Poder

Terceira via no Maranhão? Analisando a corrida para o Executivo estadual

Hesaú Rômulo, Doutorando em Ciência Política (IPOL/UnB) e Professor de Ciência Política da UFT

Tenho dito algo há algum tempo, e entendo que isto se refere ao momento que o Maranhão vive politicamente, sobre sucessão. É o grande problema das democracias ocidentais: quem assume depois que eu levantar da cadeira? Como continuar um projeto eleitoral que vigorou por oito anos? A classe política quebra a cabeça para tentar a todo custo resolver esta equação e hoje há uma nuvem que acompanha cada passo do atual governador Flávio Dino.

Vou tentar, de maneira breve, colocar em perspectiva tudo o que está em jogo na disputa pelo Palácio dos Leões (sede do executivo estadual) que vai ocorrer em menos de 12 meses. A despeito das análises que li, entendo que é um momento agudo não somente para a figura de Dino, mas para uma maneira de governar a máquina pública.

Em primeiro lugar, parece-me que a coalizão heterogênea montada por Dino em 2014 já foi suficientemente explicada, mas me remeto a ela mais uma vez, porque é dela – e de suas fraturas – que nascem as disputas mais imediatas sobre a sucessão. De um lado o senador pedetista Weverton Rocha, que em 2018 consolidou uma vitória expressiva nas urnas e conta, sobretudo, com a estrutura partidária mais madura e capilarizada do Estado. A força do PDT não pode ser ignorada e Weverton (e seus adversários) sabem disto. Hoje ele faz um movimento semelhante ao que vimos em 2018, quando viabilizou sua candidatura à câmara alta: apoio antecipado e sistemático de prefeituras pelo interior do Estado. Aquilo que chamo de “candidatura irreversível” é o grande trunfo do senador, uma vez que a continuidade do projeto dinista parece uma condição cada vez mais delicada, principalmente depois do que aconteceu nas eleições municipais de 2020.

Do outro lado o vice-governador Carlos Brandão (PSDB) figura como candidato orgânico, por assim dizer, por carregar consigo algo que Dino valoriza: lealdade política. Entre os termos que comporiam uma eventual gestão de Brandão a frente do governo estadual, a defesa das principais plataformas de centro-esquerda que marcaram os oito anos de mandato até aqui permanece como uma incógnita. Sua eleição significaria uma continuidade ruptura? Há quem diga que o vice precisa melhorar muito para ser um player com fôlego para os debates do ano que vem, mas independente disto, se Brandão for o candidato com suporte integral de Dino, o cenário fica favorável ao seu desempenho na corrida até outubro.

A preocupação maior, além de ter de escolher entre um e outro deve ser o cálculo do tamanho da fratura dentro da coalizão. Uma vez que as forças políticas já se sacodem dentro da estrutura montada, o apagar das luzes da era Dino lembra aquele último gole de café no fundo da xícara. Entendo que a sua candidatura a única vaga para o senado disponível vai dar o tom de qual tamanho sua personalidade vai adquirir nas próximas décadas. Como contarão a história de Dino: como um governador que dominou o Estado por “apenas” oito anos ou como uma liderança política que aglutinou uma classe com mentalidades tão diferentes em direção à melhoria de indicadores sociais?

Essa resposta passa por uma decisão difícil, mas necessária, de conduzir o voo final do governo, em direção a uma renovação das bases políticas debaixo de um mesmo signo. Sob o território maranhense ainda paira um fantasma oligárquico, de mando familiar por anos a fio. É com esta sede de nostalgia que Roseana Sarney, uma postulante improvável ao cargo, lidera as intenções de voto. Difícil imaginar que ela bancará uma candidatura nestas condições, ainda mais porque tem a maior rejeição entre os candidatos.

No entanto, a última semana trouxe um elemento diferente para a escolha dicotômica governista: o anúncio da pré-candidatura do secretário estadual de educação Felipe Camarão (PT) à disputa pelo Palácio dos Leões. Camarão lidera uma frutífera aposta que Dino fez na administração pública durante seu mandato. Montou um perfil de secretariado na expectativa de oxigenar a máquina pública e, na minha avaliação, colheu bons frutos desta escolha.

Uma eventual terceira via com Camarão, tendo apoio do ex-presidente Lula e a contraposição ao governo Bolsonaro seria suficiente para uma vitória? Muito cedo para dizer, mas ainda assim é um movimento interessante, pois além de oferecer a Dino a possibilidade de desviar da escolha entre os dois postulantes anteriormente mencionados, ofereceria um palanque puro sangue a Lula no Estado, traria para a disputa um candidato alinhado ideologicamente com o seu projeto político e de quebra garantiria ao atual governador a chance de emplacar um sucessor resultado de uma aposta genuinamente sua.

Quando Dino cruzar a avenida Pedro II, se despedindo da residência oficial do governo, ficará marcado para sempre como o político que extinguiu as escolas de taipa no Estado, modernizando uma estrutura educacional que, em um curto espaço de tempo, trouxe avanços significativos no IDEB. Será lembrado, por óbvio, por ter derrotado a família Sarney de maneira repetida e consistente, será lembrado pelas escolhas que fez durante as duas primeiras ondas da pandemia do coronavírus, mas será lembrado (e este feito ele divide com o secretário Camarão) pela maneira com que mostrou que investimento público significativo na educação traz benefícios para uma geração inteira.

As condições de sucessão nunca são fáceis, mas a história recente da política nacional mostra que quanto menos imposta for uma coalizão, mais sucesso e espaço ela terá para evitar retrocessos. Os louros de um governo exitoso podem ser divididos com muitos atores, mas o peso de um eventual fracasso geralmente encontra só um ou dois sobrenomes.

Assim como, no século passado, a chegada de Vitorino Freire ao poder, a posse de José Sarney em 1966, e as vitórias de Epitácio Cafeteira e Jackson Lago, em 2022 o Maranhão vai testemunhar mais um momento crucial de sua história política: quer vejamos a consolidação de um grupo vitorioso pela terceira vez nas urnas, quer vejamos o sucesso da fratura de uma nova força do Estado, o próximo ano trará um cenário emblemático. O seu desenrolar começa hoje.


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Um comentário em “Terceira via no Maranhão? Analisando a corrida para o Executivo estadual”

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  1. Marcio Barros

    Caro Hesaú, notadamente você se equivocou, na minha humilde avaliação, com relação aos últimos ocorridos políticos no nosso estado. Convenhamos que quando se avalia a situação política de um estado há de se levar em consideração todos os grupos, partidos, e pretensos pré candidatos ao cargo em em sua analise, estranhamente, embora tenha feito menção a 3 pré candidatos ao governo e um ao senado você coloca em evidência somente um grupo político encabeçado por nomes de partidarismo duvidoso, ora vejamos: o governador ontem era comunista e hoje é socialista, o vice governador antes republicano e agora social democrata, o secretário que era democrata, agora é trabalhadores, partidarismo com oportunismo, nada de estranho mas aqui entre nós eleitores é sabido que o governador nunca foi comunista e muito menos será socialista, o vice e o secretario, perdidos na busca pela acomodação satisfatória em 2022. Caberia de certa forma, a citação, embora não agrade aos concorrente preferidos, a citação do deputado federal e do ex-prefeito da capital que conferem positivamente nas pesquisas até hoje apresentadas, e ressalte-se que esses sim, legitimamente, poderíamos apontar como terceira via.

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