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Guerra do papel contra o eletrônico

Por Pedro Cardoso da Costa

No início, toda transformação traz uma insegurança. Isso já está assimilado por todos. Mas as mudanças são inerentes e inevitáveis ao humano, e até a qualquer existência viva. Na sociedade existem mudanças chocantes, incompreendidas e assustadoras no início. Outras são mais vagarosas e de fácil assimilação. Nenhuma, entretanto, nenhuma se consolida com naturalidade.

Há algum tempo se discute a implantação do processo eletrônico na esfera da administração pública e mais precisamente no Poder Judiciário. Já na administração em geral o processamento eletrônico para comunicados, circulares, avisos, relatórios e controles em geral, como fichas.

A grande vantagem seria acelerar os julgamentos dos processos, com vista a acabar com a morosidade secular.

No longínquo 2006 foi aprovada a Lei 11.419 para normatizar as regras de instalação do processo eletrônico.

Apesar das incontestáveis vantagens, até agora o processo eletrônico ainda patina e, na visão de alguns, traria muitos riscos.

Os saudosistas do papel alegam, principalmente, falta de preparo dos servidores públicos. Argumento insustentável já que hoje as pessoas lidam naturalmente com as tecnologias, ainda mais aquelas que prestam concurso público.

Também haverá a extinção natural de algumas seções ou departamentos. Os protocolos e os arquivos só existirão, enquanto os atuais documentos físicos não forem digitalizados. Não haveria por que manter uma seção física para dar número de identificação que pode – e deve – ser criado automaticamente no sistema que for utilizado para movimentação dos processos e de documentos.
Também deve ser forte o lobbie de fabricantes de papel, de impressoras, de canetas, de porta-bloquinhos e de tudo vinculado ao papel.

A primeira seria a manutenção da qualidade dos documentos no computador, impossível em autos físicos. Não haveria necessidade de numerar páginas e colocar certidões de toda natureza. Os documentos são provas por si e a identificação de quem esteja praticando todos os atos ocorre no momento do acesso aos sistemas.

As vantagens superam em muito alguns problemas iniciais. Não haveria necessidade de imprimir documentos produzidos em computador para redigitalizá-los depois de machucados, rasgados e/ou manchados e a custos altíssimos. E muitos cargos de chefia se tornarão desnecessários, pois todo o gigantismo da administração pública se deve à existência do papel.

Além disso, evita despesas com transportes, armazenamento, pois é incomparável os espaços ocupados com a papelada, mesmo daqueles órgãos que optem por guardar cópias em mídias, como CDs, DVDs e pen drives.

Causa estranheza a lentidão na implantação do processo e de documentos eletrônicos de forma universalizada em todos os órgãos judiciais e de toda a administração pública direta e indireta. O papel pode continuar para outras utilidades, não para processos e documentos que já deveriam ter sido extintos há alguns anos.

Pedro Cardoso da Costa é de Interlagos (SP), Bacharel em direito.


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País de pedintes

Por Pedro Cardoso da Costa

Todos os dias somos abordados nas ruas, nos ônibus e até em nossas casas por pessoas com folhetos, listas e outros meios para pedirem ajuda, especialmente para comprar comida e remédios, mas também com alegações das mais variadas e inimagináveis. Ajuda aos favelados, aos vizinhos em dificuldade e aos empregados domésticos são as mais comuns, além dos meninos de rua e outras mil e uma entidades de proteção a menores desamparados. Tornou-se rotina o que seria para ocorrer esporadicamente. Hoje não se faz um percurso de ônibus, independente da distância, sem a presença de dois ou três pedintes. Os ex-dependentes de drogas ajudando as casas que lhes salvaram estão na crista da onda.

A hipocrisia da sociedade sustenta essa conduta viciada. Erro não há em pedir ou em dar. Mas se deve tomar muito cuidado. Pedidos dessa natureza deveriam acontecer somente em casos excepcionais. Pede-se “porque seria melhor do que roubar”. Esse quadro reverter-se-á quando não tiverem vergonha de trabalhar, por mais humilde que seja o serviço. O “caridoso” também deve exigir alguma retribuição e nunca entregar o pão fácil, especialmente em dinheiro. O país da caridade excessiva é o mesmo da miséria absoluta. Esses itens, somados às religiões, contribuem para a manutenção desse espírito de solidariedade que sustenta a pobreza como virtude humana.

Devido à amplitude do tema e ao pequeno espaço, o enfoque se restringe a alertar a população dos cuidados que devem ser tomados com o objetivo de evitar que esse benefício não se torne um mecanismo de vida fácil. Pedir é difícil enquanto não é meio de vida. Depois, falar em trabalhar para quem se acostumou a pedir é incorrer em sério risco de ser agredido física ou verbalmente.

Recentemente, devido ao Ipobe – e miséria é campeoníssima nisso – algumas emissoras de TV vêm incentivando e fomentando essa prática de pedir a qualquer custo como o único meio de solucionar problemas financeiros individuais. Antes, por meio de jogatina dos tele-900, disfarçada de amparo assistencial às casas beneficentes e de outras atividades sociais, e hoje com programas meramente assistencialistas apenas para aumentar a audiência.

A função que seria das instituições públicas passou à sociedade, que dia a dia sente-se mais responsável pela substituição do papel das autoridades administrativas. Ora, ao contrário de darem certas soluções momentâneas e paliativas, todos deveriam unir-se para cobrar daqueles que têm a obrigação e o dever de solucionarem os problemas. Com as melhores das intenções em ajudar, essa gente contribui para isentar os administradores de suas responsabilidades. Estes, como regra, vivem a dizer que são o reflexo da sociedade.

Apesar de ingênua, as ações sociais da população ainda são melhores do que as medidas oficiais utilizadas apenas para enganar o povo.

Brasileiramente, somos campeões em resolver um problema criando outro maior. Esse assistencialismo gratuito e vulgar gera chefe de grupo de crianças pedintes e “pais adotivos” de toda sorte. Essa jogatina deve ser substituída apenas por uma linha de atuação mais independente e corajosa das emissoras. E acabar com esse faz de conta. As pessoas, em lugar de choramingar alguns gramas de comida, deveriam se organizar mais para protestar, buscando uma solução definitiva para a fome. Embora contra a vontade de muitos exploradores da miséria, basta luta e responsabilidade para acabar com essa fome institucionalizada que existe no Brasil.
Problemas sociais se resolvem com projetos e trabalho, muito trabalho.

Pedro Cardoso da Costa é de Interlagos, São Paulo, e Bacharel em direito.


