Poder

A deusa das flores

Por Antonio Noberto

A sociedade contemporânea tem características consideradas bastante exóticas se comparada às demais. A partir do período Industrial (1750 – 1950 – arredondando as datas) passou a existir, por exemplo, a figura do desempregado. Antes, nos ofícios, na sociedade agrária, trabalhava-se no próprio espaço onde se habitava. O deslocamento diário para a jornada de trabalho, a ida e a volta, que atualmente não raro culmina em grandes engarrafamentos de veículos nas vias urbanas, àquela época, na Sociedade Industrial, ao final da jornada, os trabalhadores voltavam para casa, mas a empresas continuavam com todo o seu patrimônio retido no prédio da fábrica. O valor da empresa estava nos insumos, especialmente, no maquinário e na matéria-prima, e naquilo que foi produzido. Nestes tempos digitais, do computador e do homo conectus, em que os valores e demandas da sociedade migraram, as empresas de tecnologia não mais retêm seu patrimônio ao fim da jornada, pois o mesmo vai embora diariamente quando os colaboradores deixam o serviço, e retornam no dia seguinte. O valor da empresa, portanto, passou a ser medido pelo grau de tecnologia e, principalmente, pela competência e pelo nível de conhecimento do seu staff.

Todo este exórdio, confreiras e confrades, senhoras e senhores, tem a finalidade de abrirmos a cortina para acessarmos uma história bonita, singular, quase uma odisséia, repleta de detalhes emocionantes que, tenho certeza, tem um pedacinho de cada um dos presentes. A trajetória de Clores Holanda é marcada pelo amor, carinho, sucesso e pela competência, porém, de uma luta constante, onde o líquido e certo nem sempre era tão líquido e tão certo, visto que ela viveu a aridez da dureza da vida. Clores viu e sentiu na pele – no dizer do meu patrono Augusto Tasso Fragoso – “os travos da injustiça humana”. Mas, repetindo o imperador Júlio Cesar, hoje ela pode dizer: “Vim, vi e venci”.

Clóris é, segundo a mitologia grega, a ninfa dos campos, a deusa das flores e da primavera. Em Roma era chamada de Flora, possuindo o mesmo significado.

Nosso discurso, como visto, é muito atrativo, colorido, perfumado, gostoso de discorrer, mas sabemos que nem tudo são flores, até porque a primavera não dura o ano inteiro. Além de não ser um mar de rosas a vida é um intenso combate, renhido às vezes, que nossa historiadora e empossanda soube com maestria levar a bom termo.

O grande maranhense Humberto de Campos, nascido em Miritiba, lugar que hoje recebe o seu nome, em sua obra Destinos (OPUS EDITORA LTDA. 1983), certa vez nos contou a história de um gênio que, passando pela terra encontrou dois beduínos no deserto da Arábia, quando lhes deu, além de alguns palmos de terra em um oásis, a um, um saco de ouro, ao outro um saco de estrume. Ao voltar no ano seguinte, o gênio observou que o homem que recebeu o saco de ouro continuava com seu ouro. O que recebeu o saco de estrume possuía um jardim, todo coberto de flores. Humberto de Campos finaliza dizendo que “A sabedoria humana…, consiste não na conservação das coisas boas que recebemos, mas em transformar em coisas boas as más coisas que o céu nos dá”.

Esta estória, você perceberá, não é, nada mais, nada menos que o resumo da vida da nossa homenageada. Que não encontrou um mundo pronto, cercadinho, bonitinho, mas, impulsionada pela inquietação – comum aos vencedores, aos espíritos evoluídos e bons pesquisadores – e pelas palavras do apóstolo Paulo de Tarso, que, escrevendo aos romanos os admoestava: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Romanos 12:2). Todo este nhenhenhém você verá ao final, que muito diz respeito a Clores Holanda Silva.

Comecemos, então…

Inesquecível aquele 30 de novembro de 1979. Aos 19 anos, saindo da adolescência, portanto, muito insegura e com as pernas trêmulas, Clores deixou a residência na Rua de Santaninha e pegou o coletivo na Praça Deodoro. Seu destino era a sala do reitor da UFMA, professor José Maria Cabral Marques, para uma entrevista de primeiro emprego. Aquele tormento infernal, um estado de nervos que parecia lhe dizer que aquele recinto era certamente uma câmara de gás de um campo de concentração, só terminou quando ela adentrou ao local e o reitor, com toda a simpatia do mundo, chamou-a de criança. Ela respirou fundo, descontraiu, o chão retornou e tudo acabou dando certo.

