acredito em Papai Noel, esperava que o governo do estado ou a secretaria de segurança, emitisse uma nota oficial, esclarecendo o que ocorrera. Um fato de tal gravidade, repito, não comporta um bate-papo com jornalistas amigos ou uma entrevista numa emissora amiga, com todo o respeito, de alguém que está no terceiro escalão da hierarquia do sistema de segurança. O fato exigia, no mínimo uma nota oficial, com fatos e circunstâncias, ainda que com juras de isso nunca aconteceu e jamais voltará a acontecer, segundado por uma entrevista coletiva do secretário, com todos os jornalista da cidade, e não apenas os amigos, para lhe indagar e questionar sobre os fatos que afligem a sociedade inteira.

Sua excelência não deu importância ao fato ou fatos ocorridos, assim como parece achar normal acertar o milhar nos assassinatos. Acertar o milhar, pelo que sei é bom, mas na loteria e não em números de assassinatos.

Sua excelência deveria ficar atenta ao menos para esse tipo de desmoralização a que está submetida a segurança, R$ 150,00(cento e cinquenta reais) é um pouco demais, digo de menos. Já que o sistema de segurança não consegue controlar a porta-giratória da cadeia deveria baixar uma portaria determinando: “Nada de se soltar presos por mixaria, só se solta aqui com propina grande, ao invés de R$ 150,00 (cento e cinquenta reais) deve se cobrar R$ 150.000,00 (cento e cinquenta mil reais)”. Vejam o absurdo que estou dizendo. Mas teria um efeito prático interessante, como nem todo preso teria a essa quantia, bem poucos sairiam. Diferente de cento e cinquenta reais que qualquer preso tem acesso.

Me perdoem esse excesso, é que fiquei o dia inteiro esperando uma satisfação, ontem disse que queria uma explicação plausível, hoje queria ao menos uma explicação. Mas uma vez, o governo e a secretaria, não se acham no dever de explicar fatos de tamanha gravidade para a patuléia que habita o andar de baixo.

Em outras épocas ou em outros lugares, fatos como estes, a matança crescente, a desmoralização que vem ocorrendo, não seriam motivos para o governador demitir seus secretários, seriam motivos para que eles pedissem demissão, com a cara compungida pela vergonha.

Aqui não, aqui tudo é normal. Tudo é banal. Tudo acaba em farra. Qual é mesmo a programação do réveillon da virada?


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Artigo

A Barbárie pede intervenção

Abdon Marinho.

Abdon Marinho.

Passo rapidamente os olhos por alguns noticiosos. Meus olhos não conseguem se fixar nas imagens ali retratadas. São cenas de barbárie, retiradas das gravuras dos livros da idade média ou de cenas de ficção do cinema impróprio para pessoas de estômago fraco. São cabeças enfileiradas, são corpos desnudos sem cabeças. Entretanto, não são as cenas imagens de gravuras medievais, não são cenas de ficção. São imagens reais, são cenas atuais. Não estamos falando de um mundo distante, de uma nação em guerra, de um continente em conflito. São imagens nossas, do Nosso Maranhão, da nossa capital.

Faço essa breve introdução para narrar o meu sentimento diante das imagens com as quais estamos sendo confrontados, sejam nas páginas das redes sociais, nos blogues ou nos jornais. Mais uma vez o Maranhão é cenário de um ato de selvageria em seus presídios. Os atos que assistimos ontem e hoje e que já havíamos vivenciados desde o começo do ano, expõe uma situação que só se agrava e inquieta.
Os conflitos do presidio de Pedrinhas, iniciados ontem, com presos sendo degolados, mutilados, chegam às raias do absurdo. Instadas a se manifestarem as autoridades vêm com o mesmo discurso de sempre: Que estão em obras, que estão trabalhando, que nunca investiram tanto em segurança quanto agora, etc.

Sou uma pessoa crédula, se o governo diz que está fazendo, que está acontecendo, eu acredito. Não estou aqui para contestar os dados oficias. Mas, se estão fazendo, o que está errado para que essas matanças continuem ocorrendo? Perderam o controle de vez? não conseguem manter a segurança dentro dos presídios? Continuaremos com esses cadáveres, essas cabeças e esses corpos mutilados a nos assombrar e envergonhar por quanto mais tempo? Quando ainda serão exibidos neste cenário horror durante os nossos almoços ou jantares?
As notícias que nos chegam é que quem manda no complexo penitenciário são presos, retirando o fato de não puderem fugir, lá podem fazer tudo. E de fato podem, tanto é que as barbáries se sucedem. Há muito tempo o estado, que o responsável pela custódia dos presos, delegou esse trabalho para as empresas de segurança privada que, em que pesem os esforços, não possuem o preparo necessário, a estrutura ou o treinamento adequado para lidarem com os presos. Presos que estão sob a responsabilidade do estado, frise-se. Presos que não foram condenados à pena de morte por degolação ou a outras formas de brutalidade.

