Poder

De poesia e de arte também se vive

Natalino Salgado é doutor em Nefrologia, reitor da UFMA, membro do IHGM, da ACM, AMC e da AML

Por Natalino Salgado Filho

Natalino Salgado.

Natalino Salgado.

A Universidade, desde seus primórdios, no distante século XII, quando a Europa vivenciou um renascimento cultural e comercial, político e social – o que coincidiu com a consolidação dos primeiros burgos, que mais tarde se tornaram cidades – sempre foi um território da liberdade, expressão, construção e conservação do saber.

Naquele momento, com o choque da cultura oriental (especialmente representada pelos árabes, os quais tinham na Universidade do Cairo sua principal referência) e da ocidental (herdeira do patrimônio tecnológico, político e organizacional greco-romano), inicia-se uma vertiginosa produção de centros de conhecimento por todo o Velho Continente. A primeira universidade nasceu na cidade de Bolonha, Itália, em 1088. No ano do descobrimento do Brasil, já havia setenta universidades na Europa.

Esses centros conservaram tesouros e riquezas que legaram a nós, tantos séculos depois, um espírito inquieto, aberto e promotor de ideias que revolucionaram nosso mundo e continuam, ainda hoje, sendo centros aglutinadores de mentes que atuam na fronteira das mudanças.

A Universidade brasileira é muito jovem. Apenas com a vinda da família real, em 1808, o Brasil teve seus primeiros cursos organizados no que, posteriormente, se tornaria uma universidade na antiga capital, o Rio de Janeiro. O início do século XX registra a organização da maioria das universidades por todos os Estados brasileiros. Assim, a UFMA – que tem apenas 46 anos – sente-se herdeira de uma longa história do conhecimento, da cultura, do saber e do encanto com as artes. Ainda mais porque nossa cidade representa um caleidoscópio de fontes culturais que dão um perfil múltiplo e único às nossas manifestações.

E é justamente sobre esse aspecto – além das realizações e de todos os feitos que foram protagonizados por nossa Universidade no Maranhão e no Brasil – que cabe destacar o que pode ser chamado de pequeno renascimento na valorização das artes no ambiente da Cidade Universitária.

Os cursos de Artes Visuais, Teatro e Música, ao lado de Letras, compõem o pano de fundo de uma realidade mais antiga, de um anseio e impulso que sempre esteve presente na UFMA, especialmente por meio do Departamento de Assuntos Culturais (DAC), que, ao longo do tempo, marcou sua atuação com projetos grandiosos como, por exemplo, o Festival Maranhense de Corais (Femaco), o Guarnicê de Cinema – agora em sua 35ª edição – e, além disso, com exposições de arte, concursos de poesia e literatura, sempre no intuito de estimular a criatividade, despertar a sensibilidade e possibilitar ricos momentos de interação cultural para engrandecer corações e ouvidos atentos. A esse respeito, Ruy Barbosa preconiza que “não é possível estar dentro da civilização e fora da arte”.

A Universidade Federal do Maranhão, além de estar voltada para a pesquisa, o ensino e a extensão – razão de ser de um ambiente universitário -, sempre buscou um equilíbrio entre a valorização pessoal e profissional de todos que fazem parte da universidade e uma moderna (e necessária) reformulação urbanística e predial aliada a espaços exclusivos para a manifestação das artes, como a Concha Acústica. Painéis de artistas maranhenses emolduram agora as paredes de parte do conjunto arquitetônico da UFMA. Ambientam o concreto, humanizam-no, revelam mensagens novas e releituras de obras clássicas. Tudo isso se faz valorizando o artista da terra.

Em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e com os Ministérios da Educação e do Turismo, alguns de nossos prédios históricos estão sendo recuperados, entre eles: o Palácio Cristo Rei; o Fórum Universitário, que abriga o Mestrado em Direito; e, em fase final de recuperação, a Fábrica Santa Amélia, referencial para os estudantes de Turismo e Hotelaria. Também há projetos em andamento para o Palacete Gentil Braga, sede do DAC, e para o Palácio das Lágrimas. No final de fevereiro, a UFMA foi palco do I Festival de Arte Contemporânea, que reuniu uma multifacetada manifestação artística através das mais diversas linguagens. A programação foi além do espaço universitário, pois também aconteceu em galerias, centro de artes e ambientes públicos.

Rubem Alves diz que toda alma é uma música que se toca. E foi a partir do intento de eternizar em acordes os sentimentos, aspirações e desejos vividos nas almas e pensamentos daqueles que viveram (ou vivem) no ambiente universitário é que foram publicados editais. Um deles destinou-se à criação do hino da instituição – o qual foi tocado pela primeira vez durante a realização da SBPC em São Luís, no ano passado, entoado pelo Coral da Universidade, cuja autoria é de Gabriel Asafe Veloso Costa, aluno do curso de Música/UFMA. O outro objetiva a escolha de uma canção de despedida do estudante egresso, a qual possa traduzir o vigor e o colorido da rica experiência universitária(Edital nº 14/2013 Pró-Reitoria de Extensão/PROEX/UFMA). Espera-se que essa canção vencedora marque a vida e história de todos aqueles que passarem pelas salas de aula com as esperanças vivas de seus verdes anos. Pois, como bem lembra Jorge Luis Borges, a música sabe o que sentimos.

Conservar eventos tradicionais, motivar e criar novas experiências artísticas – esta é uma missão da Universidade. Afinal, conforme nos diz Fernando Pessoa: “viver não é preciso”. E nada mais revela com acurácia esta realidade humana do que a (imprecisa) arte. A Universidade Federal do Maranhão vivencia esse despertar. Recordo aqui uma imagem-mensagem de um Cristo em posição ascensional, não o crucificado, que guardo com carinho no gabinete da reitoria. Ele é um símbolo do novo, do nascente, da esperança sempre presente, representativo – e por que não dizer – da nova vida dessa Instituição.

Doutor em Nefrologia, reitor da UFMA, membro do IHGM, da ACM, AMC e da AML


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