Poder

Os números do boato

Por Abdon Marinho

Advogado Abdon Marinho.

Advogado Abdon Marinho.

Hoje dia do professor, nada mais apropriado que se homenagear os mestres. Neste post lembro meus mestres de matemática que costumavam ensinar com um bordão: “os números não mentem”. São de números que falaremos. Dados da violência na região metropolitana, coletados pela ONG Mapa da Violência e Jornal Pequeno, apontam as “mortes matadas” nos últimos doze anos. Eis os números:

2001 – 244; 2002 – 194; 2003 – 284; 2004 – 307; 2005 – 294; 2006 – 313; 2007 – 391; 2008 – 428; 2009 – 523; 2010 – 569; 2011 – 569; 2012 – 716; e 2013 – 724 (até o dia 15/10).

Não precisa ser um gênio da matemática para perceber que de 2001 para cá a violência só aumentou. Podendo se dizer que a criminalidade foi multiplicada por três. Esse aumento pode ser tudo, menos típico, menos normal. Ainda que a violência tivesse acompanhado o crescimento populacional, não seria natural, muito menos ainda que o índice de quase 200% (duzentos por cento) é muito, muito superior ao aumento da população.

Este ano, caso se mantenha o ritmo atual, fecharemos o ano com quase mil assassinatos. Torçamos que as autoridades acordem e mude esse roteiro de terror.

Os números que não nos deixa mentir, são testemunhas que houve mais duzentos mortos a mais se comparamos o número de vítimas/ano de 2008 com o de 2013. Podemos atribuir como um dos feitos da atual gestão o aumento do número de assassinatos. Trouxeram de quase quinhentos para quase mil. É um feito memorável.

Apesar de tudo, nosso secretário, com incomum falta de senso crítico, acha que nada de atípico acontece no quesito segurança no nosso estado e que a sensação de segurança experimentada pela população é artificial. Como cara-pálida, se quando assumiu o número de mortos mal chegava a quinhentos/ano e estamos com quase mil/ano? Como se a polícia não consegue garantir um mínimo de segurança para população que padece com assaltos a ônibus, roubos de motos, arrombamentos de residências, etc.?

Como se a polícia patina nas investigações criminais?

Tomemos como exemplo apenas o crime que vitimou o jornalista Décio Sá. Temos neste um caso emblemático. O jornalista Décio Sá, embora fosse apenas um “rapaz latino-americano”, como ele próprio se dizia, possuía dinheiro no bolso e muitos amigos importantes, tão importantes que o caso repercutiu no país inteiro e até no mundo. Importante a ponto de ser pranteado pelo próprio presidente do Senado da República no cemitério onde descansa. Importante por ser um dos jornalistas mais lidos, tanto no blogue que mantinha, como nas matérias que escrevia para o jornal o Estado do Maranhão, um dos principais matutinos do estado.

O crime igualmente emblemático por ter ocorrido em plena Avenida Litorânea, na Capital do Estado, à vista de todos que estavam no restaurante onde ocorreu o crime de encomenda.

A polícia mobilizou todas suas forças, delegados especiais para isso, para aquilo, serviço de inteligência, etc. Demorou-se um bom tempo até apresentar algum resultado. Quando apresentou fez-se um estardalhaço, viraram do dia para noite a melhor equipe policial do mundo, o FBI, CIA, Scotland Yard, não eram nada diante da astúcia e engenho da nossa polícia. Tudo esclarecido, executor, participes, cúmplices e até executores, devidamente identificados. Mandados de prisão deferidos, inquérito concluído e encaminhado à Justiça.

Pois bem, o desenrolar da fase judicial revelam que o trabalho feito e festejado como um gol decisivo numa copa do mundo deixava a desejar. Algum dos presos o ministério sequer achou elementos para denunciar, outro foi solto, salvo melhor juízo, também por insuficiência de prova, segundo reconheceu o TJMA, um outro, segundo se notícia, não irá a júri popular.

