Poder

Uma vergonha anunciada

Por Abdon Marinho

Advogado Abdon Marinho.

Advogado Abdon Marinho.

Apesar de não ter feito o dever de casa com relação a copa do mundo FIFA de 2014, ou seja, não ter cumprido nada do foi prometido, apenas para se ter ideia, apenas dois aeroportos podem ficar prontos a tempo da realização mundial, terem feito tudo que juraram não fazer, como por exemplo usar recursos públicos na construção e/ou reforma de estádios, dos preços terem sido inflados a não mais poder, ainda temos chance de minorar o estrago na imagem do país. O custo está sendo alto, mas tudo isso poderá ser visto com relativa benevolência, ao menos nas nações apreciadoras do esporte, se o Brasil vencer de forma inquestionável o campeonato.

Fora isso será o vexame total e inexorável.

A vergonha de que trato neste texto e da qual não teremos como fugir, atende pelo nome de Jogos Olímpicos ou Rio 2016 ou outro apelido que queiramos dar. Esse desastre não tem como ser evitado. Nem falo sobre a infra-estrutura que já sabemos não ficará totalmente pronta conforme o combinado. Alguém aí acredita, por exemplo, que a Lagoa Rodrigo de Freitas, local destinado às competições náuticas, será despoluída até 2016? Pelo que ouço dizer, não, os atletas das modalidades aquáticas correm o risco de competirem em meio a esgotos, lixo e talvez algum corpo “desovado”. Alguém acredita que até lá apresentaremos uma redução na criminalidade a ponto de se garantir um mínimo de segurança aos turistas e competidores? Não há como. Os governos, pasmem, terão que fazer acordos com os chefes do crime organizado para evitar uma tragédia maior, liberá-los para fazer seu tráfico livremente em troca de evitar um mal maior. Posso até está errado, mas é isso que se desenha. A exemplo da copa correrão e encarecerão muitas das obras prometidas, as com possibilidades de ficarem prontas, que custarão bem acima dos orçamentos iniciais. E, mais uma vez, espetarão a conta na carteira do contribuinte.

Entretanto, a vergonha maior não será essa. Serão os resultados que obterão as equipes brasileiras nas diversas modalidades. Se preparem pois nunca antes, não digo “nestepaís”, mas no mundo, na história dos jogos olímpicos, pode colocar os dois períodos, o antes e o depois de 1896, uma nação que sediou os jogos, acredito que também as que virão, terão uma performance tão sofrível.

E porque digo isso? Por uma razão simples, alguém tem notícias dos investimentos governamentais e até privados nas equipes olímpicas nacionais? Quais as modalidades? Se está havendo preparação, pelo menos que possa considerar suficiente para que o país melhore seu quadro de medalhas, essa preparação está se dando de tão secreta que desconhecemos. Pelo contrário, o que sabe é que os atletas, inclusive campeões olímpicos não estão recebendo apoio algum. Outro dia fomos surpreendidos, os que ainda se surpreendem com alguma coisa, com a história de que um campeão olímpico estava a quatro meses sem receber salário. Alguém acha que com esse tipo de coisa chegaremos ao menos perto de fazer bonito na competição? Gostaria que sim, mas sei que não.

Não existe mágica nestas coisas. Uma equipe olímpica para se tornar competitiva precisa de investimentos pesados e tempo. Não estamos fazendo uma coisa nem outra. Não estamos investindo o que deveríamos investir para tornar o país competitivo e não temos mais tempo. Pouco mais de dois anos não é nada em termos de treinamento. Essa é a verdade.

Lembram que quando apresentaram a candidatura do Rio nos prometeram que seria um marco esportivo para o país? Que seria uma oportunidade de impulsionar o esporte nacional? Que os jogos, apesar de seu custo elevado, deixaria um extraordinário legado? Pois é, era mais uma promessa vã.

O Brasil caminha para se tornar a primeira “sede-buffet” da história dos Jogos Olímpicos, aquela que faz a festa para os outros. Com um diferencial, os “bufês” são remunerados, aqui não, pagaremos para fazer a festa para os outros. Trata-se uma vergonha anunciada e que qualquer pessoa, com um mínimo de discernimento, já está “careca” de saber. Como é que um país que nunca teve um boa classificação no quadro de medalhas, que não tem investimentos significativos no esporte – não falo dos bilhões gastos nos estádios e sim no esporte de base, das escolas do ensino fundamental, médio ou universitário –, pode pretender sediar uma olimpíada? Um país que não consegue resolver seus problemas básicos, como mobilidade urbana, saúde, educação e segurança pode dispor de recursos públicos para um evento deste porte?

Assim como a copa, que será conhecida no mundo, como a copa do improviso e dos “puxadinhos”, a olimpíada segue o mesmo caminho. Se na primeira há uma possibilidade de termos a vergonha minorada na outra as chances disso ocorrer é bem próxima de zero. Rezemos.

Em termos comparativos, se comparamos com as outras nações que sediaram o evento, o Brasil terá uma performance bem parecida com a que estamos tendo nos Jogos de Inverno de Sochi 2014,

algo bem próximo ao ridículo total, não por culpa dos atletas, mas por culpa dos governos que nunca incentivaram as práticas esportivas no país.

Não fosse o espírito megalômano destes governos os recursos que o país dispensa com a realização dos eventos estariam sendo investidos na formação dos atletas. A diferença é isso não renderia aos interesses privados os bilhões que rendem as obras físicas. Ajudaria o país mas não aos empreiteiros amigos do poder.

Esse é o Brasil, um país de tolos, metidos e ufanistas.

Abdon Marinho é advogado eleitoral.


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