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Golpistas?

Por Abdon Marinho

Acho que fica em 1987. O então presidente da República, José Sarney, visitava o Rio de Janeiro, compromissos oficiais, obras, etc. Em um dos trajetos uma manifestação organizada pelo Partido dos Trabalhadores – PT, Partido Democrático Trabalhista – PDT, Central Única dos Trabalhadores – CUT e outros movimentos sociais, atacaram com paus e pedras o ônibus que conduzia o presidente e sua comitiva. Os manifestantes protestavam contra as políticas do governo e bradavam o FORA SARNEY!

Pois é, há apenas dois anos do fim do círculo militar que durara vinte e um anos, militantes partidários protestavam contra o governo – até fazendo uso da violência –, e ninguém ousava dizer que pregavam o golpe ou, por vias transversas, o estimulava ao pedirem a renúncia, a cassação ou o impedimento do presidente.

Está bem, dirão que Sarney não fora eleito pelo povo e sim como vice-presidente de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral. Acontece que este tipo de eleição era a prevista na Constituição de então. Ainda assim era um presidente da República. Seu afastamento – por qualquer – razão representaria um risco a consolidação das instituições. Sem perder de vista que o Regime Militar poderia voltar numa situação de risco ou de vazio de poder.

As lideranças políticas do PT, PDT e CUT não entendiam assim. Estava em curso uma manifestação legítima, ainda que violenta, contra o usurpador Sarney, que se danasse as instituições ou a possibilidade de retorno dos militares ao poder.
Em 1992, os mesmos partidos, juntamente com dezenas de outras organizações estavam na linha de frente das manifestações que pediam o FORA COLLOR!

As manifestações serviram de combustível ao processo de impeachment que o primeiro presidente da República eleito diretamente pelo povo, sofreu. A Câmara dos Deputados recebeu a denúncia formulada pela Associação Brasileira de Imprensa – ABI e pela Ordem dos Advogados do Brasil – OAB, afastou o presidente que dois meses depois era julgado pelo Senado da República e cassado o mandato. Abrindo lugar para o vice-presidente Itamar Franco que concluiu o mandato para os quais foram eleitos em 1989.

Estes partidos, entidades, associações e a sociedade em geral, praticaram golpe contra Collor? Colocaram em risco a democracia? As instituições?

No governo de Fernando Henrique Cardoso, que sucedeu a Itamar Franco, eram comuns manifestações dos partidos de oposição, principalmente do Partido dos trabalhadores – PT, pedindo a saída presidente, sua cassação, seu impedimento, confeccionaram até adesivos para carros e produziram diversos materiais com a marca FORA FHC!

Estas manifestações eram golpistas, antidemocrática, contra a ordem institucional? Eram um apelo para que o país caísse no abismo? Voltasse ao comando dos militares?

Claro que não. Na opinião de todos estes partidos políticos e organizações, eram todas manifestações democráticas que fortaleciam a democracia.

Agora, alguém diz que atual presidente é feia e seus partidos aliados (os mesmos que estavam gritando fora para todos os presidentes antes dela), passam a dizer que se trata de um golpe, que a sociedade não pode falar em impeachment da presidente, que são direitistas, que querem a volta da ditadura, dos tempos sombrios, do fim das liberdades individuais e fundamentais dos cidadãos brasileiros.

Tem algo fora do lugar. Só agora protestar é antidemocrático? Golpista?

A presidente superou, em impopularidade, dois ex-campeões da categoria: Sarney e Collor. Apenas 8 porcento (oito por cento), dizem que seu governo é bom ou ótimo, 20 porcento (vinte por cento) que é regular e o restante que é ruim ou péssimo.

Esta imensa maioria, segundo os nossos sábios, não podem protestar ou pedir, dentro da lei e de forma pacífica, que a presidente seja afastada, sofra processo de cassação, simplesmente, gritar, como outrora podia: FORA DILMA!

Se fizerem isso são golpistas, militaristas, defensores da ditadura. Ainda mais, quando a população, com razão, se sente enganada pela presidente e por seu partido, que fizeram o oposto do que prometeram à população no processo eleitoral.

Ora, então a opinião da larga maioria de nada vale numa democracia? Vivemos uma ditadura da minoria.

Vejam bem, não estou aqui defendendo o processo de impeachment em si. Antes disso, defendo o direito da sociedade – que todas as pesquisas informam ser a grande maioria –, de protestarem, de pedirem o afastamento da presidente ou de quem quiser, sem ser tachada de reacionária.

O direito de protestar é uma das nossas conquistas.

O impedimento, caso venha, também não é motivo de alarme ou de sepultamento da democracia e das instituições.
Não é.

Pelo contrário é a prova cabal que as instituições estão em regular funcionamento.

O que temos que garantir é que tudo que venha ocorrer, aconteça dentro das balizas da Constituição e da lei.

O ordenamento jurídico pátrio, todos sabem, possuem regras disciplinando como deve e quando dever ocorrer o impedimento do governante. Basta seguir, como já fizemos na noutra oportunidade, sem que o mundo viesse abaixo.

A Constituição no artigo 79 trás a possibilidade de substituição por impedimento e sucessão: “Art. 79. Substituirá o Presidente, no caso de impedimento, e suceder- lhe-á, no de vaga, o Vice-Presidente.”

Não existe palavras inúteis na lei. Se consta a possibilidade de impedimento e sucessão no curso do mandato, não passa de tolice a argumentação que o eleito tem que completar o mandato para o qual foi eleito. O vice-presidente não é eleito só para a eventualidade de ocorrer uma morte no curso mandato.

Defender que um governo, que possa haver cometido os delitos, de que trata a Constituição, ao argumento de que isso levará o país ao caos, ao golpe, a instabilidade, não passa de uma tolice e de um desserviço à nação.

Abdon Marinho é advogado.


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Governo em coma profundo

Por Pedro Cardoso da Costa

Numa entrevista ao jornal Folha de S.Paulo nessa semana a presidenta Dilma Rousseff repetiu as bravatas comuns aos políticos que passam a vegetar com seus mandatos.

E, de novo, o mantra pessoal da sua prisão e tortura pela ditadura militar embasou seu poder de resistência. Os chamados resistentes colocam como se só tivessem praticado coisas boas ou positivas. Não é bem assim. Mas não vou entrar no mérito porque requer maior aprofundamento no debate. Importante é que ninguém a forçou a nada. Sua tese de que não denunciou nenhum colega de luta e de que foi torturada são afirmações pessoais. Ainda que bem provável, não se tem nenhuma certidão do outro lado da versão para confirmar suas afirmações.

