Poder

FHC e Sarney chamam Getúlio de “homem menor”

O "homem menor", que cometeu suicídio por ser "autoritário", foi um personagem típico da história dos vencidos.

Do Brasil 247/Paulo Moreira

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Nunca será demais agradecer a Fernando Henrique Cardoso pela decisão de registrar e publicar os atos cotidianos de seus dois mandatos no Planalto.

Num país onde informações de primeira mão sobre o Poder real costumam ser mantidas num ambiente de segredo absoluto, os Diários da Presidência são uma oportunidade rara de leitura, aprendizado — e mesmo diversão, como você poderá ler a seguir.

Não terminei o primeiro volume, ainda, mas já encontrei uma cena impagável, ao chegar à página 404 do calhamaço de 929 dedicado aos primeiros dois anos de FHC no Planalto, quando ele descreve um almoço com José Sarney, que havia sentado à mesma cadeira entre 1985-1990.

Eles falam de vários assuntos, mas o personagem central de vários momentos da conversa é um terceiro presidente. Getúlio Vargas, vulto que exerce um conhecido magnetismo — positivo ou negativo — junto a seus sucessores, o que é natural, já que nenhum brasileiro que veio ao mundo após 1930 deixou de ter contato direto ou indireto com a obra de Vargas, seja na economia, seja na política e também na cultura.

Em 1996, completando um ano na Presidência, Fernando Henrique recebe José Sarney, que deixara a presidência em 1990, para um almoço. “Muito bom”, escreve referindo-se ao conteúdo da conversa.

Na parte inicial do encontro, os dois falam de uma questão eterna para todo presidente da República: como convencer o PMDB a ajudar o governo a aprovar medidas de seu interesse. (Não ocorria nada de novo. Naquele início de 1995, FHC queria ajuda do PMDB para aprovar reformas; também precisava de ajuda da bancada pemedebista para enfrentar uma denúncia de superfaturamento de 51% na licitação dos radares do SIVAM que havia chegado ao Tribunal de Contas da União. O debate sobre a emenda da reeleição estava começando, e o PMDB estava dividido a respeito, também. Sarney explica ao presidente que os dirigentes do partido vão “ganhar tempo” e simplesmente dizer que “primeiro é preciso que as bases opinem sobre as áreas que provocam algum atrito.” Fechando essa parte do encontro, Fernando Henrique avalia: “Afinamos tudo sobre como conduzir o processo de votação”).

Naquele dia, Sarney tinha levado a Fernando Henrique um exemplar de seu romance recém-lançado, O Dono do Mar. Mesmo admitindo que não leu o livro, o presidente elogia o empenho literário do ex: “Tenho sempre uma admiração pela persistência com que o Sarney vem mantendo esta paixão pela literatura. Não li o livro. Vou ler.” Mais adiante: “Sarney tem a virtude de ser uma pessoa com convicção, fidelidade, se eu posso dizer assim, à literatura.” Ainda: “Ele gosta mesmo. Não é uma coisa feita pró forma, nem é superficial nele.”

Além de O Dono do Mar, Sarney levara um artigo publicado numa revista francesa, Commentaire, “publicação importante nas relações internacionais”, novamente elogia Fernando Henrique Cardoso. (Fundada em 1978 por Raymond Aron, intelectual reconhecido do conservadorismo europeu, no editorial de apresentação a Commentaire se apresenta aos leitores como uma “revista intelectual. Ela não é destinada a divertir, não é destinada a confortar os pré-julgamentos nem alimentar as paixões. Ela quer iluminar a inteligência.”)

A literatura seguiu na pauta da conversa por outra razão. Inédito por mais de cinco décadas, os dois volumes do Diário de Getúlio acabavam de chegar às livrarias, tornando-se obra de leitura obrigatória para os políticos brasileiros. A leitura não agradou os dois presidentes.

“Ele (Sarney) está decepcionado com o diário e tem razão, eu também estou”, escreve Fernando Henrique no encontro de 8 de janeiro de 1996.

O que incomoda Fernando Henrique é o foco do Diário de Vargas: Ele reclama da fala de horizontes intelectuais, de pensamentos profundos sobre o país. “Depois de algum tempo de leitura, é a pequena história, não se vê muito mais do que intriga, um ou outro entra e sai, não se vê o conteúdo das discussões, a visão de Getúlio sobre Brasil, nada disso deixa marca no livro.” Como se, depois dessas palavras, tivesse ficado mais à vontade na conversa, Sarney admite: “Eu já estava até arrependido de tanto que eu tinha atacado o Getúlio e fazendo a revisão de meu juízo anterior, mas agora vejo que não, que Getúlio era um homem menor”, disse Sarney.

