Brasil

A precipitada execração pública do comandante do 7º BPM no Rio

Por Milton Corrêa da Costa

Em primeiro lugar é que bom que se frise que o presente texto é desprovido de qualquer conotação corporativista, sendo o autor do mesmo  oficial da reserva da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Basta observar, que há anos atuando como articulista, voltado aos temas violência e segurança, tenho me posicionado de forma  veemente contra todos os desvios de conduta de ‘policiais bandidos’,  que costumo denominar de ‘traidores da sociedade’. Assim tenho me posicionado em inúmeros artigos publicados em jornais impressos ou nas redes sociais ou  em entrevistas televisivas.

Sobre o recente fato que resultou,  nesta segunda-feira, na prisão de policiais do 7º BPM, inclusive a do Comandante da Unidade, Tenente Coronel Djalma Beltrami, devo acrescentar primeiramente que não tenho ciência da profundidade das investigações que envolvem a acusação da associação de agentes do estado com o tráfico de drogas na área de policiamento do Batalhão,em São Gonçalo, na Região Metrpolitana do Rio. No entanto, fiquei surpreso e perplexo, contra a prisão temporária  do Tenente Coronel  Beltrami , meu digno aluno na Escola de Formação de Oficiais, nos idos década de 80, tendo sua carreira pautada até aqui pela probidade e pela ética comportamental, nada havendo que desabone, nestes 26 anos de serviço, sua conduta profissional. Basta consultar todos os que o comandaram, os seus pares e subordinados.

O que chama atenção para a decretação da prisão do referido oficial  é a absoluta fragilidade, até o momento,  de indícios concretos e provas circunstanciais que justifiquem tal decisão, onde Beltrami é apenas citado em uma escuta telefônica como ”zero- um”, onde sequer seu nome é pronunciado, o que também, em princípio, nada provaria. A fragilidade da prova é tamanha que o próprio traficante, no diálogo travado com um policial, imaginando tratar-se de um blefe,  desconfia se a propina chegará mesmo em mãos do novo comandante ao dizer: “ Eu tenho que mandar o doutor ir na direção do homem também. É pra ver que o bagulho é firmeza mesmo”.

Se esta prova é suficiente para encaminhar Beltrami ou qualquer cidadão à prisão está definitivamente ameaçado o estado democrático de direito. Doravante, qualquer autoridade, a começar pela Presidente da República, que detenha cargo de comando, chefia ou direção, ou seja, os primeiros em cada escalão (“ o zero-um”), está seriamente ameaçada com a perda da liberdade. Basta que seja citada como destinatária do recebimento de propina. Os direitos e garantias individuais e a honra pessoal estariam então seriamente ameaçados neste país.

Não há dúvida, como tenho escrito (sempre) da necessidade urgente da ‘faxina’ na banda podre do aparelho policial onde alguns agentes do estado continuam envolvidos e contaminados pelo crime. A sociedade quer  e precisa acreditar em sua polícia. No entanto, que se  faça tal ‘faxina’ com base no respeito aos direitos e garantias individuais de qualquer policial, ocupe o posto ou cargo que ocupar na escala hierárquica.

É preciso, pois, que os indícios da gravíssima acusação que pesam contra o Tenente Coronel Djalma Beltrami se transformem em provas concretas, caso contrário estaremos  cometendo uma gravíssima injustiça,  ferindo publicamente a honra do oficial em questão, onde seus prejuízos de ordem moral serão irreparáveis.  Se, no entanto, comprovado o envolvimento de Beltrami com o tráfico de drogas, terá sido para mim uma grande decepção.

Que se devolva imediatamente a liberdade ao comandante em questão, com a revogação de sua prisão e lhe conceda todos os direitos constitucionais de defesa. A honra e a liberdade são bens incalculáveis de qualquer cidadão. Há que se ter o cuidado para que a precipitação, na busca de resultados,  não se constitua em fonte de injustiças.

Ressalte-se aqui o correto posicionamento do comando da PM do Rio em não se pronunciar oficialmente sobre o caso, até que sejam esclarecidas as circunstâncias e a motivação da prisão temporária do comandante do 7º BPM, tendo inclusive solicitado cópia da documentação que inclui os grampos telefônicos divulgados pela imprensa.

Às autoridades governamentais que nesta segunda-feira precipitadamente, a meu ver, se pronunciaram sobre o caso, também fica o ensinamento de que cautela, bom senso e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Está em jogo, acima de tudo, a honra de um oficial que até aqui primou pela exemplar conduta profissional. 

Milton Corrêa da Costa é coronel da reserva da PM do Rio de Janeiro


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