O primeiro labor foi como arquivista no prédio que conhecemos como CEB Velho. Deu nova cara aos amontoados de pilhas de papéis. Racionalizou o lugar. E como nem tudo está tão bom que não possa melhorar (tenho certeza que todos aqui já ouviram o contrário desta frase, mas lembrem que estamos falando de Clores Holanda, que é extremamente positiva, pensa positivo e as coisas sempre dão certo), ela fez um curso de Documentação e Arquivo, um perfeito divisor de águas, que lhe deu um upgrade na carreira (permita-me o estrangeirismo). Imagine só, uma pessoa alegre e feliz, autodidata, criativa, apaixonada pelo que faz, que ainda por cima recebe um curso que tem tudo a ver com a sua personalidade e pretensão…. O que isto poderia resultar? Em trabalho bem feito, é claro! E trabalho bem feito, é sabido, sempre atrai a atenção das outras pessoas – para o bem e para o mal. Uma de suas características é nunca esperar cobrança do gestor, sempre se antecipando aos fatos. Observada por todos, não demorou muito para ser “confiscada” por outro setor mais destacado.

Tentou algumas vezes o vestibular para o curso de Medicina, e nada! Em um deles faltou só um pontinho. E depois, influenciada pelo irmão historiador Nacor Holanda Silva, investiu em Licenciatura em História e obteve, enfim, em 1985, a glória da aprovação. Hoje, Clores é graduada e pós-graduada em História pela Universidade Federal do Maranhão, além de ter iniciado mestrado em Franca-SP, mas o infortúnio da perda de um dos irmãos, trouxe-a de volta ainda nos primeiros meses do curso. Em 2005 concluiu especialização em Gestão de Arquivos, também pela UFMA. Publicou diversos artigos e livretos, geralmente ligados à administração da UFMA e ao Palácio Cristo Rei. Entre eles: Histórico do Palácio Cristo Rei (2005); Os significados e usos das vestes talares na Universidade Federal do Maranhão (2011); A bandeira da Universidade Federal do Maranhão (2011); Os reitores da Universidade Federal do Maranhão – Gestão Pedro Neiva de Santana – 1967-1968 (2011), dentre outros.

Nossa confreira – já posso chamá-la assim – é esta pessoa competente, de valor, que conhecemos. É totalmente dedicada e devotada ao trabalho, como é sabido pela maioria dos presentes. É romântica, agregadora e de incontáveis virtudes. Sempre solicitada, vez que tudo faz com singular amor e competência.

Senhoras e senhores, quem quiser saber mais sobre a vida profissional da nossa empossanda está convidado (a) a tomar um cafezinho com ela. Você vai ter muito a ouvir, a ficha é extensa. Ou poderá dar uma espiadinha no curriculum dela, que ficará à disposição no IHGM, pois agora vamos nos ater ao momento que moldou a personalidade gostosa, alegre, jovial, descontraída e vitoriosa da nossa estimada noviça confreira.

Meus avôs diziam que nunca se deve perguntar ou falar a idade de uma dama, por isso, digo que Clores tem um pouco mais de primaveras que este que vos fala e bem menos que nossos confrades Vavá Melo e Aimoré Alvim. Ela nasceu em Presidente Dutra – MA, “quando o sino batia as 18h30”, no dizer da sua adorável mãe. É a antepenúltima de uma família de dez irmãos. Usou azul e branco até aos sete anos, quando também cortou o cabelo – foi promessa materna! Boas lembranças são as roupas rodadas, o branco, o azul, a escola e os colegas, a fartura na mesa, o aconchego da mãe e dos irmãos. Seus pais Geraldo Holanda Cavalcante e Maria Nazaré Gomes Holanda Cavalcante, conhecida por Zazá Holanda, ambos falecidos, foram seus balizadores. Na verdade os pais de Clores foram obrigados a casar porque, em um baile, ele deu um beijo na boca da mãe dela. Isto passado apenas três dias daquela “imoralidade”. Beijar na boca já foi coisa muito grave. Se ainda hoje cada beijo resultasse em um casamento tenho um parente que, de cada balada, voltaria com umas dez sogras.