Não conheço o processo, o que sei é o que leio aqui e ali. Entretanto, os fatos que surgem — não falo aqui das filigranas jurídicas destinadas a inocentar culpados –, dão conta de um trabalho descuidado num crime que colocou em xeque a polícia. Não é aceitável que se represente pela prisão de alguém e depois o ministério público (que dizem ter acompanhado todas as fases no inquérito) não encontre elementos para denúncia, obrigando a justiça a soltar o cidadão. O mesmo se diz em relação a outros que estão conseguindo trazer aos autos outros elementos que não foram objeto do inquérito. O serviço mal feito ou açodado trará consequências para o estado, que fatalmente será condenado a pagar indenização aos que sofreram privação de liberdade e não foram sequer denunciados pelo MPE.

O que surge ainda, na borra do inquérito do caso Décio Sá é as denúncias, feitas pelos acusados e que devem, portanto, serem analisadas com todas as ressalvas possíveis, que a polícia e o próprio secretário, estariam tentando conduzir a investigação no sentido de atingir esse ou aquele desafeto. Essa, aliás, uma prática que ocorre desde muito tempo, mas que esperávamos que tivesse sido extirpada nos nossos dias.

Reitero que não se deve pegar ao pé da letra o que diz acusados ou criminosos de qualquer naipe, estes são capazes de qualquer coisa para diminuir o peso sobre suas costas e pelas motivações mais inconfessáveis, vingança, benefícios e até para livrar a cara de comparsas. Devemos examinar com ressalvas, ponderar e principalmente possuir a prova técnica que referende ou que desfaça as cortinas de fumaça espalhada pelos marginais.

Além dos números, por si só, assustadores, o que alimenta os boatos é falta de confiança no estado e na sua estrutura policial. Neste caso mesmo, inúmeras foram as versões para o homicídio. Versões que vão de consórcio de agiotas, empresários até crime por motivação política. Todas as versões alimentadas pela falta de confiança, pelas informações desencontradas e falta de profissionalismo.

Neste clima vicejam toda sorte de boatos. No caso da nossa segurança os boatos vem com um “plus”, são boatos que matam.

Abdon Marinho é advogado eleitoral.


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Artigo

Números que chocam

Por Abdon Marinho

Abdon Marinho.

Abdon Marinho.

Já falamos diversas vezes sobre a violência que sofre as mulheres no Brasil. A violência manifestada sobre as mais diversas formas no nosso dia a dia ganham ares dramáticos quando examinamos os números. Acabo que ver no JN os dados do IPEA, a cada 1h30min uma mulher é assassinada, mata-se 5,22/100 mil no Brasil. O pior de tudo isso é que a violência continua se dando, praticamente, da mesma forma quase dava antessala Lei Maria da Penha, o que corrobora o nosso entendimento de que não basta a lei para reduzir a violência, necessário que o infrator tenha certeza que será punido, o que não vem acontecendo no nosso país faz tempo. Vivemos um tempo em que os piores bandidos não esquentam bancos nas cadeias, traficantes são presos pela manhã e soltos a tarde, assassinos, estupradores seguem no mesmo rumo.

Entretanto no caso da violência contra a mulher e na forma como se dá é bem mais chocante. Os números revelam, infelizmente, que a maioria dos atos de violência são praticados por pessoas bem próximas, maridos, namorados, pai, irmão, tio, justamente aquelas pessoas que deveriam zelar por elas. A maioria destes crimes são passionais, frutos de relações desfeitas ou deterioradas, que as mulheres, muitas vezes por dependência econômica, permitem que avancem.

Os números divulgados hoje mostram que não avançamos na última década neste quesito, os homicídios continuam os mesmos. E se os homicídios são quantificados, não se consegue esconder mortes, as outras formas de violências, permanecem ocultas, escondidas dentro dos lares, envoltas em nuvens de vergonhas e preconceitos. Alcançam todas as esferas sociais e todos os níveis econômicos.