Sobre sua solidez na Presidência da República é filme repetido. Todo governo começa a demonstrar fragilidade quando se utiliza de autoafirmação. Na queda de Fernando Collor, quanto mais ele caminhava para o fim mais vendia virtudes. São provas suas pirotecnias atléticas e suas camisetas afirmativas.

Ainda não há clareza sobre a existência de elementos concretos que se enquadrem nos requisitos legais para o impeachment. Mas isso se pode falar aqui do lado de fora. É preciso verificar se a opinião é a mesma dentro do Ministério Público e dos demais órgãos de investigação.

Os delatados, como a presidenta, esquecem-se de que os agora desrespeitados delatores foram escolhidos e eram íntimos deles. Os de fora nunca tiveram nenhum deles em festa de casamento, nem tinham intimidade para chamar nenhum pelo diminutivo. Paulo Roberto Costa era o Paulinho de Lula, e não de nenhum outro.

Os governos são parecidos com os treinadores de futebol. São exclusivamente responsáveis pelos números positivos; os negativos são de responsabilidade dos cidadãos, de alguns órgãos do próprio governo, da oposição e da sociedade em geral, as verdadeiras vítimas.

Atualmente, quando todas as ações fantasiosas do passado estão dando o resultado lógico, a culpa é atribuída à crise internacional. Esta mesma que, no seu auge, o ex-presidente Lula garantiu que chegaria uma marolinha no Brasil.

Quem não vende ingenuidade, não pedirá a saída espontânea da presidenta porque sabe da impossibilidade. Os 12 anos de governo deveram-se às ilusões vendidas. Talvez nem todas tenham sido de má-fé. Como qualquer outro, eles farão o que for preciso para continuarem. Colocarão o país no caixão pelos anos que faltam. Para quem está no poder, não tem a menor importância que o caos tome conta.

Já para a saída da presidenta seria suficiente o principal fundamento defendido pelo próprio Partido dos Trabalhadores de outrora: a falta de legitimidade. Dizia o PT que um governo que, antes de tudo, qualquer governo só se sustenta com legitimidade. E os 9 porcento de aprovação só podem advir dos beneficiários direta ou indiretamente de cargos comissionados.

A presidenta vem demonstrando reiterada desconexão na coordenação de suas ideias e palavras. Esse coma profundo em que o governo se encontra não preocupa aos defensores da permanência do mandato até o fim, pouco importando se a morte cerebral já tenha sido diagnosticada.

Nessa linha de se vitimar pelas próprias escolhas, Mario Sergio Cortella coloca sempre que, no Nazismo, muitos preferiram morrer a matar inocentes.

Pedro Cardoso da Costa é de Interlagos/SP e Bacharel em direito.


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Violência: o tema incontornável

Por Abdon Marinho

Abdon Marinho.

Certa vez, há muitos anos (acho que meados dos noventa), perguntei ao jornalista Walter Rodrigues a razão dele não publicar o seu “Colunão”, na segunda-feira, à época encartado nas edição de domingo, no Jornal Pequeno, quando, por algum motivo, o mesmo não circulara (alguma prensa quebrada, atraso na entrega, etc).

Como, muitas vezes, discutíamos determinados assuntos, ficava curioso para ver a abordagem na edição impressa. Aliás, a primeira coisa que fazia todas as manhãs de domingo, antes mesmo do café, era correr, para ler os jornais.

Respondeu-me, o grande jornalista: – Prefiro deixar para a terça–feira, Abdon. Geralmente, as edições das segundas são tomadas por cenas de violência, corpos, não gosto de misturar.

Cheguei a fazer uma pilhéria com ele de que as edições de segunda-feira eram edições de segunda.

Não pretendia me ocupar de falar deste tipo de pauta. Infelizmente, diferente daqueles tempos, a pauta da matança não ocupa mais os jornais só às segundas, pegando o rescaldo dos fins de semana, mas todos os dias. Tornou-se incontornável, não só para a imprensa, mas para toda sociedade.

Em pleno meio da semana, não consigo olhar para a capa de O EMA, lá, amarrado em um poste, um corpo amarrado.

Era a última vítima de um linchamento, na capital do estado. O primeiro com vítima fatal deste ano, neste atual governo.

Nos últimos anos tivemos diversos casos idênticos. Lembro de ter me reportado a mais de um em meus textos. Um dos que narrei, com certeza, foi o do adolescente (acho que tinha 15 anos) trucidado e morto por taxistas em um bairro da periferia da capital, em pleno Domingo de Páscoa.

Além do crime em si, da barbaridade, da idade da vítima, o que me fez escrever sobre o tema foi esse: era Páscoa, tempo de ressurreição, de moderação, reflexão, entretanto, pessoas, até onde se sabiam, “de bem”, trabalhadores, se ocupavam em sujar as mãos – que, talvez mais cedo, tenha carregado a sagrada hóstia à boca – com o sangue de um adolescente.

Como não sou militante da área jornalista e sim, um advogado que escreve uma vez ou outra, não sei os desdobramentos do caso, se o crime foi investigado, se os autores foram identificados, se alguém foi preso, responde a processo ou se, simplesmente, ficou o feito pelo não feito, o dito pelo não dito.

Desconheço também as razões que motivou o EMA a estampar, em sua capa, foto tão chocante, colocando ainda um chamamento a reflexão, em detrimento do outro fato ocorrido não faz muito tempo, tão ou mais grave, quanto o de agora, e decretar de pronto, a falência total do governo que se instalou em janeiro último.

Claro que o fato é gravíssimo, horrendo, inqualificável. Mas já o era quando fizeram o mesmo com o adolescente em plena páscoa, com os outros tantos, antes e depois.

Por que só ficaram indignados, horrorizados, agora?

Talvez aí esteja o cerne da questão.

Os políticos, os governos, deixaram de se preocupar com o enfrentamento da violência para se ocupar de politicagem, a fazer proselitismo, enquanto as pessoas andam assustadas nas ruas, com medo de colocar os pés para fora de casa, com medo de ficarem dentro de casa, de irem para o trabalho e não voltarem.

Enquanto isso os nossos políticos se ocupam de fazer proselitismo, angariar votos com suas posições: reduzir ou não a maioridade penal? Punir ou não os que cometem crimes?

Tudo é debatido sob a égide da busca de votos, de angariar simpatia dos grupos de pressão.