Recordo que quando da barbárie anterior as autoridades prometeram que não iriam permitir mais isso, que chamariam reforços para garantir a segurança enquanto resolviam, por seus próprios meios, essas questões. Outro dia tive a notícia que Força Nacional de Segurança havia partido (nem sei se é verdade mesmo), agora isso. Se de fato partiu, os episódios de ontem/hoje, comprovam que o estado do Maranhão não possui condições de ofertar a segurança que é exigida pela sociedade. Não consegue mais garantir a ordem pública. São Luís, segundo informações que nos chegam, não sei se verdadeiras, começa a figurar entre as cidades mais violentas do mundo. O estado todo experimenta uma violência incomum. Nem nas nações em guerra vem ocorrendo o que estamos vivenciado aqui. O estado não tem se mostrado capaz de garantir a segurança nem de sua massa carcerária que está confinada em um único local.

Mais e igualmente grave é a situação fora dos presídios. Ontem, enquanto ocorria mais essa matança horripilante em Pedrinhas, o jornal pequeno, infamava que até a madrugada do dia 16/12, já haviam contabilizados 933 assassinatos. Um número deste caracteriza uma situação de guerra civil. O estado por seus próprios meios não consegue garantir a segurança da população fora dos presídios.

Nos termos da Constituição Federal, artigo 34, a União NÃO intervirá nos Estados nem no Distrito Federal, exceto para: “III – pôr termo a grave comprometimento da da ordem pública””. Temos no Maranhão a ordem pública flagrantemente comprometida. Os níveis de violência que estamos experimentando estão além do razoável. Apenas para termos um parâmetro de comparação, já disse isso outras vezes, durante todo o ano de 2002, pouco mais de uma década, tivemos 194 assassinatos, e naquele ano achamos isso muito. Estamos chegando a mil assassinatos e a autoridades não demonstram preocupação ou interesse. Pior que isso, não se mostra capaz para resolver o problema ou tranquilizar a população.

No mesmo artigo 34 da Constituição, mais adiante, um outro motivo a justificar a intervenção: “VII – assegurar a observância dos seguintes princípios constitucionais: …’b) direitos da pessoa humana’”. Temos nestes episódios de rotineira violência grave violação de direitos humanos. Os presos, como disse, foram condenados apenas a pena privativa de liberdade. Nenhum foi condenado à morte. Estas pessoas, repito, estão sob a guarda do Estado do Maranhão. O estado é responsável por sua integridade física. O estado descuida de forma acintosa de suas obrigações. Se presos são mortos, degolados ou esquartejados é porque o estado está sendo negligente ao permitir o ingresso ou confecção de armas dentro das dependências do presídio, sem contar todo tipo de violação aos que os presos são submetidos.

Não estou aqui devendo preso não. Sou favorável ao rigor das penas, que paguem o mal que causaram a sociedade, que não fiquem entrando ou saindo do presidio como ele fosse colônia de férias, que as penas sejam proporcionais aos gravames e que sejam cumpridas integralmente. Isso é uma coisa. Outra cosia é o que vem ocorrendo com presos sendo assassinados por culpa do estado que não assegura a vida dos custodiados.

Faz tempo que o estado não se mostra capaz de cumprir seu papel, dentro e fora dos presídios, a população sofre as consequências disso, se sucedem as mortes, os assaltos, o tráfico de drogas. Uma violência estrutural, que em face da inércia do estado em combatê-la, desagua nas cenas que fazem inveja aos cineastas mais criativos.


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Artigo

Saúde e Pedro Caroço‏

Por Abdon Marinho

Advogado Abdon Marinho.

Advogado Abdon Marinho.

Acham que exagero quando falo que o nosso sistema de saúde está uma bagunça só. Leio aqui que o secretário de estado da saúde vai propor uma parceria emergencial para minorar os graves problemas que vem ocorrendo.

Como vermos as coisas estão fora de ordem. Explico, sendo município habilitado em gestão plena, nos termos que estabelece a Portaria 2476/GM, de 17 de novembro de 2004. Isso significa que o responsável por toda a rede de saúde existente no município é o gestor municipal, os demais são prestadores que são remunerados por isso. Não faz sentido essa intervenção do secretário estadual como se estivesse fazendo um favor e não como um prestador remunerado.

Cabe ao gestor municipal habilitado em gestão plena exigir que cada prestador cumpra seu papel. Organizar todo o sistema e oferecer o serviço que a população necessita.

Como disse anteriormente, no texto SAÚDE: A BAGUNÇA QUE MATA, falta ao gestor municipal assumir-se como tal, coisa que parece, não vai acontecer. Poucas vezes vi as autoridades da cidade e do estado baterem tanto cabeça com um assunto quanto vi depois do programa globo repórter de sexta-feira, 13/12. Os desencontros persistiram no sábado e até no domingo. Uma das enormidades que ouvi foi do município dizendo que repassaram tanto ao estado e tanto ao HUUFMA. Primeiro, não foi repasse, foram pagamentos por serviços supostamente prestados. Digo supostamente, não por duvidar que os serviços tenham sido ou não prestado, mas sim pelo gestor municipal não saber o que está pagando, não administrar o sistema de saúde que está sob a sua responsabilidade. Segunda, no domingo, foi o secretário de saúde do estado, fingir que não sabe o que é SUS e oferecer uma parceria. Esse oferecimento é igual aquela história do empregado, que é pago para fazer determinado serviço, agir como se estivesse fazendo um favor, uma parceria. A terceira enormidade foi ver pessoas esclarecidas muitas, conhecedoras do sistema acharem normal esse tipo de coisa.