“É verdade”, repete Fernando Henrique, que prossegue: “A leitura não mostra um homem de grande descortino nem de empenho maior com problemas do país.”

Apenas duas linhas depois, numa passagem significativa para quem acabara de se referir a um antecessor que não havia demonstrado “empenho maior com problemas do país”, o próprio Fernando Henrique derrama-se em elogios ao momento em que o país se encontrava um ano depois de sua posse: “vivemos um raro momento em que, bem ou mal, as pessoas que estão controlando os grandes órgãos do Estado, a Presidência da República, o Senado, a Câmara, são pessoas que têm noção do país. Eu disse a Sarney: ‘pois é, apesar de tudo os resultados do ano passado foram muito positivos.’ Ele concordou.”

Doze páginas adiante, nos parágrafos dedicados a 15 de janeiro, Sarney está longe. Fernando Henrique desenvolve estas reflexões sobre dois vultos da história francesa, Charles De Gaulle e François Mitterrand. Compara o papel de um e de outro, sem esconder a preferência por De Gaulle. Referindo-se a um antigo dirigente do PS que pouco a pouco abandonou as ideias clássicas dos partidos de esquerda, numa trajetória semelhante a que diversos observadores apontam no próprio FHC, ele acusa Mitterrand de ter dado “uma volta muito grande para o que hoje se chama neoliberalismo.”

De repente, entre uma vírgula e outra, Mitterrand sai de cena e em seu lugar aparece Getúlio para ser comparado com De Gaulle. Apontando um ponto positivo na personalidade de De Gaulle, Fernando Henrique encaixa uma crítica repentina a Getúlio. De Gaulle, escreve, “tinha uma ideia de morte, de quem quer entrar para a imortalidade.” Num raciocínio separado por uma vírgula, Fernando Henrique abandona Mitterrand e explica que a ideia de morte mostra que De Gaulle era “diferente do Getúlio. Que a morte, como eu vi nos diários do Getúlio, era para ele uma vingança pessoal: já que eu não posso ganhar, eu ganho morrendo. Se matou e ganhou.”

Getúlio encerrou o seu Diário em 1942, ou doze anos antes de 1954, o ano em que deu o tiro no peito, evitou um golpe militar e impediu um retrocesso que faria a roda da História andar para trás. Muitos fatos ocorreram entre a última linha do Diário e a tragédia: ele foi deposto pelos generais que havia nomeado; os Aliados venceram a guerra; a CLT se consolidou; a Guerra Fria passou a definir as relações entre potências; a Petrobras foi fundada.

Em 1996, na página 416 de seu próprio diário, Fernando Henrique registrou uma versão pessoal para o suicídio. “No caso de Getúlio”, escreve, “a visão (da morte) é a de um homem autoritário: ou aceitam o que estou fazendo ou então eu ganho nem que seja me matando.”

O “homem menor”, que cometeu suicídio por ser “autoritário”, foi um personagem típico da história dos vencidos.

Mesmo aliados históricos de Fernando Henrique tiveram outra visão sobre a tragédia, como o advogado José Gregori, que foi ministro da Justiça no segundo mandato de FHC.

Em 1954, Gregori era um líder estudantil da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, um dos centras da mobilização pela deposição de Getúlio. Chegou a participar de comícios, no Rio de Janeiro, onde fez discursos pela saída do presidente, eleito em 1951.

Décadas depois, em seu próprio livro de memórias, Gregori reconhece que participou de uma “revolução errada”, escreveu, referindo-se, com humildade, à aula de política prática recebida da massa de brasileiros pobres, trabalhadores, muitos deles pretos, que ocupou o centro das grandes cidades do país para manifestar indignação e fúria.

No livro “Pai dos pobres”, o historiador norte-americano Robert M Levine recorda um elogio a Getúlio proferido pelo presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt, em discurso pronunciado no Rio de Janeiro, em novembro de 1936. Patrono da recuperação da economia de seu país, destruída pela crise de 1929, Roosevelt admitiu, publicamente, a contribuição de Getúlio para a construção do New Deal, a política econômica que privilegiava o emprego, os investimentos e protegia os sindicatos no esforço para vencer a depressão. Roosevelt atribuiu a Getúlio o mérito de ter sido “uma das pessoas que inventaram o New Deal.”


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