Quando defendo, como cidadão, um endurecimento da legislação penal, o faço na convicção que a impunidade tem sido um dos motores da criminalidade, quando defendo a punição conforme o crime cometido, não importando quem seja o autor (desde que tenha capacidade de discernir), o faço na certeza que o atual modelo é muito mais prejudicial à sociedade, jovens, mulheres, crianças, velhos, não porque quero agradar este ou aquele.

O Brasil não pode mais sacrificar vidas enquanto os políticos discutem olhando para o umbigo.

Os atos de linchamento que vitimaram um adolescente e um adulto, ambos ladrões, tendo o adulto perdido a vida de forma horrível, serviram, mais uma vez, de combustível a uma tola batalha ideológica, com deputado chamando maranhenses de psicopatas (como se linchamentos não estivessem cada vez mais frequentes em cada canto país), com outros fazendo analogia entre um quadro retratando um negro no troco sendo chicoteado (no tempo que precedeu a lei Áurea, em 1888, e que na verdade, embora fatos reais, tenham ocorridos, a imagem retratada é apenas um quadro, bem famoso, por sinal) e o ladrão trucidado no poste.

São coisas absolutamente distintas, não vejo sentido na analogia, nem em tantas outras teses, que se discute diante do fato, inclusive das que querem transformar a sociedade em psicopata e o ladrão em vitima indefesa.

Fico com a clara impressão que os políticos brasileiros habitam um mundo paralelo. Pois se ocupam de discutir a violência em abstrato enquanto a violência que massacra a sociedade brasileira diariamente é algo bem concreto. Ocorre, toda hora. É uma guerra, em que a sociedade, os homens de bem estão em clara desvantagem, perdendo.

Claro que não é desculpável, sob qualquer aspecto, a sociedade tomar para si o papel de estado, sobretudo para prender, julgar, condenar e aplicar a pena que achar devida, inclusive a de morte (inexistente no direito penal, mas bem real no dia a dia), pelo contrário, acho que os responsáveis precisam ser identificados, processados, julgados e punidos.

Por outro lado, a sociedade, entre os quais aqueles que fazem “justiça” com as próprias mãos, assim agem, diante da omissão cada vez presente do Estado.

O Brasil caminha para o caos, para a mais completa desordem, e os governantes não se dão conta disso. O que mais tenho ouvido de pessoas de bem, cidadãos trabalhadores, pagadores de impostos, é que não hora que for possível, deixarão o país, deixarão, seus familiares, suas raízes.

Não é para menos.

Com base na publicação “Mapa da Violência”, editado por um dos organismos da ONU, estimo que Brasil, ocorreram 1.300.000 (um milhão e trezentos mil) homicídios, de 1980 até 2014.

Trata-se de um número astronômico diante de qualquer análise que se faça. Nem nações em guerra se mata tanto quanto no Brasil no seu dia a dia.

A coisa fica mais feia, quando percebemos que quase metade destes homicídios (cerca de 600.000) ocorreram nos últimos 12 anos, durante as gestões do Partido dos Trabalhadores – PT, o qual vende, interna e externamente, a ideia dos seus grandes investimentos e feitos na área social, e que, portanto, ao menos no plano teórico, fariam diminuir os índices de violência.

Sem discutir os méritos das políticas sociais, necessárias e urgentes, os números mostram que elas, sozinhas, sem a mão forte do Estado, não têm o condão de debelar a violência, que não adianta, tratar criminosos como vitimas e a sociedade como culpada.

Vou adiante, políticas sociais e repressão estatal, não são, como querem fazer crer os iluminados da intelectualidade brasileira, coisas que se excluem.

Não é porque se faz escolas que os presídios são desnecessários, como dizem a cansar: mais educação, menos cadeias.

Isso é só tolice.

Precisamos de mais saúde, mais educação de qualidade, mais assistência social e também de um sistema penal que funcione, com uma polícia forte e capacitada para identificar culpados, um Ministério Público que cumpra seu papel, um Judiciário que os condene e um sistema prisional que os façam cumprir as penas.

Precisamos de leis penais, mais rígidas, que iniba a prática criminosa, que faça o cidadão tentado pelo lucro fácil do crime, pensar duas ou três vezes antes de cometer o crime.

Ah, aos que defendem a impunidade dos crimes cometidos por menores, se o IPEA estiver certo, os crimes desta natureza, chegam a 10 porcento (dez por cento), se apenas pegarmos os homicídios ocorridos nos últimos doze anos, temos algo em torno de 60.000 (sessenta mil), cerca de 5 mil/ano.

Como as estatísticas não são confiáveis, e há quase uma unanimidade em dizer que nas ações criminosas os chamados “menores” são os mais brutais, acredito que sejam números bem maiores, ainda que seja o diz o IPEA, não são números desprezíveis.

Aos políticos, militantes ideológicos, aos que não têm o compromisso de resolver os problemas que afligem a sociedade, os números nada representem, para os que perdem um ente querido, um filho, um irmão, um primo, um amigo, é bem mais que isso. Talvez essa seja uma das razões da forra arbitrária, desproporcional, sempre que surge uma oportunidade.

Um ato bárbaro pode ser apenas um pedido de socorro de uma sociedade exausta com tanto descaso.

Abdon Marinho é advogado


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Muitos equívocos, poucos acertos

Por Abdon Marinho

Abdon Marinho.

Abdon Marinho.

Vi que, mais uma vez, seguimentos sociais, foram às ruas e praças em protestos contra o alcaide da capital, desta vez por conta do aumento das passagens de ônibus. Se os manifestantes estão certos ou não é algo que tentaremos descortinar adiante, neste momento trataremos da série de equívocos que têm ocorridos na administração municipal elevando o descontentamento de grande parte da população.

Confesso que sou um torcedor da administração do prefeito desde o início e, embora, tudo conspire contra, continuo firme no desejo que ela cumpra o que propôs quando disputou a eleição em 2012. Claro que a cada dia que passa a esperança e a torcida vão cedendo espaço ao desânimo e a frustração.

A torcida pelo sucesso da administração é devido, primeiro, a necessidade, que entendo ter a cidade de uma gestão realizadora, que a ajude superar os anos de atraso e falta de visão e planejamento de muitas das gestões anteriores. O segundo motivo é por acreditar que já passa da hora destas novas gerações assumirem os destinos políticos da cidade, do estado e do país. O fracasso da gestão significará um retrocesso para tantas jovens lideranças que pretendem fazer um bom trabalho, tem sonhos e ideais. O insucesso da atual gestão, caso não consiga superar as dificuldades, fará com que o eleitor repense na hora de escolher o sucessor ou reeleger o atual prefeito, inclusive se não seria melhor voltar ao passado.