Foram tantos os desencontros que fiquei – e ainda estou – com a impressão que ninguém sabe o que está fazendo ou dizendo, qual é o seu papel na questão da saúde no estado. Fiquei com a sensação que os gestores, principalmente os municipais nunca ouviram falar de SUS, e isso é muito grave. Talvez esteja aí uma das razões do caos que impera.

Caso, como parece, o secretário não saiba como funciona o SUS é hora do prefeito conseguir, para o cargo alguém que saiba o que é, mais que isso, que tenha coragem de enfrentar os SUS paralelos que se formaram na cidade.

Ora, sendo o município de São Luís habilitado em gestão plena municipal, e é, conforme atesta a portaria referida acima, é o gestor municipal o responsável por todo o sistema de saúdas existente no município, seja ele o estadual, o municipal, o federal e ainda a rede privada prestadora. É esse gestor que dever distribuir e cobrar a responsabilidade de cada um para poder fazer os pagamentos pelos serviços prestados.

Me perdoem, mas pareceu patética a explicação dada pelo município diante do caos encontrado no Socorrão I, que também é a realidade do Socorrão II, dizendo que os pacientes eram do interior, como já disse, não existe essa história de paciente do interior, o paciente é do sistema, do SUS. Pior ficou quando veio com a história de que “repassamos, do montante de recursos recebidos 50%

(cinquenta por cento) ao estado e 5% (cinco por cento) ao HUUFMA”. Se dizem que repassaram é porque não sabem que estão remunerando os serviços prestados, não estão fiscalizando se estão sendo prestados, permitem de forma ‘irresponsável’ que existam estrutura dissociadas da estrutura do SUS, permite o SUS paralelo do estado e o SUS paralelo da UFMA.

O SUS paralelo do estado é tão afrontoso que o estado mandou fazer um comercial mostrando como funciona o “seu sistema de saúde”, passa direto na TV e é bem provável que seja pago com essa verba que o município disse repassar ao estado.

Vejam não é difícil de entender SUS significa Sistema Único de Saúde. ÚNICO. Estando o município de São Luís em gestão plena ele comanda o sistema em todo o município, porque ele é ÚNICO. O secretário municipal de saúde, por está em gestão plena é o comandante deste sistema ÚNICO, alguém só precisa avisar isso para ele e dizer que ele tem que comandar. Os sistemas paralelos são criações, invenções dos sábios maranhenses. Agora só me falta dizerem que não sabem o que significa único, não é mesmo?

E aí você me pergunta: e o que diabos tem o título do texto com o assunto tratado? Explico: Quando estava lendo que o secretário de saúde do estado estava “oferecendo uma parceria emergencial”, sei que não tem nada a ver, com a história, me veio a mente uma musiquinha da minha infância que dizia assim: “Quem não conhece Severina Xique-Xique, que botou uma boutique para a vida melhorar? Pedro Caroço, filho de Zeca Gamela, passa o dia na esquina fazendo aceno para ela. Ele está de olho é na boutique dela, ele está de olho é boutique dela …” e por aí vai. Como vêem não tem nada com o assunto tratado.

Não sei porque me lembrei desta música.


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Política

Um incessante ataque à memoria

Por Abdon Marinho

Advogado Abdon Marinho.

Advogado Abdon Marinho.

 

Uma das frases mais belas e cortantes dos últimos dias, na minha opinião, foi a proferida pelo vereador e advogado João Damasceno, disse ele: ”Não temos o direito de sermos cínicos”. Disse isso a propósito da efusiva declaração de bem querença do pré-candidato Flávio Dino ao antigo desafeto João Castelo, a quem, em eleições ainda frescas na memória do povo, qualificou com os piores adjetivos. Se justo ou injustos à época ou agora, é um fato que não me cabe julgar. Entretanto, a mudança de posição e o espaço de tempo entre elas se deu de forma tão abrupta que, com razão, há de se indagar sobre o excesso de pragmatismo político dos nosso dias. Sobre esse excesso de pragmatismo, não apenas deste, mas também de outros candidatos, cidadãos e de políticos de maneira geral, já havia me manifestado num texto escrito não faz um tempo intitulado: “O VALE TUDO, VALE A PENA?”.

Acho que os historiadores precisam ficar atentos para esses fatos. Todos os dias aparece um e outro querendo rescrever a historia do país e a sua própria história.