Dona Zazá amava Clores a mais da conta, tanto amor materno transpôs décadas e chegou aos nossos dias na forma de um olhar sereno e um sorriso alegre, que fala muito daquela infância bem vivida. Seu maior sonho era usar roupa encarnada. Desejo inesquecível. Na cidade natal estudou no Convento, que era uma escola de freiras, a melhor da cidade. Era muito sapeca. Brigava com a irmã, pois tinha ciúmes dela. A luz apagava as dez da noite, ocasião em que aproveitava para brincar de roda à luz da lua com seus belos cabelos cacheados.

O pai dava uma vida confortável aos filhos e a toda a família, viviam tranqüilos naqueles anos sessenta. A fartura era tanta que, para agradar a todos os filhos, cada um ganhava uma melancia. Mas, como falamos acima, a primavera não dura o ano inteiro. E o certo e líquido, foi deixando de ser tão certo e tão líquido, quando a política, felicidade de uns e tristeza de outros, mostraria sua face perversa àquele clã alegre e feliz. Seu pai, por esses revezes da vida, perdeu o tabelionato, e ficou abalado emocionalmente. O apoio outrora constante de amigos e parentes se tornou escasso. A família migrou para Santa Inês. Nada melhorou. No ano seguinte retornaram a Presidente Dutra sem o triunfo pretendido. A mãe colocou comércio. Aos doze anos Clores foi estudar em Aracaju, capital de Sergipe. O pai faleceu no ano de 1975. Nesse período os irmãos mais velhos já ajudavam no sustento da família. Entre eles destacou-se Pergentino, que se tornou jornalista e foi o pai de todos. Naquele mesmo ano do passamento do pai, trouxe a família para São Luís. Clores se tornou bolsista no colégio Santa Tereza. Depois estudou no colégio MENG.

Clores rima com UFMA, vez que praticamente toda sua vida profissional e acadêmica foi nesta instituição de ensino superior. Sempre teve medo de alma, mas adora cemitério, “lugar de paz”, diz com certa empolgação no rosto. Qualquer semelhança comigo não é mera coincidência. A diferença é que não tenho medo de alma. A missão dela é cuidar da irmã e da família. Considera o horário do almoço uma hora sagrada. Foi feliz duas vezes. Teve dois amores. Sua frustração é não dirigir, tem um carro que fica parado na garagem, mas prefere andar de ônibus.

É mãe e cúmplice da jovem e bonita Marcella Holanda Mendes, formada em Design de interiores e graduanda em Administração no UNICEUMA. Ela diz com olhar de mãe coruja – “Marcella é a razão da minha vida!”.

Vou ficando por aqui, até porque o patrono de Clores é um vulto gigante, que demanda muito tempo para apresentá-lo. Mas não poderia deixar de dizer que se a vida dela teve grandes percalços ou não foi um “perfeito mar de rosas”, ao menos agora ela pode cantar como Edith Piaf: Non, rien de rien, non, je ne regrette rien. Ni le bien qu’on m’a fait. Ni Le mal. Tout ça m’est bien égal – “Não, nada de nada! Eu não lamento nada. Nem o bem que me fizeram. Nem o mal. Tudo isso tanto faz!”. Portanto, minha amiga e confreira, pela competência, simplicidade, amor, serenidade, ternura, devoção, alegria e vitória é que o teu jardim está tão florido. Por tudo isto, pelo majestoso amor ensinado por Dona Zazá, a boa criação, providência e carinho dos irmãos, é que você exala o bom perfume. Puseram-te o nome Clores profetizando, quem sabe, que um dia você seria A deusa das flores. Por isso, em nome de todos os confrades e confreiras desta casa de Antonio Lopes, convido-te a entrar neste Instituto. Embeleze-o e perfume-o ainda mais.

Muito obrigado!

Antonio Noberto, Cadeira 43 – Augusto Tasso Fragoso.


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Um comentário em “A deusa das flores”

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  1. Ermelinda

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