Entretanto, em que pese a torcida ou o interesse do prefeito em acertar – acredito que o alcaide tenha vontade de fazer uma boa administração, uma vez que não é compreensível querer abreviar sua carreira política após o mandato de prefeito, sendo ele tão jovem e podendo ainda contribuir com a cidade –, até aqui, o que temos assistido é a uma sucessão de equívocos.

Os equívocos começaram com a escolha de secretários que mal acabaram de ser nomeados foram sendo substituídos, comprovando, aos mais observadores, que não foram bem escolhidos.

O descrédito do governo municipal com sociedade é, também, um reflexo da falta de atitude do secretariado. O prefeito não tem condições de administrar, uma capital, nem qualquer cidade, ainda que fosse um super-homem, sem o apoio e a afetiva participação dos seus auxiliares. Temos visto muito pouco disso.

A impressão que fica é que a grande maioria dos secretários ainda não se achou, não tem voz altiva para enfrentar as pressões do trabalho e confrontar as forças externas ou não têm aptidão para os cargos que ocupam, principalmente quando levamos em conta as graves limitações financeiras que passam todos os municípios brasileiros.

Em quase todos os setores os avanços e as mudanças prometidas são mínimas, isso, quando há, no máximo, “tocam o barco”, sem apresentar nada de novo. Isso é muito pouco.

Um dos maiores ressentimentos da população é com a buraqueira que toma conta das ruas. A secretaria de obras não soluciona e não apresenta um projeto que minore esse problema. Quando tentam, o fazem de forma amadora. Por onde passo nas ida e vindas para o trabalho o que vejo são as equipes do governo taparem o mesmo buraco duas, três e até quatro vezes e os buracos teimam em ressurgirem nos mesmos lugares. Veja, gastam dinheiro do contribuinte para tapar o mesmo buraco mais de uma vez como se fosse a coisa mais normal do mundo. Não é. Um exemplo claro disso é o que vemos na Rua dos Albatrozes usada pelos motoristas que querem fugir do tráfego pesado da Avenida dos Holandeses pela Avenida Litorânea. Esta via ameaça a afundar devido aos buracos, abertos tem três ou quatro. Mais a frente, no acesso a parte nova da Litorânea, estamos praticamente usando metade da pista por conta de mais um buraco. Estamos falando da parte mais rica da cidade, o metro quadrado mais valorizado.
E temos exemplos mais graves. O governo municipal conseguiu aproximadamente R$ 17 milhões para fazer a drenagem do Bairro Vila Luizão, a vencedora do certame foi uma empresa que se mostrava incapaz de executar a obra. Ano passado atrapalhou a vida dos cidadãos quase o ano todo para passar uma tubulação de um lado a outro da avenida. Fez um serviço tão ruim que a obra não avançou para lugar nenhum, soube até que desistiu do serviço e a administração busca outra empresa para continuar a obra ou refazê-la, pois dificilmente se aproveitará algo do que foi feito. Sobre a essa obra, quando a primeira chuva, levou parte do serviço a prefeitura municipal informou que sabendo que a obra não estava a contento, rescindiu o contrato e não pagou nada do que a empresa fez.

Ora, se a administração já sabia que a empresa não teria condições de realizar a obra ou que o serviço estava inadequado, por que não a inabilitou logo depois do certame? Por que fez a população sofrer transtornos durante quase um ano? O pior de tudo é que a obra, tão necessária, não tem previsão de conclusão apesar do recurso está disponível.

Embora a falta de recursos seja uma realidade para todos os municípios brasileiros, a capital do Maranhão, tem sofrido por coisas que vão além, como o caso de obras que não são feitas com o recurso em caixa. Não faz muito tempo, conversava com um professor da UFMA e ele me dizia que o município deixara voltar para os cofres da União R$ 12 milhões de reais captados pela universidade para um programa de informatização ou assemelhado; o município não tem conseguido construir creches, escolas para os quais existem recursos disponíveis no MEC, quando diversos municípios, infinitamente menores que São Luís, já captaram e construíram diversas unidades. Falavam em doze para a capital das quais não tenho notícia de nenhuma. Para atender a necessidade São Luís, faz repasses para as escolinhas comunitárias que estão anos-luz de atender essas crianças.

Melhor sorte não tem tido a administração no campo da saúde. São Luís, apesar de possuir gestão plena no setor, nunca a assumiu, de fato, coexistindo no Estado do Maranhão três gestões, a municipal, a estadual e a federal, através do HUUFMA. E, ainda bem que existem os três sistemas, pois se estivéssemos dependendo unicamente do município o setor teria entrado em colapso faz tempo.
Na gestão anterior, depois de muitas idas e vindas, começaram a construção de um hospital de urgência e emergência. O terreno já estava limpo. Como se tratava de uma obra já iniciada e que também era objeto de promessas do candidato vitorioso nas eleições que até batizou o hospital com o nome do ex-governador Jackson Lago, pensei que iria sair do campo do planejamento e das maquetes de campanha para se tornar realidade. Ledo engano, já em contagem regressiva para o término do mandato, ninguém nunca mais falou no assunto, embora todos saibamos tratar-se de uma necessidade que tem custado diversas vidas.

Vimos acima uma pequena amostra do que acontece em três setores da administração municipal. Setores, cujo os corpos técnicos não temos razão para questionar, mas que, temos que reconhecer, estão longe de apresentar os resultados almejados.

Voltemos ao aumento do transporte público. Neste quesito, não se trata de discutir se o índice de reajuste está correto ou não, o erro aqui é a forma como foi feito. Trataram o assunto como se só dissesse respeito a SMTT, empresários e os trabalhadores do setor. Esqueceram o principal: o usuário, o cidadão que já não suporta mais pagar caro por um serviço ruim. Custava ter retardado o aumento um pouco para examinar as planilhas, discutir com a sociedade, órgãos de defesa do consumidor, associação de usuários? Não. Vou além, já que falam tanto em parceria, custava reunir-se publicamente com a secretaria estadual da pasta e tentarem uma solução conjunta para o problema que afeta toda a população da ilha e não apenas da capital? Não. Pois é, mas ninguém tomou essa iniciativa.

Pior foi a impressão que ficou de que o poder público, além dos empresários, combinou o aumento com alguns jornalistas, como se eles fossem os donos da opinião pública. Um deles disse de manhã que a SMTT iria aumentar. A tarde, após o anúncio do aumento, disse que seguiram a orientação do seu blogue e concederam o aumento e que o mesmo estava de bom tamanho. Não acreditei. Fica-se com a suspeita justa ou injusta que o órgão público “acertou” com parte da mídia o aumento e que eles se encarregariam de defender e convencer a população de que o mesmo estava certo.