Em pleno século XXI as mulheres são vítimas do mesmo machismo de épocas medievais, ainda são tratadas como humanos de segunda categoria e, embora trabalhem em dobro, muitas ainda ganham menos que os homens, ainda são traficadas e usadas como escravas sexuais em diversos países, são exploradas por cafetões em nosso país. Todos conhecemos essa realidade, inclusive as autoridades.

Por mais triste que possa parecer há essa terrível desigualdade no Brasil. A sociedade tem evoluído muito pouco neste quesito. O preconceito velado, materializado nos pequenos e nos atos mais extremos. Nas piadinhas infames, na falta de solidariedade, etc. São incontáveis os gestos destinados a inferiorizar a mulher, a colocá-la numa posição de subalterna. Quantas vezes não se ouve, em todos os cantos, piadas sobre mulheres, colocando-as nas piores posições?

D. Maria vá pilotar um fogão, é a menor das piadas. Avançam pela ilação a traição, a lasciva, a traição. Quantas vezes não ouve e se admite que a mulher provocou um estupro? Quantas vezes não são olhadas com desconfiança pelos policiais quando vão as delegacias denunciar algum tipo de violência doméstica ou sexual? Quantas vezes não olhadas com desconfiança por colegas e até familiares? Quantas vezes não se reforça a ideia de que ela provocou a violência? Que direito tem alguém de bater em alguém, viola-la e ainda dizer que a culpa é dela?

A raiz da violência são os pequenos atos de preconceitos, a infâmia das piadinhas, que muitos riem e acham engraçado. Esses pequenos atos, na verdade, sevem para reforçar os estereótipos, a ideia de que uma mulher ou qualquer outra pessoa é propriedade de outrem e que por isso pode se fazer o que quiser. A inocência, acredito que na maioria é por inocência, tem o condão de reforçar a violência.

Abdon Marinho é advogado eleitoral.


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Política

A república dos omissos

Por Abdon Marinho

Abdon Marinho.

Abdon Marinho.

Como já era esperado (porque sempre se pode esperar o pior dos nossos representantes), ontem a Câmara dos Deputados decidiu que um deputado condenado em última instância, com sentença transitado em julgado, poderá continuar ser deputado, deverá ser chamado de excelência e poderá até receber seus vencimentos. Você ver esse tipo de coisa e não consegue acreditar que esse tipo de insanidade esteja de fato acontecendo. Pois está, sua excelência, deputado condenado a 13 anos de prisão pelo STF, inclusive já pediu (antes de ser inocentado pelos seus pares), o pagamento dos salários. Tem todo o direito de receber, se decidiram que pode continuar deputado, porque não pagar os salários enquanto o indigitado cumpre pena no presídio em que se encontra? Tem todo o direito de receber e de apresentar emendas ao orçamento da nação, inclusive uma emenda para melhorar o abastecimento de água do presídio da Papuda.

O acinte a dignidade das pessoas de bem deste país, o insulto as pessoas com vergonha na cara, entretanto, não deve ser atribuído apenas à Câmara dos Deputados, o que aconteceu nesta quarta é fruto daquela decisão de outro dia em que o STF, ignorando a Constituição da República disse que quem decide pela perda do mandato é o Parlamento, sem dizer, sem deixar de forma cristalina, que essa decisão teria caráter meramente declaratória, pois a própria Constituição já diz que há a perda do mandato no caso em que se encontra o deputado, vejamos:

“Art. 55. Perderá o mandato o Deputado ou Senador:
I – que infringir qualquer das proibições estabelecidas no artigo anterior;
II – cujo procedimento for declarado incompatível com o decoro parlamentar;
III – que deixar de comparecer, em cada sessão legislativa, à terça parte das sessões ordinárias da Casa a que pertencer, salvo licença ou missão por esta autorizada;
IV – que perder ou tiver suspensos os direitos políticos;
V – quando o decretar a Justiça Eleitoral, nos casos previstos nesta Constituição;
VI – que sofrer condenação criminal em sentença transitada em julgado.”
Sempre foi assim, não havia muito o discutir. O direito é o que o cidadão médio consegue entender como sendo natural, lógico. As inovações cheias de salamaleques, de senões e “entretantos”, caminham no sentido de desacreditar as instituições, o bom-senso.