Hoje mesmo, ao olhar os jornais locais, lá está em O EMA, o ex-presidente da República, senador José Sarney, vendendo-se como o maior ativista da causa negra do Brasil. Como defensor intransigente da causa anti-apartheid da África do Sul, até mesmo antes de Mandela, dizendo que sua luta contra a causa racista remonta o ano de 1961. Com os instrumentos que possuo não foi possível verificar esse ativismo do nosso ex-presidente. Busco na memória e não o vejo em movimentos defendendo a causa dos negros, nem os daqui, nem de lugar nenhum do mundo. Não tive como ver a relação do seu secretariado de 1965, mas na relação dos ministros do seu governo não encontrei nenhum ministro negro, talvez um ou outro, devido a miscigenação brasileira, até tivesse ascendência negra, mas nenhum era negro. Nenhum entrou no ministério como expressão deste apreço que o hoje senador diz sentir pela raça negra. Como se justifica dizer que “sempre fui ligado às causas da raça negra”, se nenhum dos quase setenta ministros que passaram por seu governo era negro?

Embora fosse bem jovem durante o governo Sarney, um adolescente, na acepção da palavra, não me recordo de suas políticas promocionais das causas populares, dentre as quais a causa negra ou igualdade de gênero, que tanto se fala hoje.

Apenas para se ter uma ideia, da relação de ministros do governo Sarney, a que já nos referimos e que contou com quase setenta, apenas uma era mulher.

A condenação ao regime racista da África do Sul pelo governo brasileiro é fato histórico, entretanto essa condenação veio no contexto de um maior alinhamento com os demais países do ocidente, que já condenavam o regime racista e que cobravam uma posição do Brasil com relação ao mesmo.

O Brasil, “foi na onda” e na pressão, pois queria manter melhores relações com outros países africanos e com outras mações ocidentais e dá continuidade a sua política de se tornar líder do que se chamou na época de ‘atlântico sul’. Atribuir a decisão de condenar o ‘apartheid’ à pessoa do presidente, como quer fazer crer o artigo do senador, vai uma grande distância.

O governo Sarney ficou conhecido como o governo da era perdida. Apenas para se ter uma ideia em 1985 a principal meta do governo era combater a inflação que naquele ano chegara a 235% ao ano. Infelizmente, em que pese os diversos planos econômicos lançados (Plano Cruzado, Plano Cruzado II, Plano Bresser e Plano Verão), nenhum apresentou resultados. A economia do país foi à lona, e em

março de 1990 a inflação alcançou o recorde de 84,23% ao mês e um índice acumulado nos doze meses anteriores de 4.853,90% (alguém consegue imaginar hoje o que é uma inflação nestes níveis? Não. Ninguém consegue).

Sobre esses fatos nenhum artigo, nenhum comentário. É como se quisessem (e querem) que esqueçamos o desespero que era para as famílias receberem os salários e correrem para os supermercados na esperança de quando chegarem lá o salário ainda desse para comprar a mercearia do mês.

Nada contra que as pessoas esclareçam o que fizeram ou que mudem de opinião sobre coisas, causas, situações ou sobre pessoas. Temos esse direito. O que não temos é o direito de tentar mudar os fatos passados, as palavras ditas, as ideais escritas.

Causa-me estupor ver como alguns políticos tentam colocar uma pá de cal na história tentando rescrever a mesma conforme suas conveniências.

Como bem disse o Dr. João Damasceno, “não temos o direito de sermos cínicos”, a estas sábias palavras acrescento: “os cidadãos de bem têm o dever de não consentirem com o cinismo.”


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Artigo

Jogo de erros

Por Abdon Marinho.

Advogado Abdon Marinho.

Advogado Abdon Marinho.

Quando era mais jovem tinha o hábito de fazer palavras cruzadas e outros teste memória como jogo dos sete erros, etc. O jogo de erros consistia em você apreciar uma imagem e dizer quais as coisas não faziam parte daquela imagem.
Hoje vi uma imagem no jornal e lembrar daqueles jogos de erros. Trata-se da imagem da governadora do estado fazendo entrega de carro-pipa e kits de irrigação. Embora sem discutir o mérito de um estado tão rico em recursos hídricos precisar fazer uso destes veículos como o fazem outros estados mais castigados pela seca, eles são mais que necessários neste momento pois há sim parte do nosso estado em uma situação com muita carência de água, com reses morrendo e o povo padecendo.
O erro grotesco na imagem diz respeito à presença do secretário de segurança. Ora, o que fazia ousa excelência em plena segunda-feria entregando carros-pipas enquanto sua secretaria não contabilizava ainda os mortos do fim de semana?
Já tinha até me prometido a não falar mais da matança que ocorre na região metropolitana da capital. Hoje pela manhã um programa de rádio informava que já foram trinta e cinco assassinatos só este mês e hoje ainda é dia 10. O jornal pequeno informa que foram dezessete assassinatos só no fim de semana. Isso sem contar com o trafico de drogas que invade todos os municípios trazendo consigo todas outras formas de violência.
não digo que os secretário de estado não possuam legitimidade para comparecer a esse tipo de solenidade. Claro que têm. Não tem sentido é em plena segunda-feira, enquanto a secretaria de segurança conta os mortos da guerra civil que estamos vivendo, o secretário que deveria está buscando soluções está em solenidade entravando carros-pipas para combate a seca. Qualquer que fosse a justificativa para sua presença na entrega dos veículos esta seria secundária diante da matança do último fim de semana. Muito mais quando se fica com a impressão que lá estava para fazer proselitismo político.