O resultado de mais esse equivoco é o que temos visto nas ruas, insatisfação, protestos, violência, repressão policial que rememora os movimentos pela meia-passagem ocorridos em 1979, de triste lembrança. Um desgaste para o governo e, principalmente, para o prefeito, que faltando vinte meses para o término do mandato, precisará operar milagres para tirar do papel as promessas de campanha e reconquistar a simpatia do público.

Abdon Marinho é advogado.


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O Brasil e a mentira do primeiro de abril

Por Milton Corrêa da Costa

O Brasil acaba de ser incluído no rol dos países de primeiro mundo. A educação pública tornou-se de primeira qualidade onde professores têm salários de fazer inveja aos tempos de salários indignos. As escolas públicas dispõem de ar condicionado, gelando, em todas as suas dependências. Os hospitais públicos tornaram-se padrão linha D’or. Não há mais filas para emergências e consultas. Tudo funciona com invejável rapidez de atendimento. A polícia alcançou 95 porcento na taxa de elucidação dos crimes e armas e drogas deixaram de penetrar pelo ‘queijo suíço’ de nossas fronteiras. Policial tem salário, em início de carreira, de R$ 8 mil e o salário mínimo do país é de R$ 6 mil. Não se houve mais falar em falcatruas entre empresas estatais e empreiteiros. Pela nova e rígida lei penal, dependendo do montante surrupiado, a pena pode chegar a 30 anos de prisão em regime fechado. Detalhe: foram extintas as progressões de regime carcerário e as reduções de pena na lei brasileira. Menores, independente da idade, são responsabilizados como se adultos fossem caso se conclua que eram capazes de entender o caráter criminoso de seus atos.

As enchentes, durante e pós temporais, acabaram em todas as grandes cidades do Brasil. Ninguém joga mais lixo em boeiros, nos rios e galerias pluviais. Também não se vê mais lixo nas encostas de morros. O trânsito nos grandes centros flui de forma rápida e segura. Os transportes públicos são de primeira linha e conforto invejáveis. Os preços das passagens caíram assim como a conta da luz. A inflação alcançou o máximo de 0,5 porcento ao ano. Inacreditável. Não há mais desvio de verba pública e nenhum político no Brasil responde por improbidade administrativa ou porque mentiu para se eleger. O Brasil cumpriu a meta de redução de gases poluentes e a população não joga mais lixo no chão, Os morros e favelas deram lugar a bairros decentes e os traficantes, quase todos presos, não mais tocam o terror nas comunidades. Não se houve falar mais de assaltos em vias públicas, explosões de caixas eletrônicos e assaltos no metrô. A lei penal brasileira tornou-se tão dura que o latrocínio, o estupro e o sequestro resultam em prisão perpétua, a contragosto dos criminólogos humanitários

Tudo funciona no Brasil. Até o sistema penitenciário deixou de ser universidade do crime e ressocializa o apenado. A ética a probidade são a tônica na política brasileira. Não se houve mais falar de que propinas sejam repassadas na porta de diretórios de partidos. O Brasil mudou, tanto que não há mais obras superfaturadas nem contas milionárias depositadas irregularmente em bancos da Suíça. Todas as obras, até então inacabadas, foram concluídas e findou o célebre argumento de que ninguém “nunca soube de nada”. As bolsas-tudo passaram a ser coisa do passado. Os miseráveis não mais precisam delas. Há emprego e renda suficientes para todos os brasileiros e o número máximo de ministérios é de vinte. Não mais do que isso. Milhares de cargos comissionados foram cortados.

Epa, acordem ! O sonho e os delírios acabaram, hoje é primeiro de abril. O dia da mentira.

Milton Corrêa da Costa é cidadão brasileiro que no dia 12 de abril estará nas ruas clamando por um país melhor.


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Deixar a estrada da exclusão social

Por Flávio Dino

Governador Flávio Dino.

Governador Flávio Dino.

A fome é a negação mais cruel dos direitos fundamentais de qualquer ser humano. É a negação da condição básica para o desenvolvimento do homem que, sem ter o que comer, não consegue trilhar os caminhos que pedem os sonhos que tem para si e para a sua família. É a negação primeira do que a filósofa Hannah Arendt chamou do“direito a ter direitos”. Sem nada para comer, como ter acesso à educação, à cultura, ao trabalho ou à sua autodeterminação?

Infelizmente, a negação do “direito a ter direitos” ainda é muito viva em nossa realidade. Lembro que cerca de 25 porcento dos maranhenses ainda vivem na extrema pobreza, o que corresponde a cerca de 1,5 milhão de pessoas. Mas esses não são dados frios, e a reportagem “Estrada da Fome”, exibida na última segunda-feira pela TV Record para todo o Brasil, mostrou que esse retrato cruel é verdadeiro, tem nome e sobrenome, tem rosto e lágrimas.

Esse legado de desumanidade e descaso foi herdado por nós, maranhenses, em decorrência de décadas de governos que deram as costas aos mais necessitados. Como explicar, por exemplo, que o Maranhão seja a 16ª economia do país, estado que possui água em abundância, terras boas e um povo com muita vontade de vencer, mas com as piores condições de vida do país? A explicação somente pode residir na histórica combinação entre utilização pessoal do patrimônio público, corrupção e injustiça social, caminhos pelos quais poucos se apropriaram dos bens de milhões de pessoas.

As vozes do coronelismo maranhense, que hoje vivem enorme crise de abstinência com a perda de antigos privilégios e de ganhos ilícitos, calam-se diante da calamidade retratada por 1 hora na última segunda-feira em rede nacional. Contudo, ao contrário do que eles sempre fizeram, estamos lutando para transformar esse inaceitável retrato.

Creio que nenhuma pessoa deve ficar insensível diante desse quadro. Especialmente no que se refere ao papel do governante, deve ser o de buscar soluções urgentes, duradouras e eficazes para dar a essas pessoas o direito de voltar a sonhar. Foi por este motivo que, logo no primeiro dia de Governo, minutos após a nossa posse, instituímos o Plano de Ações Mais IDH. Ele começa pelas 30 cidades com menor Indice de Desenvolvimento Humano em nosso Estado e vai mostrar progressivamente que, sim, nós podemos mudar o cenário imposto por décadas de desmandos políticos e desrespeito com a população.