Aquela decisão, tomada, acho que a menos de um mês, permitiu a estultice que assistimos e que vivenciaremos daqui para frente, abriu a porteira para que os deputados entendessem que não tem nada demais alguém está cumprindo pena e ostentando o título de representante do povo. Com isso, o Brasil, mais uma vez, mostra ao mundo que não é um país sério. Não assisti a sessão, decerto comemoraram, com direito a dancinha e tudo, o fato de pregarem mais um prego no caixão da decência. Nem os ditadores mais empedernidos ousaram tanto quando ousou o nosso Parlamento.

Diante de fatos como estes, que não é único, no corolário de vergonhas a que somos submetidos diariamente, fico com a impressão de o Brasil está regredindo, andando para trás. Até então quem ousaria imaginar assistir ao que estamos assistindo no momento? Ao deputado condenado foi permitido ir a câmara, fazer pessoalmente sua defesa, tratam isso com tamanha naturalidade que deu no que deu.

Na terça-feira falei da idiotice de se criar um novo tipo penal para os crimes contra as mulheres o tal do “feminicídio”, como se o fato de mudar o tipo fosse reduzir ou representar qualquer coisa em relação a violência. Fizeram uma festa no Congresso Nacional, todo mundo achando a imbecilidade a coisa mais avançada do mundo. Ontem o mesmo plenário serviu de cenário (desta vez só com os deputados), para mostrar ao Brasil e ao mundo as razões da violência. Uma das razões, senão a maior delas, é essa comprovação de impunidade, esse desrespeito ao povo. Se o indivíduo ver um condenado a treze anos de prisão receber salário e ostentar um mandato de deputado federal e os nossos representantes entender que isso é normal, está direito, é correto, ele pode praticar todo tipo de violência, pois tudo está permitido. Matar a esposa, a mãe, a avó e quem mais deseje.

O que estamos assistindo não acontece do nada, não surgiu do ar ou do vento. É trabalho que vem fazendo um grupo para provar que quanto pior melhor, que ninguém é honesto, que todos são bandidos e assim se perpetuarem no poder, de preferência com eleições financiadas com recursos públicos e votação em lista fechada.

Não teremos como examinar os votos, quem são os deputados que votaram pela avalhação do Brasil. Mas nesta absolvição, como em tudo que ocorre desde o início do julgamento da AP 470, há as digitais dos mensaleiros. A votação de ontem foi apenas o começo do que pretendem fazer com os outros ilustres condenados. Ontem tivemos a prova de que não foi em vão o esforço que fizeram para convencer o STF da sua tese, que até aqui, contra os interesses do Brasil, está dando
certo.

Ainda no ano passado alertava para esse tipo de coisa, é só olhar os post’s do período. Infelizmente, ontem, comprovou-se que tínhamos razão. A missa encomendada pelos mensaleiros, começa a surtir seus efeitos na destruição das instituições brasileiras. Os pensadores, as entidades da sociedades também são culpadas pelo disparates que testemunhamos, pela vergonha e o escárnio mundial a que seremos submetidos. Todos os defenderam a tese da bandalha e os que se omitiram, são partícipes do despautério.

Tenho esperança, que diante da reação da sociedade, se é que vai existir alguma, tentem corrigir a lambança de ontem, talvez nem liguem. O povo que se lixe, já disse um. Na quarta-feira, quem disse isso foi maioria dos deputados que absolveu, sua excelência, o condenado.

Abdon Marinho é advogado eleitoral.