Não é demais recordar que quando ocorreu aquela rebelião em Pedrinhas, enquanto se contavam os mortos e muitos se perguntavam o que estava acontecendo, este mesmo secretário, como se nada estivesse acontecendo, seguia a bordo de um helicóptero custeado pelo contribuinte para fazer a entrega de uma viatura da polícia na cidade Coroatá. Pelos antecedentes, já podemos deduzir o significado desta presença na solenidade de ontem. O que me assombra é que não aparece um puxa-saco para dizer, “olha, diante da gravidade, existem coisas que não comporta, fique na secretaria, reúna seu alto comandando e produzam uma resposta para a sociedade”. Ainda que os mortos sejam todos bandidos, dezessete mortos num fim de semana são números de guerra que exigem uma resposta tranquilizadora para a sociedade.
A governadora poderia ter aproveitado e perguntado o que ele tinha a dizer sobre os trinta e cinco mortos na região metropolitana, até o momento, quando não vencemos um terço do mês.
A impressão que se tem é que ninguém se importa mais com nada e que ninguém está nem aí mais para a violência que tomou conta do estado e torna prisioneiros os cidadãos de bem. Apenas para refrescar a memória, em 2002 foram apenas 194 assassinatos durante todo o ano. Só esses dez dias de dezembro, segundo o rádio, foram 35 mortos, isso só na região metropolitana.
Como aqui tudo tem uma lógica particular, esses carros-pipas, deverão ter um papel fundamental na estratégia de combate à violência. Alguém que saiba, por favor, me explique.


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Artigo

Mandela e o texto que não escrevi‏

Por Abdon Marinho.

Abdon Marinho.

Abdon Marinho.

Desde que voltei a rabiscar no papel minhas ideias e concepções sobre o mundo em que vivemos que pensava em escrever sobre Mandela. Ano passado até rabisquei alguma coisa, quando de sua enfermidade. Na quinta-feira, enquanto via o jornal da band, fui surpreendido com a notícia de seu passamento. Embora tal fato não inviabilize o texto, o fato é, que escrito após a morte, torna-se lugar-comum entre tantos outros escritos neste momento de dor.

O texto que não escrevi iria narrar a influência que recebi do líder sul-africano na minha formação política, primeiro como prisioneiro (vendo os mensaleiros se dizerem prisioneiros políticos e comparando a história vê-se o quanto a palavra perdeu seu sentido ou foi apropriada indevidamente), e depois como estadista libertado pelo regime segregacionista (quando vejo os companheiros dizerem que seu companheiro-mor é um estadista, fico pensando o quando a palavra foi deturpada, Mandela após 27 anos de prisão saí da cadeia para fazer a reconciliação nacional, aqui temos em plena democracia, um partido com projeto hegemônico utilizando o aparelho estatal para fazer dossiês contra os adversários, como se denuncia todos os dias).

Se ao ser preso Mandela poderia ter questionado os métodos de luta ao desistir da luta pacifica dos primeiros anos para comandar o braço armado do Congresso Nacional Africano – CNA, ao ser solto, depois de quase três décadas, mostrou toda a grandeza que se espera dos homens que conseguem ter uma dimensão de seu papel histórico, que consegue ir a além dos métodos rasteiros, do revanchismo, da utilização da democracia como arma para destruir a democracia. A postura de Mandela após ser solto com o projeto de conciliação nacional, convencendo negros e brancos a construírem uma grande nação livre do ódio racial.

Foi como militante dos movimentos estudantis nos anos oitenta que travei os primeiros contatos com a causa contra o apartheid, diria que foi a causa que mais me chamou a atenção naqueles anos. Li muito sobre o assunto nos poucos livros que existiam sobre o tema, alguns inclusive, sob a ótica dos partidos políticos nacionais, acompanhei pela TV as manifestações contra o regime segregacionista que ocorriam na naquele país e no resto mundo. A libertação de Mandela no começo de 1990 foi a conseqüência natural de um regime que já não se sustentava. Mandela foi preso como um líder, como tal foi sua vida na prisão, ao ser solto, o foi como um estadista de estatura mundial. Essa foi a razão de haver tanta apreensão e comemoração com o fato naqueles dias anteriores e pós libertação.

No papel de estadista mundial após a libertação sempre se mostrou à altura do papel que lhe reservara a história, respeitou asa regras da democracia e costurou o processo de transição despido dos ódios e dos interesses pessoais, afastou-se daquelas pessoas que não entenderam o que acontecia naqueles dias e anos, inclusive da esposa de então, superou as perdas pessoais que lhe foi impostas ainda enquanto estava preso e habilitou-se à condução da nação como mandatário maior. Num mundo de mesquinharias extremas de de ódios acirrados, soube desempenhar como ninguém o papel de pai da nação sul-africana e pai de um ideal político que rejeitou o revanchismo, revide a aniquilação dos adversários. tornou-se maior que todos. Isso conseguiu pelo exemplo de tolerância e paz.

