A eleição de 2026 produziu uma mudança importante no cenário político do Maranhão. Um estado que durante anos esteve entre os principais redutos eleitorais do campo liderado por Luiz Inácio Lula da Silva terminou a disputa estadual com uma configuração política diferente: Eduardo Braide foi eleito governador, enquanto Lahesio Bonfim, identificado com o campo bolsonarista, conquistou uma das duas vagas do Maranhão no Senado.
No centro da disputa esteve o rompimento entre o governador Carlos Brandão e o grupo político ligado ao ex-governador Flávio Dino. A crise começou a se aprofundar a partir da sucessão estadual. Felipe Camarão chegou à vice-governadoria em 2022, na chapa de Brandão, em um contexto de continuidade do grupo político que havia governado o Maranhão durante os anos de Dino no Executivo estadual. Camarão passou posteriormente a ser tratado como um dos nomes para a sucessão de Brandão em 2026.
O cenário, porém, mudou quando Brandão decidiu apoiar o sobrinho, Carlos Orleans Brandão, para a disputa pelo governo. A escolha provocou o rompimento político entre os grupos e levou Camarão a disputar o cargo pelo PT, com apoio de Lula e do grupo ligado a Dino.
A partir daí, a antiga base governista chegou dividida à eleição. Brandão apostou em Orleans Brandão, enquanto Camarão recebeu o apoio do PT e de Lula. Eduardo Braide, por sua vez, construiu sua própria candidatura e seguiu um caminho independente da disputa entre os dois grupos.
O resultado foi uma fragmentação que acabou beneficiando Braide. O atual governador eleito venceu o primeiro turno com 54,02% dos votos válidos. Orleans Brandão terminou em segundo, com 34,76%, enquanto Felipe Camarão ficou em terceiro, com 9,60%, encerrando a disputa ainda no primeiro turno.
Na prática, os dois grupos que protagonizaram a disputa pela sucessão do grupo governista ficaram fora do comando do Executivo estadual. A estratégia de manutenção de poder que havia sido construída ao longo dos anos acabou dando lugar a uma nova configuração política no Maranhão.
O impacto também alcançou a disputa presidencial. É importante, porém, separar os números estaduais da eleição presidencial. Lula continuou vencendo no Maranhão no primeiro turno de 2026, com 2.566.301 votos, equivalentes a 63,99% dos votos válidos, contra 1.239.040 votos, ou 30,90%, de Flávio Bolsonaro.
Apesar da vitória de Lula no estado, a eleição mostrou o crescimento do campo de direita na política maranhense. Lahesio Bonfim, do Novo, foi eleito senador com 1.471.859 votos, enquanto o segundo eleito foi André Fufuca, com 1.530.187 votos.
O resultado representa uma mudança significativa na correlação de forças do estado. A antiga coalizão que reunia diferentes setores políticos em torno do lulismo chegou fragmentada às urnas, enquanto Braide conseguiu ocupar o espaço deixado pela divisão entre os grupos de Brandão e Dino.
O próprio Felipe Camarão reconheceu, após a eleição estadual, a necessidade de reconstruir pontes com antigos adversários. Na quarta-feira (7), o petista pediu a união de diferentes grupos políticos em torno de Lula e citou nominalmente Eduardo Braide, Orleans Brandão e Carlos Brandão. Camarão também propôs a realização de um “lulaço” em São Luís.
O movimento chama atenção porque ocorre justamente depois de uma eleição em que a divisão da antiga base governista foi um dos elementos mais evidentes. Agora, setores que estiveram em lados opostos na disputa pelo governo são chamados novamente para compor uma frente em torno da candidatura presidencial de Lula.
Para o grupo ligado a Flávio Dino, o resultado representa uma mudança relevante em relação ao período em que o ex-governador exercia forte influência sobre a política maranhense. Para Carlos Brandão, a aposta em Orleans Brandão não foi suficiente para manter o grupo no comando do estado. Para Lula, por sua vez, o Maranhão continua sendo um território eleitoralmente favorável, mas com uma estrutura política estadual muito mais fragmentada.
O episódio também mostra os efeitos de uma disputa interna que extrapolou a sucessão estadual. O rompimento entre Brandão e Dino dividiu uma base que anteriormente atuava de maneira mais coordenada e abriu espaço para que um terceiro grupo conquistasse o governo.
Hoje, os diferentes setores políticos que anteriormente estavam próximos de Lula encontram-se espalhados em campos distintos. A relação entre Brandão e o grupo ligado a Dino permanece marcada pelo rompimento, enquanto Camarão e Eliziane Gama aparecem entre os principais nomes do campo lulista no estado.
A tentativa de Camarão de reunir antigos adversários em torno de Lula revela, portanto, um dos principais efeitos políticos da eleição de 2026: a necessidade de reconstruir uma aliança que chegou dividida às urnas e que terminou com uma nova configuração de poder no Maranhão.