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Artigo

Lambança.gov.br

Por Abdon Marinho

O governo brasileiro parece assessorado por uma cambada de idiotas, despreparados e incompetentes. Aliás, o governo não consegue ser competente nem nas suas incompetências. É isso mesmo são incompetentes até em serem incompetentes. Se é que isso é possível.

Não vamos muito longe, em menos de duas semanas o governo deu provas de total falta de sincronia com os acontecimentos. Logo no começo das manifestações tivemos as decorações desastrosas dos ministros da Casa Civil e da Justiça. Com suas declarações, usaram a velha tática de apagar incêndio com gasolina. Tudo porque queriam cabalar uns votinhos. Cuspiram para cima e Brasília tornou-se uma praça de guerra na quinta-feira passada.

Podiam ficar nisso. Não ficaram, preferiram expor a presidente da República ao vexame de um pronunciamento a nação, cujo teor, antes que terminasse de ser exibido já era contestado de norte a sul do país. Não se tratou de contestação ideológica ou de posição política, presidente apresentou dados falsos, incompletos e com razão foi chamada de mentirosa pela turba. Um final de semana para refletir e respeitava-se respostas para a sociedade, algo assim. A presidente convocou todos os governadores e prefeitos de capitais, diante de todos convocou um pacto pela nação. Lançou cinco pontos, todos mais para frente, uma forma saudável de enganar a patuleia. Ainda assim, mais uma vez, revelou-se o desastre.

Os pontos do pacto começou a ser questionado ainda ontem. E não foi apenas pela oposição. Os governistas criticam. O ministro da justiça já diz que algum será revisto. Nem falarei do mérito deles agora, tratarei noutro momento.
Me expliquem como é possível a presidente da República lançar um pacto diante de toda a representação da federação e já no dia seguinte se dizer que vai se rever, que não é bem isso? Como meus amigos, estamos falando da República Federativa do Brasil ou de Saramandaia, a antiga Bole-Bole da ficção? Estão brincando com a população? Temos um grupo de aloprados no poder?

O vice-presidente diz que a Constituinte proposta é “inviável”, o ministro da justiça diz que o governo cogita recuar. Onde estamos? Estão todos loucos?

Um dia se lança cinco metas. No dizem que serão só quatro. O que aconteceu? Neste realismo que parece além do fantástico, podem simplesmente dizer que mudaram porque o Lula só poderia contar na mão até quatro, e ficaria tudo por isso mesmo.

Meus amigos, não parece, mas estamos falando da Presidência da República. Essa onda de desacerto não pode ser considerada como normal. A Presidente não pode vir a público e dizer uma coisa num dia e ser tida por mentirosa no dia seguinte ou dizer algo e recuar no dia seguinte. Governar é coisa séria, não comporta esse tipo de experiência, esse tipo de bizarrices.

A ideia de uma Assembleia Nacional Constituinte foi desvirtuado para uma reles tentativa de iludir o povo com uma suposta reforma política. Precisaríamos de uma constituinte para reformar o estado. O Brasil possui maturidade suficiente para isso. O governo não quer isso. A proposta que dizem, agora ser apenas uma cogitação, tratava-se de um mero arremedo, uma cortina de fumaça das desviar a atenção.

A impressão que fica é que a presidente está cercada de energúmenos que não possuem qualquer capacidade para poupá-la de tantos vexames públicos. Como é possível sugerir algo a presidente, fazê-la se comprometer com toda aquela empáfia diante de todos os governadores e hoje dizerem que não é bem isso? A presidente não pode ser submetida a esse tipo de coisa, a esse tipo de constrangimento, a esse tipo de vexame, fica muito feio para sua imagem e para a imagem do Brasil mundo a fora.

Depois de tudo isso uma coisa é certa, fazia tempo que o governo não abusava tanto do direito de errar. Resta saber é por quanto tempo mais iremos agüentar essa experiência, que só num mundo irreal poder-se-ia chamar de governo.

Abdon Marinho é advogado eleitoral.