Alguns críticos, os críticos são sempre bem-vindos, dizem que ainda persiste as desigualdades, que não foi possível garantir a todos a bonança econômica. Ora, era impossível conseguir o que se almeja em apenas duas décadas, mas o primeiro passo foi dado, o passo maior.

Essa foi a influência política que recebi a partir de 1985. Esse exemplo que conduziu meu norte político, principalmente e sobretudo, os exemplos de depois da libertação. Mandela esteve no poder por apenas cinco anos, apenas por um curto período para transição e fez muito mais pelo seu pais e pela humanidade do muitos que se perpetuam no poder.

As homenagens que lhe são prestadas ao redor do mundo, não são indevidas, Mandela foi e é uma inspiração para a humanidade. Essas homenagens, ao menos, para os que compreendem a história deste século dão a dimensão real do que foi essa pessoa extraordinária, não acredito que vejamos mais nesse século bandeiras em meio mastro ao redor do mundo por um estrangeiro. inclusive a americana, essa unanimidade em torno deste luto, é a exceção que justifica a regra.

Quando vejo muitos políticos brasileiros e estrangeiros se arvorarem no papel de estadista e vejo do que são capazes para conquistar e manterem o poder, a incapacidade de inspirarem bons exemplos, penso comigo: “Como são pequenos diante do gigante que foi Madiba”.

Esse seria o texto que não escrevi. Escrito hoje sob a influência das músicas de Lennon.

Abdon C. Marinho.


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Artigo

Alegação e altruísmo

Por Abdon Marinho.

Abdon Marinho.

Abdon Marinho.

Foi lá no interior, lá no meu sertão que, com rudes e iletrados cidadãos aprendi lições que me servem e me inspiram até hoje. Uma dizia: “quem destrata que comprar”, outra: “faça o bem sem olhar a quem”, ou ainda: “se é para alegar melhor não dá”.

Logo cedo alguém indaga: – vistes a coluna do Sarney? Não, não vi. Aproveitava o silêncio da manhã para escrever aquele breve texto sobre Mandela e também para ouvir minha surrada coletânea dos Beatles e algumas músicas do Lennon, que hoje faz 33 anos que nos deixou.

Com a indagação na cabeça, logo depois da sesta dominical, acessei os blogues que comumente fazem a reprodução do texto e fiz uma leitura dinâmica. Por lá, diferente do que imaginava, encontrei menos do que esperava. Trata-se do mesmo texto de alegações que vem se repetindo nos últimos tempos: “fiz isso, fiz aquilo, fiz aquilo mais”. De novo mesmo, só o fato de mandar os adversários chupar o dedo para saciar suas frustrações, que, vamos combinar, não fica bem na boca de ninguém, muito menos na boca de um respeitável senador e membro da Academia Brasileira de Letras. Hoje foi a vez de alegar as pontes e a barragem, semana passada algumas escolas de primário (inclusive as que estudei, U.I. Aldenora Belo em Governador Archer e Colégio Bandeirantes de Gonçalves Dias), na semana anterior, se não me falha a memória, uma estrada feita no interior e vai até onde a lembrança alcança.

Acredito que objeto de uma discussão que se queira levar a sério o Maranhão deva passar por essas questões. Acho que ninguém desconhece as obras feitas pelo senador e pelos os governos que os sucedeu inclusive sua filha por dois períodos. Sim, foram feitas obras, obras importantes para o estado, obras importantes para a cidade, ninguém as desconhece, aliás, nem teria como, porque desde sempre, principalmente em períodos próximos as eleições elas são todas alegadas, cantadas em prosa e verso e em todos os sotaques do Bumba-boi do Maranhão, quando não tem suas placas indicativas e numa ousadia mais presente e comum, o nome de quem a fez e de algum ente que quis homenagear. Essas sucessivas alegações, ao menos, na minha visão e pedindo todas as vênias, não ficam bem serem feitas pois dão a entender que o nobre senador é uma pessoa mesquinha, coisa que as pessoas que o conhece, diz não ser verdade. Como nunca estive sequer no mesmo ambiente que tão distinta figura, não posso afiançar. Se os amigos dele dizem que não é, tenho por verdadeira essa assertiva. Ademais, aprendi ao longo destes anos que àqueles a quem a vida já lhes permitiu conquistar tudo que podiam só lhes cabe os gestos de agradecimento, desprendimento e generosidade.

Noutro quadrante, não ficam bem esse tipo de alegação porque, para os mais desavisados, fica parecendo que as obras feitas por esses governantes, foram feitas com recursos pessoais e não com recursos públicos, como foi. Estes governantes, não apenas o senador, mas todos os demais administraram os recursos pertencentes ao povo e realizaram as obras que o estado necessitava e necessita. Não tenho notícia de nenhum que tenha saído falido dos governos por terem investido do seu patrimônio em obras do estado.

Sem desconhecer todas as obras que foram feitas, o que seria proveitoso para o Maranhão seria discutir as causas, as razões que levam o estado, apesar de tantos “benefícios” recebidos dos

nossos governantes, amargar os piores indicadores do país. O que nos levou a isso? Como e porque o Maranhão parou de produzir? Como faremos para sair de um modelo de tanta dependência? Porque outros estados menos ricos ultrapassaram o Maranhão? Como fazer para mudar um modelo que enrica poucos e empurra a grande maioria da população para a miséria?