Por intermédio do Plano Mais IDH, o Governo do Estado começou a levar mais direitos e mais dignidade a esses milhões de maranhenses outrora invisíveis, cujos futuros foram criminosamente roubados em tenebrosas transações. Agora, o orçamento público é aplicado com a único objetivo de servir a população, com enfoque especial àqueles que mais precisam da ação direta do Estado

Para que se tenha a dimensão deste programa, somente na primeira semana do Mutirão Mais IDH, foram realizados 18 mil atendimentos em 9 municípios. Nesse mutirão, encontramos milhares de pessoas que jamais tiveram acesso a qualquer serviço público, que jamais foram lembrados pelos governantes, a não ser em tempo de eleição. Até o fim do nosso governo, vamos levar a todas as regiões maranhenses provas concretas de que vale a pena lutar e ter esperança em dias melhores. Apoio à produção, políticas sociais, ampliação de infraestrutura e combate à corrupção são os pilares que sustentam esse novo projeto de desenvolvimento no Maranhão.

O destino dos milhões de maranhenses não é estar irrevogavelmente à margem do mundo dos direitos. É para colocá-los na rota do crescimento e dar-lhes condições de se fortalecer, educar e prosperar que conduzimos as ações governamentais, em que hoje há o DNA da indignação transformadora.


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180 anos da Assembleia Legislativa do Maranhão

Por Humberto Coutinho

Ex-prefeito de Caxias, Humberto Coutinho

Ex-prefeito de Caxias, Humberto Coutinho

Uma característica das democracias representativas é o funcionamento das Casas Legislativas. Mas, quando as instituições democráticas são golpeadas, uma das primeiras providências dos novos donos do poder é interromper o funcionamento do Poder Legislativo.

No Brasil a democracia é muito jovem, mas tem resistido bem a solavancos como o impeachment do presidente Fernando Collor. Este ano, comemoramos 30 anos do fim do regime militar e acabamos de eleger, pela sétima vez consecutiva, um Presidente da República pela consulta popular, o que foi negado ao povo por 25 anos, de 1964 a 1989.

Na transição da ditadura para a democracia, as lideranças políticas de oposição ao regime militar – após a derrota da emenda constitucional que visava restituir as eleições diretas para Presidente – resolveram optar pela via da eleição indireta no chamado Colégio Eleitoral, derrotando o candidato do regime militar, o atual deputado federal por São Paulo, Paulo Maluf, e elegendo o então governador de Minas Gerais, Tancredo Neves. Desse Colégio Eleitoral, participavam todos os deputados federais e senadores, além dos deputados estaduais escolhidos em cada Assembleia Legislativa do País. Do Maranhão participaram os seguintes deputados estaduais: Edivaldo Holanda, Eduardo Paz, José Elouf, Manoel Oliveira, Marcone Caldas e Raimundo Leal. Todos votaram na chapa Tancredo Neves, para presidente da República, e José Sarney, para vice-presidente, dando uma valiosa contribuição para fazer o País ingressar no período democrático sob o qual vivemos.

Em nosso país, com 415 anos incompletos, o Legislativo estadual mais antigo (o da Bahia), ainda não chegou a 181 anos, e até o fim do Brasil Colônia, as eleições eram apenas locais, com a escolha dos membros das Câmaras Municipais.

No Maranhão comemoramos no último dia 16 de fevereiro, 180 anos de instalação da Assembleia Legislativa Provincial, que à época tinha deputados eleitos em dois turnos, para um mandato de dois anos. As sessões legislativas aconteciam por dois meses a cada ano.

Com a proclamação da República em 1889, as Assembleias Legislativas Provinciais passaram a se chamar Assembleias Legislativas Estaduais, pois a República adotou o sistema federativo e as Províncias se transformaram em Estados, unidades federativas subnacionais.

Cinquenta anos após sua instalação, em 1885, a Assembleia Legislativa Provincial do Maranhão passou a funcionar em imóvel próprio na rua do Egito, onde permaneceu por 123 anos, até se mudar para as modernas instalações do Sítio do Rangedor, situado entre os bairros Calhau e Cohafuma. O Conjunto de prédios leva o nome de Palácio Manoel Beckman, mesma denominação da sede anterior localizada no centro histórico de São Luís. A construção da nova sede é fruto do esforço coletivo de todos os deputados, comandados pelos ex-Presidentes Manoel Ribeiro, Carlos Alberto Milhomem, João Evangelista, de saudosa memória, Marcelo Tavares, atual secretário de Estado da Casa Civil, e o meu antecessor Arnaldo Melo.

Da Assembleia Legislativa já saíram parlamentares para a câmara dos deputados, senado federal, vice-governadores e governadores. Casos pitorescos ocorreram nestes quase dois séculos, como a existência de duas assembleias que funcionaram simultaneamente, mas isto é assunto para os historiadores, como o nosso querido Desembargador Milson Coutinho.

Com 42 deputados eleitos pelo sistema proporcional para um mandato de quatro anos, a Assembleia Legislativa do Maranhão é um caldeirão rico em diversidade e representatividade. Na presente legislatura, que se instalou no último dia 1º de fevereiro e se estenderá até 31 de janeiro de 2019, estão representados trabalhadores do campo e da cidade, militares, funcionários públicos, sindicalistas, empresários, médicos, produtores rurais, esportistas, pescadores entre outros. Essa diversidade demonstra uma representação parlamentar multifacetada, retrato genuíno do povo maranhense.

É na Assembleia Legislativa que são aprovados, ou rejeitados, projetos de lei de iniciativa dos diferentes poderes. Tais projetos têm sua origem no executivo, iniciativa dos próprios deputados, do judiciário e também de projetos de iniciativa popular. Neste caldeirão de opiniões e partidos, o confronto civilizado das ideias ecoa o debate do que mais interessa ao povo do Maranhão. A Assembleia Legislativa é, portanto, o mais direto representante da vontade popular. Por isso é chamada de a Casa do Povo. Nesta Casa tem assento governistas, oposicionistas e independentes, que a depender da pauta podem votar contra ou a favor do governo. O consenso é sempre muito difícil em nosso plenário. E é bom que seja assim, porque é do confronto de ideias que surgem as melhores propostas.

Ao completar 180 anos de existência, a Assembleia Legislativa do Maranhão é viva, vibrante, atuante e livre. Sua história secular demonstra que ela tem sido o esteio da democracia, como é dever de todos os parlamentos, pois como está escrito em nosso plenário, não existe democracia sem parlamento livre. Nossos deputados têm sabido se posicionar a favor das causas populares como é seu dever e vocação política.