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Artigo

Não me representa

Por Abdon Marinho

O bordão acima é repetido como um mantra e serve para quase todas as situações. Nestes dia de revolução, então, o escutamos e o visualizamos em todos os lugares. Esse não me representa, aquele não me representa, aquilo não me representa, etc., etc.

Pois bem, bastou dizerem que os partidos políticos não os representam e mais de noventa por cento se declarem sem filiação ou apartidários ou simplesmente que não se sentem representados por nenhum deles, que o mundo quase veio abaixo.

Inicialmente vieram com aquela história de fazer chacotas “apartidários de partido tal”, “apartidários de partido sicrano”. Em seguida partiram para a desqualificação, são fascistas, são golpistas, querem entregar o país aos militares, e por ai vai.

A nenhum dos inspirados ocorreu a ideia de se perguntar o que está ocorrendo. Por qual razão as pessoas tem tanta ojeriza aos partidos políticos. Será porque, ainda que inconscientes, as pessoas desconfiam que os partidos são verdadeiros balcões de negócios? Será porque tenham uma ideia que muitos políticos usam os partidos para se locupletarem? Será porque desconfiam que aquele cidadão, que nunca fez nada vida e ficou rico, enricou roubando o dinheiro público? Será pelo fato dos partidos ao invés de se preocuparem com os assuntos do país, só estão preocupados em ganharem a próxima eleição, se apoderarem do poder e dos recursos públicos como se deles fossem donos? Será que é por sentirem nojo de verem a atividade política se tornar um rentável negócio de pai para filho, neto, esposas, amantes e afins?

O Brasil tem dessas coisas. As pessoas não costumam assumir os próprios erros. Assim como as pessoas, os partidos que na verdade não conseguem ir muito além de um reduzido grupo, mais ainda. Eles não conseguem enxergar o que acontece com o país hoje. E não conseguem porque há muito tempo perdeu o rumo, perdeu a ideologia, perdeu os valores. Tornaram-se artífices do toma lá, dá cá. Só querem saber de espaços no poder. E muitos não querem poder para fazer algo de positivo para a população e sim para “se arrumarem”. Arrumarem a si e aos seus, de preferência os da família. Usaram nos últimos anos a lógica do poder pelo poder e estranham que as pessoas finamente tenham se dado conta disso. Pensavam que faziam tudo escondido, no entanto estavam à vista de todos. Será que pensaram que o povo não estranharia que o cidadão que nunca fez nada na vida além de política aparecesse rico do dia para noite. Que o filho de fulano que nunca trabalhou, aparecesse com fazendas, mansões, carrões e aviões? Será que apostaram na ignorância e na cegueira coletiva a esse ponto?

Estão perplexos. Mais perplexo está o povo ao perceber que outrora não tínhamos uma dúzia de ministérios e que sabíamos o nome de cada um dos ministros pois aprendíamos na escola e hoje temos trinta e nove, o último criado as escâncaras para atender um partido político e que não sabemos o nome de quase nenhum, exceto dos que cometem o deslize de serem pegos roubando os recursos públicos. Falta apenas mais um para podermos dizer lá vai D. Dilma e seus quarenta… Ministros.

A perplexidade com grito das ruas de que o povo não se sente representado soa mais como um cinismo deslavado e arrematado. São quase trinta anos de abusos e mais abusos, de saques e mais saques. A população ali resignada pagando seus impostos em dias, sendo descontada na fonte, uma das maiores cargas tributárias do mundo e um dos serviços públicos piores do mundo, enquanto seus representantes dormiam e dormem pobres para acordarem ricos. Será que não acharam ser tempo demais?

