Artigo

Alegação e altruísmo

Por Abdon Marinho.

Abdon Marinho.

Abdon Marinho.

Foi lá no interior, lá no meu sertão que, com rudes e iletrados cidadãos aprendi lições que me servem e me inspiram até hoje. Uma dizia: “quem destrata que comprar”, outra: “faça o bem sem olhar a quem”, ou ainda: “se é para alegar melhor não dá”.

Logo cedo alguém indaga: – vistes a coluna do Sarney? Não, não vi. Aproveitava o silêncio da manhã para escrever aquele breve texto sobre Mandela e também para ouvir minha surrada coletânea dos Beatles e algumas músicas do Lennon, que hoje faz 33 anos que nos deixou.

Com a indagação na cabeça, logo depois da sesta dominical, acessei os blogues que comumente fazem a reprodução do texto e fiz uma leitura dinâmica. Por lá, diferente do que imaginava, encontrei menos do que esperava. Trata-se do mesmo texto de alegações que vem se repetindo nos últimos tempos: “fiz isso, fiz aquilo, fiz aquilo mais”. De novo mesmo, só o fato de mandar os adversários chupar o dedo para saciar suas frustrações, que, vamos combinar, não fica bem na boca de ninguém, muito menos na boca de um respeitável senador e membro da Academia Brasileira de Letras. Hoje foi a vez de alegar as pontes e a barragem, semana passada algumas escolas de primário (inclusive as que estudei, U.I. Aldenora Belo em Governador Archer e Colégio Bandeirantes de Gonçalves Dias), na semana anterior, se não me falha a memória, uma estrada feita no interior e vai até onde a lembrança alcança.

Acredito que objeto de uma discussão que se queira levar a sério o Maranhão deva passar por essas questões. Acho que ninguém desconhece as obras feitas pelo senador e pelos os governos que os sucedeu inclusive sua filha por dois períodos. Sim, foram feitas obras, obras importantes para o estado, obras importantes para a cidade, ninguém as desconhece, aliás, nem teria como, porque desde sempre, principalmente em períodos próximos as eleições elas são todas alegadas, cantadas em prosa e verso e em todos os sotaques do Bumba-boi do Maranhão, quando não tem suas placas indicativas e numa ousadia mais presente e comum, o nome de quem a fez e de algum ente que quis homenagear. Essas sucessivas alegações, ao menos, na minha visão e pedindo todas as vênias, não ficam bem serem feitas pois dão a entender que o nobre senador é uma pessoa mesquinha, coisa que as pessoas que o conhece, diz não ser verdade. Como nunca estive sequer no mesmo ambiente que tão distinta figura, não posso afiançar. Se os amigos dele dizem que não é, tenho por verdadeira essa assertiva. Ademais, aprendi ao longo destes anos que àqueles a quem a vida já lhes permitiu conquistar tudo que podiam só lhes cabe os gestos de agradecimento, desprendimento e generosidade.

Noutro quadrante, não ficam bem esse tipo de alegação porque, para os mais desavisados, fica parecendo que as obras feitas por esses governantes, foram feitas com recursos pessoais e não com recursos públicos, como foi. Estes governantes, não apenas o senador, mas todos os demais administraram os recursos pertencentes ao povo e realizaram as obras que o estado necessitava e necessita. Não tenho notícia de nenhum que tenha saído falido dos governos por terem investido do seu patrimônio em obras do estado.

Sem desconhecer todas as obras que foram feitas, o que seria proveitoso para o Maranhão seria discutir as causas, as razões que levam o estado, apesar de tantos “benefícios” recebidos dos

nossos governantes, amargar os piores indicadores do país. O que nos levou a isso? Como e porque o Maranhão parou de produzir? Como faremos para sair de um modelo de tanta dependência? Porque outros estados menos ricos ultrapassaram o Maranhão? Como fazer para mudar um modelo que enrica poucos e empurra a grande maioria da população para a miséria?

Em sendo Maranhão tão rico, como acreditamos que seja, tenha recebido dos seus governantes o melhor que podiam oferecer, o que deu errado? Faltou-lhes engenho e competência? Foi isso?

Governante algum faz favor ao povo, pelo contrário, deveriam, como depositários da confiança que receberam, honrar cada dia mandato, ser motivo de orgulho e admiração e não de piadas ou desprezo.

Não sei quantas colunas ao todo, quantas mais ainda virão, o senador irá gastar para listar todas as obras que fez, acredito que com um pouco de objetividade, caberiam todas as obras e todo o “bem” que fez ao Maranhão em apenas uma. Na outra ponta, quantas colunas, quantos jornais, seriam necessários para descrever todo o bem que o Maranhão lhe fez? E aqui se tem um colocação não original, pois John F. Kennedy, quando de sua posse a proferiu com todas as letras: “Não pergunte o que o seu pais pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer por seu país”.

Fica a sugestão ao invés do senador ficar todos os domingos listando o que fez pelo estado, talvez devesse listar o que o estado fez por ele, decerto seria uma prova maior de altruísmo político.


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