Humberto Ivar Araújo Coutinho é médico, ex-prefeito de Caxias, deputado estadual e atual presidente da Assembleia Legislativa.


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A diplomacia do vexame

Por Abdon Marinho

Abdon Marinho.

Abdon Marinho.

A cada notícia de horror que nos chega do Oriente Médio aumenta o meu sentimento de vergonha com o modelo de diplomacia brasileira dos últimos anos. A vergonha só não é maior porque já sei que ninguém nos leva mais a sério entre os países civilizados.

A última notícia confirmada foi a decapitação de 21 (vinte e um) cristãos coptas egípcios feitos reféns pelo Estado Islâmico na Síria. O Egito informou já ter iniciado o bombardeio de alvos do grupo terrorista em represália à decapitação coletiva dos seus cidadãos. A imagem de pessoas sendo degoladas, por si já ja revela o desapreço e o nível de barbárie e insanidade que norteiam as ações do grupo. Mais grave, quando sabemos que a exibição das cenas horrendas têm o propósito de confrontar o mundo civilizado e de servir de material de propaganda para atrair, entre os desajustados da sociedade, adeptos para a sua “causa”.

Antes desta exibição de barbárie, a cena mais horripilante, até então, deste mesmo grupo, foi a imolação de um piloto jordaniano ocorrida a cerca de vinte dias antes desta última exibição de crueldade. Um amigo me mostrou as imagens que chegaram ao seu celular, e as exibiu, contra a minha vontade, na sala onde estava. A cada dia se superam na capacidade de fazer o mal. Já se fala em mais 45 i(quarenta e cinco) iraquianos queimados vivos e em dezenas de crianças feitas prisioneiras com o mesmo propósito.

A estes últimos episódios devem ser acrescidos os estupros coletivos, a matança de comunidades inteiras, a expulsão de tantas outras de suas comunidades, o massacre de mulheres, crianças e idosos.

Haverão de perguntar o que o Brasil tem a ver com isso? Pois bem, a vergonha que nos faz passar a diplomacia brasileira decorre da simpatia que nutre o nosso governo por tudo que é grupo terrorista existente no mundo. Ao Estado Islâmico a simpatia é mais recente mas já fez estragos.

Na abertura da última Assembleia Geral da ONU, o Brasil, fazendo jus a tradição de envergonhar os cidadãos decentes do país, a presidente defendeu o diálogo com o grupo terrorista capaz de tamanhas barbaridades como forma de pacificar a região. Toda vez que alguma notícia de barbárie nos chega, alguém faz questão de lembrar o discurso infame.

Desde 1947, uma tradição iniciada com Oswaldo Aranha, o Brasil possui a honra de abria a reunião anual da ONU, em 24 de setembro de 2014, a nossa presidente usou tal deferência, num discurso tão vazio quanto inconsistente, para defender o dialogo com o grupo terrorista que empapa de sangue as areias dos desertos da Síria e do Iraque.

Falando em nosso nome, a digníssima presidente defendeu o dialogo com um grupo que tem no terror insano uma estratégia de dominação e que não possui legitimidade alguma para falar em nome de ninguém. Não representam país, etnia ou causa. Ocupando uma faixa de território entre a Síria e Iraque tem como método a dominação de civis pelas armas e pelo terror. Em pleno século vinte um, usam os métodos que ficaram perdidos nas brumas do tempo, a ameaça, a chantagem, o extermínio de etnias, de grupos religiosos minoritários…
Demonstrando viver num mundo paralelo – basta ver as respostas que dão aos escândalos que subiram as rampas e se alojaram nos palácios do poder – a nossa presidente, não faz seis meses criticou o governo norte-americano por apoiar o uso de força, e propôs diálogo com o grupo terrorista que a cada dia que passa mostra não possuir limites à sua brutalidade.

A sorte é que as lideranças internacionais parecem não ter levado a sério o discurso da mandatária brasileira, dando-lhe o tratamento das coisas irrelevantes e que servirão apenas para constar nos anais da história. Decerto as perguntas que se cabia fazer, as fizeram internamente. Dialogar com quem? Negociar o que com um grupo terrorista? Será que atenderiam aos pedidos da presidente brasileira para não saírem por aí decapitando jornalistas, cristão, matando crianças, estuprando mulheres, dizimando etnias inteiras?
Faltou perguntar isso e outras coisas mais.

Com uma diplomacia tão exemplar, não é sabida a razão do governo brasileiro não ter sido procurado pelo japonês ante a chantagem feita pelos terroristas que cobraram US$ 250 milhões de dólares pela vida de dois de seus concidadãos – que acabaram perecendo – quem sabem não aprendessem o segredo de se dialogar com o grupo terrorista.

A cada demonstração de violência explicita a diplomacia brasileira é confrontada com a verdade infame de suas posições. Diante delas, lançam notas tímidas de repúdio como a se envergonharem do apelo ao “diálogo”.
Não lembro de ter visto o Brasil tão isolado nas suas relações internacionais quanto parece encontrar-se agora com sua política tortuosa. As nações sérias simplesmente ignoram o que falamos em quaisquer fóruns de debates.

Não tendo o que dizer sobre nada em lugar nenhum do mundo, a mandatária do Brasil se furta ao diálogo (logo ela que propõe dialogo até com os terroristas mais radicais), sobre os fatos que preocupam a humanidade. Não foi a Paris juntar-se aos mais de 40 chefes de estado em protesto contra o ataque terrorista que ceifou a vida dos jornalistas do jornal Charlie Hebdo; não foi a Davos, na Suíça, ao fórum econômico mundial, preferindo ir prestigiar a posse do vizinho que expropriou o patrimônio da Petrobras e não disse nada diante da guerra quase declarada entre Rússia e Ucrânia. Neste último caso o Brasil é parte diretamente interessada por contas do grupo econômico constituído com a Rússia, India, China e África do Sul, o chamado BRICS. Não se viu uma iniciativa no sentido de chamar ao diálogo o líder russo. Uma mísera iniciativa, nem mesmo chamar uma reunião do bloco. Preferiram deixar a iniciativa de apaziguar os ânimos à chancelar alemã e ao presidente francês.

Apesar de tanto vexame é comum ouvir os governistas elogiarem a “altiva” política externa brasileira. Quando ouço isso confesso não saber do que falam. Tanto fazem, e com tanto despudor, que as palavras acabam por mudar de sentido, vexame, por exemplo, virou sinônimo de altivez.

Abdon Marinho é advogado eleitoral.


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