Antes dos partidos e dos políticos virem com sua afetada indignação e ar de espanto, devem olhar para dentro de si e de suas organizações partidárias e verem o que se tornaram. O povo não se sente representado por que nos cargos públicos só tem espaço para íntimos, os parentes, aduladores. O povo não se sente representado por que constituíram uma casta que pode tudo enquanto o povo tem que festejar por haver conseguido uma cirurgia de catarata. O povo não se sente representado porque muitos agentes públicos usam os cargos de assessores e de serviços prestados para fazerem uma renda extra. O povo não se sente representado porque não agüentam mais tanto silêncio diante dos escândalos que brotam todos os dias. O povo não se sente representado ao ver o dinheiro público descendo o ralo, como no caso de dezenas de obras iniciadas com propósitos meramente eleitoreiros e que estão abandonadas ou com o assalto puro simples como no caso da refinaria do Texas que comprada por mais de um bilhão não acha quem pague por ela nem décimo do valor. O povo não se sente presenteado por isso, por muito mais, como por exemplo por estado perdulário mastodôntico e aparelhado por siglas partidárias. Como é possível uma nação ter mais de vinte mil cargos comissionados para serem manobrados ao sabor das conveniências políticas?

Senhores políticos, antes de se sentirem perplexos façam um exame de suas consciência vejam o que fizeram nos últimos
anos. Isso se ainda tiverem alguma consciência, claro.

O povo não se sente representado por uma singela razão, está cansando do papel que lhe foi reservado: o papel de trouxa.

Abdon Marinho é advogado eleitoral.


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Política

Lentidão

Por Abdon Marinho

Muitas críticas que fazem à administração de São Luís nada mais são que parte do jogo da política. Aquela velha ideia de jogar todos na vala comum ou ainda de dizer que “meu amigo não tem defeito, o adversário se não tiver a gente arranja”. Apesar disso algumas são pertinentes, como veremos abaixo.

Uma das poucas obras feitas pela administração anterior com significância para melhorar o fluxo de veículos foi a ampliação da Avenida Litorânea e a construção das pontes sobre o Rio Pimenta. Com elas grande parte dos veículos já pegam atalhos pelo bairro Olho D’água, e aliviam o trânsito quase sempre caótico na Avenida dos Holandeses, faço esse percurso todos os dias e sei como é o drama e como melhorou um pouco. O elogio acabou aí. Como não poderia deixar de ser a obra ainda não tinha sido inaugurada e já apresentava defeitos. As primeiras chuvas a danificou em alguns pontos, que, até pela falta de tempo da gestão passada não foram corrigidos.

A atual gestão parece que segue no mesmo passo da administração anterior. Logo no acesso a avenida, já na atual administração colocaram duas leiras no acesso da avenida, de um lado e do outro da pista, fazendo com que os veículos tanto os que vem como que vão tenha que invadir a outra pista para conseguir passar, provocando riscos a segurança no trânsito. Pensei que fosse algo transitório que no outro dia estariam fazendo as correções para que o trânsito seguisse normal. Ledo engano acho que já faz um mês e nada foi feito, sequer se ver trabalhadores no local. A presença do poder público só se manifesta pelas leiras atrapalhando o trânsito.

Vamos combinar, leiras de terra como se fossem par de jarros não enfeitam a avenida. Não tem sentido que fiquem lá por tanto tempo obstruindo a passagem dos veículos. Se a prefeitura não tem, já passa da hora de contratar alguém com visão e sensibilidade, que enxergue os problemas da cidade, que veja as coisas com os olhos dos cidadãos, que busque as soluções o mais rápido possível.

A continuar assim ficaremos com a sensação que o governo não mudou que continua o mesmo governo do ano passado. Pois é, ano novo com cara de ano velho.

Abdon Marinho é advogado eleitoral.


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Poder

Em termos

Por Abdon Marinho

Alguém indaga: “Tu és contra ou a favor disso? Aprovas ou desaprovas aquilo?” A ninguém ocorre indagar: “o que você acha disso ou daquilo?” A impressão que tenho é que vivemos em um mundo totalmente dicotômico, onde não se é admitido uma terceira opinião, um meio termo, etc.