Em sendo Maranhão tão rico, como acreditamos que seja, tenha recebido dos seus governantes o melhor que podiam oferecer, o que deu errado? Faltou-lhes engenho e competência? Foi isso?

Governante algum faz favor ao povo, pelo contrário, deveriam, como depositários da confiança que receberam, honrar cada dia mandato, ser motivo de orgulho e admiração e não de piadas ou desprezo.

Não sei quantas colunas ao todo, quantas mais ainda virão, o senador irá gastar para listar todas as obras que fez, acredito que com um pouco de objetividade, caberiam todas as obras e todo o “bem” que fez ao Maranhão em apenas uma. Na outra ponta, quantas colunas, quantos jornais, seriam necessários para descrever todo o bem que o Maranhão lhe fez? E aqui se tem um colocação não original, pois John F. Kennedy, quando de sua posse a proferiu com todas as letras: “Não pergunte o que o seu pais pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer por seu país”.

Fica a sugestão ao invés do senador ficar todos os domingos listando o que fez pelo estado, talvez devesse listar o que o estado fez por ele, decerto seria uma prova maior de altruísmo político.


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Poder

O debate dos sem razão

Por Abdon Marinho

Advogado Abdon Marinho.

Advogado Abdon Marinho.

Meu pai costumava dizer um dito muito popular outrora: “Meu filho, em casa que falta pão, todo mundo briga e ninguém tem razão”. Lembrei disso ao ler hoje que os deputados estaduais, nossos operosos representantes do povo, se confrontaram sobre os últimos dados sobre o Maranhão. Como não poderia de ser cada um dos contendores, mais preocupados em fazer política e ignorar os dados. A velha politicalha de sempre que só puxa o estado para o fim da fila. Talvez falte as suas excelências conhecimento, legitimidade ou simplesmente capacidade para debater o que de fato vem ocorrendo com o nosso estado.

Um debate sério deve contemplar alguns questionamentos. Vejamos:
A educação do estado que os governistas alardeiam como tendo apresentado avanço, conforme mostramos aqui, teve um péssimo desempenho no ENEM, sendo que as nossas escolas de ensino médio, todas elas, mas principalmente as públicas, ficaram, nas últimas posições no ranking.

Em seguida o resultado do PISA confirmou não só a péssima posição do Brasil e a do Maranhão, estando o nosso estado à frente apenas de Alagoas. Em resumo, o nosso estado está na rabeira da rabeira. Na fim da fila do Brasil que está no fim da fila do mundo.

Com relação ao propalado crescimento cujo os números não discuto, o que temos é quase a totalidade dos municípios com uma renda per capita mensal ínfima, insuficiente para que o cidadão tenha uma vida minimamente digna.

Caso quisessem suas excelências poderiam debater essa aparente contradição que é um crescimento ao mesmo momento em que o povo fica cada dia mais pobre. O estado tem recebido muitos aportes financeiros, bilhões em transferência de rendas direta, investimentos através de agências e outros órgãos do governo federal a exemplo da CODESF e ministérios justificam parte do crescimento apesar disso o povo continua sem usufruir deste crescimento amargando a mesma miséria de sempre.

Poderiam discutir e encontrar uma solução para o fato de tantos investimentos terem sido feito principalmente no setor de produção primária e o Maranhão está importando para alimentar seu povo até maxixe. Talvez suas excelências não saibam mas não temos mais no estado a pequena agricultura, o arroz, feijão, milho, fava, etc, não temos mais galinha, ovo, porco no quintal. Para se ter uma compreensão, até hortaliças aqueles que produziam estão comprando vindo de outros estados.

Trata-se de um fato emblemático o quanto nossa pequena produção ficou reduzida nos últimos anos. Quais razões disso? Quais os efeitos para o estado? Um estado tão rico em recursos hídricos não possui uma produção agrícola suficiente para alimentar sua população. Ora, o normal, tivesse o Maranhão cumprido o seu destino, seria exportamos uma produção excedente ao invés disso, importamos tudo.

Poderiam debater e encontrar uma solução para a crescente onda de violência responsável por centenas de mortes só esse ano, milhares nesta década.

Poderiam debater sobre o crescente tráfico de drogas na capital e cidades do interior que atormenta as famílias maranhenses.

Poderiam discutir que fim levou os grandes projetos que principiaram instalar no estado e que hoje se encontram abandonados.

Poderiam discutir que fim levou os bilhões de dólares responsáveis pelo nosso endividamento e que ao olharmos para os lados não vemos resultado dos investimentos que foram feitos.

Como vemos, a pauta a exigir um debate sério é extensa. Temos problemas graves e que cobram um posicionamento firme das autoridades competentes. A educação que consideramos a raiz de todos os demais não pode continuar como está. Faz-se necessário que se resolva esse problema. Se está no ensino fundamental, e acreditamos que sim, urge que o setor trace metas a serrem alcançados por estes estudantes, que se garanta condições de ensino iguais para todos, que se auxiliem os municípios com sua política educacional.

