Brasil

Venda do Quartel General da PM do Rio apaga parte da HIstória

Por Milton Corrêa daCosta

A Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, oriunda da Divisão Militar da Guarda Real de Polícia,criada em 13 de maio de 1809, por D. Joao VI, vai perder o seu tradicional Quartel General, localizado na Rua Evaristo da Veiga, 78, no centro do Rio. Conforme noticiado, a Petrobrás fechará negócio com o governo do Estado para a compra do terreno. Os boatos, de longos anos, sobre o interesse da Petrobrás, na aquisição da valorizada área, se confirmaram.Sinceramente, em razão do considerável valor histórico, imaginava tratar-se de um patrimônio tombado, há muitos anos. Ledo engano. O Quartel General de uma corporação com 203 anos de existência será demolido.

Triste e difícil momento para os policiais militares mais antigos, entre os quais me incluo, e os mais novos integrantes da instituição,que reverenciam a sua história. Se por um lado há que se reconhecer a necessidade da implantação das bases de um nova polícia ostensiva, democrática,funcional, e cidadã, inclusive quanto ao referencial de um novo modelo arquitetônico de suas edificações, por outro lado também é inegável que com a venda do antigo aquartelamento, tradicional templo dos capuchinhos da Ordem dos Barbonos, morre parte da história da bisecular Polícia Militar.

Por que não permanecer no mesmo local histórico e construir um moderno Quartel General preservando, no que for possível, o modelo antigo, inclusive a histórica capela ali existente? Pra que vender se a motivação é modernizar instalações? Por que vender a maior referência arquitetônica de uma insituição bicentenária? Por que prevaleceram os interesses da Petrobrás sobre a História da Polícia Militar? Comparando ao Exército Brasileiro, é como se oantigo e histórico prédio do Ministério da Guerra, na Praça da República, hoje Quartel General do Comando Militar do Leste, também fosse vendido e demolido. É preciso compreender que a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro é parte integrante da história-pátria e parte da história de organizações militares é constituída pela tradição de seus aquartelamentos.
Organizações Militares, além dos sustentáculos dos princípios basilares da hierarquia e da disciplina,têm o seu referencial também alicerçado em sua história. Entenda-se ainda que aquartelamentos menores são incondizentes para as missões de uma polícia de preservação da ordem pública, inclusive em momentos de necessária intervenção em casos degrave perturbação da ordem, em que será preciso permanecer aquartelado, emcondições de pronto emprego, considerável contingente de tropa. A natureza damissão constitucional da Polícia Militar é dupla: polícia ostensiva e preservação da ordem pública. A missão policial é civil mas executada por militares, cujos quartéis, ainda que modernos, terão sempre que existir.

A verdade é quegrande parte do passado histórico da Polícia Militar morre com a venda do prédio de seu Quartel General. A Petrobrás venceu. O patrimônio cultural, o Rio Antigo e a bicentenária Polícia Militar perderam a referência de um quartel histórico de onde partiram 510 bravos oficiais e praças para lutar contra Solano Lopez na Guerra do Paraguai. Pobre de um país, de memória curta, que além de não lutar por seus patrimônios arquitetônicos, sequer reverencia, por exemplo, seus ainda heróis vivos, como os da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que lutaram contra oterror do nazismo nos campos da Itália.

A obra literária “Memórias de um Sargento deMilícias”, de Manuel Antônio de Almeida, que reverencia os feitos da figura lendária do Marechal de Campo, Miguel Nunes Vidigal, o segundo comandante da denominada Divisão Militar da GuardaReal de Polícia, o mais célebre e famoso de todos os comandantes da hoje Polícia Militar, também perde parte de sua referência histórica. Sem cultivo do patrimônio e dos feitos históricos o futuro de um país se torna vazio. Com a palavra os historiadores, a Arquidiocese do Rio de Janeiro e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Milton Corrêada Costa é coronel da reserva da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro


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