Ora, as pessoas comuns, o cidadão médio não tem obrigação de filiar-se ou alinhar-se automaticamente a determinada causa ou a cerrar fileiras por essa ou aquela ideologia. Essas pessoas têm o direito de dizerem com todas as letras: “em termos”. O direito de dizerem isso sem qualquer constrangimento. Atualmente vivemos dias de estranha covardia onde as pessoas para não ferirem suscetibilidades de amigos, colegas ou parentes acabam concordando com coisas que a sua consciência íntima não aceita ou que repudia.

Esse é um maniqueísmo perverso que tenta colocar as pessoas contra a parede e a terem uma opinião sobre um tema qualquer. Pior que isso, as patrulhas tentam levar essas pessoas para as causas como se fossem um troféu. As questões complexas, e elas são muitas, admitem, sim que se tenha uma opinião intermediária, conforme o caso se apresente.

Tomemos a questão do aborto, como exemplo, apenas como exemplo. Muitas pessoas são favoráveis ao aborto em determinados casos e contrários noutros casos. Isso não diminui em nada uma pessoa que pense assim, porque são situações distintas. Uma coisa é você ser contra o aborto no caso de estupros, risco de vida para mãe, de fetos sem cérebros, etc., outra coisa é você ser favorável ao aborto simplesmente porque a mãe arrependeu-se, não tomou as precauções contra conceptivas ou que, embora quisesse engravidar não concorda com o sexo do bebê. Como disse, trata-se um exemplo. Segue outro: não acredito que exista na face da terra uma pessoa capaz de defender o consumo de crack, oxi ou outros substratos. A imagem daquelas pessoas vagando como zumbis pelas ruas choca qualquer um, destrói famílias inteiras, cidades inteiras, sobretudo as menores onde essas drogas começam a chegar com força. Você não pode igualar essa situação a situação de alguém que fuma baseado de maconha uma vez ou outra.

O que quero dizer é que diversas questões do nosso dia a dia, admitem um meio termo. O “em termos” não pode ser banido da discussão como se não existisse. Os exemplos citados, existem diversos. As pessoas que adotam posições intermediárias precisam ser respeitadas nos seus posicionamentos.

Outro dia li uma entrevista onde uma escritora, roteirista, dizia que hoje tinha muito mais medo de dizer o que pensa do que no tempo da ditadura. Essa é uma afirmação gravíssima para o que entendemos como evolução social. Se estamos bem piores no quesito livre expressão do pensamento do que nos sombrios tempos da ditadura significa que estamos regredindo enquanto sociedade, que estamos nos tornando cada vez mais intolerantes.

E é verdade. O Brasil avança a passos largos para uma sociedade intolerante onde cada grupo de pressão que impor sua doutrina, seu pensamento, seu estilo de vida, sem respeitar as opiniões contrárias ou o espaço dos outros. As pessoas se acham no direito de se sentirem ofendidas com a forma como o seu vizinho leva sua vida. Passam mais tempo cuidando da vida alheia do que da sua própria. Pior que isso, só o patrulhamento, a intolerância, o desrespeito e a violência moral e física. A que ponto estamos chegando?

A intolerância que nos remete à idade média está presente em tudo, na política, na religião, na vida social. Você tem que dizer que apoia esse ou aquele candidato. Se apoia não tem o direito de ver seus defeitos, só as suas qualidades e fazer o oposto em relação ao adversário. Vamos combinar, isso é uma estupidez sem tamanho, né?

O cidadão para ser considerado moderno tem que seguir uma cartilha com posições predefinidas, você não pode fugir de nenhum dos itens da cartilha sob pena de ser considerado inimigo da causa ou um reacionário. Mas me digam uma coisa, existe algo mais reacionário, autoritário e retrogrado do que se padronizar comportamentos? Como podemos avançar socialmente sem o livre-pensar? Sem o contraditório?

As pessoas de bem precisam dizer que não aceitam as patrulhas de nenhuma espécie. Que luta é por uma sociedade livre onde os direitos de todos sejam respeitados e garantidos.

Abdon Marinho é advogado eleitoral.


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