Quantos anos mais suportaremos a situação em que nos encontramos hoje? Quanto tempo mais ficarão suas excelências nesse jogo de empurra ao invés de enfrentarem e resolverem o problema!? A gravidade destes problemas exigem bem mais que discursos ocos ou debates estéreis.

Abdon Marinho é advogado eleitoral.


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Poder

Ousadia ilimitada

Por Abdon Marinho

Advogado Abdon Marinho.

Advogado Abdon Marinho.

Meus amigos que acham que os condenados pelo STF no escândalo do “mensalão” são meras vítimas das elites que manipularam a justiça e os meios de comunicação terão mais um dissabor, motivado mais uma vez pela ousadia ilimitada destes grandes “líderes”. Os mais lúcidos reconhecendo a corrupção desenfreada, acabavam por justificar seus companheiros com a justificativa de que os desacertos, os malfeitos ou outros eufemismos para justificar os atos apurados, comprovados e punidos, foram missões da causa. Os heróis, os guerreiros, sacrificaram suas vidas, seus interesses pessoais, numa missão pelo bem do país. Muitos incautos e até pessoas motivadas pela boa-fé, acabavam aceitar com complacência os abusos perpetrados. Confesso que em algum momento, motivado pela boa-fé das pessoas de bem, dei algum crédito de confiança, a essas histórias, até por consideração aos amigos, que afiançavam com tanta convicção a inocência daqueles. Claro que isso ficou para trás com a conclusão do julgamento e descortinar das provas. Ainda assim ficava a dúvida sobre o enriquecimento pessoal.

Outro dia escrevi sobre o suspeito emprego oferecido por um hotel ao Sr. Dirceu. Porque um salário tão acima do mercado? Que capacidade teria o apenado para recebê-lo? Que tipo de serviços prestaria ao empregador?

Em princípio pensei que se tratasse da contratação de um “lobista” de luxo. Alguém que usaria da influência, que sempre fez questão de exibir, para retribuir a gentileza, ou ainda, alguém que usaria durante o expediente o permissivo legal garantido aos apenados para continuar a prática dos crimes. Porque não? O que impediria? Quem vigiaria o apenado no local? Quem vigiaria o vigiador?

Alguém comentando o texto cantou essa pedra que o jornal nacional tem divulgado desde ontem. Dizia o comentário que esse hotel pertenceria, de fato ao apenado, através da operação Panamá. Vi e não acreditei. Seria muita ousadia. Seria também uma prova de extrema burrice ou falta de cautela. Será não imaginaram que um empregão desses, com esse salário, chamaria a atenção? Será que ainda presos, continuam a apostar que essa é uma terra de ninguém e que algo assim passaria na boa?

Os fatos que estão vindo a público no bojo desse excesso de confiança não são apenas graves por revelar a prática criminosa de pessoas tão importantes da República, que valendo-se dos artifícios de vis delinqüentes, traficantes e outros de iguais naipes se utilizam para ocultar o produto dos seus crimes. Esses mesmos artifícios, ao menos, a primeira vista, parece ser o mesmo utilizado pelos nossos “guerreiros” para ocultar o produto da corrupção, da traficância de influência, dos desvios de dinheiro público.
Uma investigação mais aprofundada, talvez venha a descobrir a origem e o caminho do dinheiro que falta no nosso país. Soterrará, em definitivo, a história da carochinha de que era a “causa”, o bem do Brasil, e essas histórias todas que iludem os tolos e os puros de boa-fé.

Ao que parece estamos diante de uma pataguada, muito semelhante aquela urdida pelo Sr. Collor, com a sua operação Uruguai. Essas pessoas juram amar o Brasil mas sempre correm para os paraísos fiscais em busca de socorro para justificar seus negócios mal contados.

Impressiona como os criminosos não resistem a um exibicionismo. São jóias, carrões, mansões, palácios, roupas de moda, e todos os luxos. O Sr. Dirceu não resistiu a “aurea” de ser um criminoso “modelo”, tão especial ao ponto de arranjar um emprego capaz de causar inveja não apenas aos seus padeiros de Papuda como aos cidadãos de bem que sempre levaram um vida reta e obediente a lei. Talvez essa essa deformação do caráter dos criminosos tenha ajudado o Brasil a descobrir o que essas pessoas, que foram para os presídios como se fossem para uma colônia de férias ,o que efetivamente são: criminosos, bandidos comuns, que extorquiram a nação sem qualquer propósito nobre. Roubaram como todos os demais, para ficarem ricos, para exibirem o produto dos seus delitos à vista de todos.

Sosseguem meus amigos, são apenas bandidos comuns e como tais querem continuar a dirigir seus negócios durante o cumprimento das penas, como fazem o Fernando Beira-Mar, o Marcola e outros próceres do submundo.

Felizmente, ao menos por enquanto, estes ao menos na aparência, estão fora do alcance dos cofres públicos. Cuidemos dos outros que estão soltos e na ativa.

Abdon Marinho é advogado eleitoral.


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