Política

Sarney e o suicídio de Sêneca

Por Abdon Marinho

Sei que só deveria escrever isso quando não houvesse qualquer possibilidade de uma reviravolta, ou seja, uns vinte dias antes das eleições, no prazo limite para a substituição dos candidatos.

Embora arriscando a ser desmentido pelos acontecimentos, vou tratar, da não candidatura do senador Sarney. Tratando-se de quem se trata, devemos ter um ‘pé atrás’, quantas vezes não já fez esse anúncio, não disse que não iria disputar esse ou aquele cargo e na hora, aparecia como candidato? Mas vamos acreditar que desta vez é para valer.

Pois bem, logo que os os veículos de comunicação anunciaram que o senador maranho-amapaense (esse termo foi criado pelo saudoso jornalista Walter Rodrigues) José Sarney não mais seria candidato ao Senado da República pelo Amapá, antes de qualquer outra coisa, veio-me a mente a história do suicídio do Sêneca.

Os que não se recordam, Lúcio Aneu Sêneca, nascido na Espanha em 4 a. C e morto em Roma em 65, da era Cristã, foi um dos mais se destacou como advogado, escritor e intelectual do Império Romano, tendo sido professor e conselheiro – um dos principais –, do Imperador Nero. No ano de sua morte foi acusado de haver conspirado contra o imperador e, por conta disso, condenado a morte por suicídio. Contam os autores que ele cumpriu com fidalguia a missão de dar cabo a própria vida.

A história do suicídio de Sêneca me ocupou a mente pelo fato de sabermos que ele na verdade não cumpriu a sentença de morte a ele imposta através do suicídio por sua vontade, não na acepção que aprendemos na escola, como um ato de vontade unilateral, um desejo próprio. Aliás, muitos dizem, numa espécie de neologismo, que Sêneca foi “suicidado”.

O mesmo acontece com a ‘não candidatura’ do senador. Ficar de fora da disputa, não é, como querem fazer crer e pregam seus aliados e ele mesmo, um ato de renúncia, abnegação, uma aposentadoria voluntária. Na verdade o senador não reuniu as condições de ser candidato com uma chance mínima de vitória – apesar de haver tentado de tudo, usado de todos os expedientes e influências. Ao invés de renúncia, ele está sendo ‘renunciado’, a aposentadoria não é voluntária, é sim, compulsória.

Numa declaração a um jornal estrangeiro o senador afirmou: “A vida política atual não convida a continuar”, num noticioso nacional saiu-se com essa: “Essa é uma decisão definitiva. A vida está me pedindo um tempo e a política está muito desestimulante”.

As duas afirmações do senador estão corretíssimas, incorreto está quem as profere.

Recordo que lá pelo final de 2005, o honrado senador Jefferson Perez (PDT/AM), falava sobre o que se tornou a política nacional, anunciou que nas eleições seguintes não seria candidato tal o seu desestímulo, tal a sua insatisfação com os destinos do país. A morte o levou antes de testemunhar uma piora na vida política nacional. Não lembro de ver o senador Sarney o apartear para se solidarizar com suas palavras, convidá-lo a uma união nacional para melhorar a política.

Recentemente foi a vez de outro gigante da política brasileira, o senador Pedro Simon (PMDB/RS) anunciar que não mais disputará mandatos eletivos e dizer da sua angústia com o cenário político nacional. Também não vi o ínclito senador, também desistente das disputas eleitorais, manifestar sua solidariedade ou ao menos corroborar com suas palavras.

Não poderia ser diferente. Qualquer um que fale sobre a falta de perspectivas da política nacional, esse desalento que tomou conta do país, cita como culpados o Sarney, o Lula, o Renan, o Collor, o Maluf, o Jucá, o Barbalho e mais a arraia miúda que tomaram de conta da política nacional como um câncer em metátese.

Em que outro lugar do mundo veríamos uma presidente da República obedecer a um prisioneiro? Em lugar nenhum, exceto no Brasil de hoje. Para contar com o apoio do PR, a presidente da República substituiu um ministro de Estado obedecendo as orientações do ex-deputado Waldemar da Costa Neto, que cumpre pena na penitenciária da Papuda, após ser condenado por corrupção, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Não digo que chegamos ao fundo do poço, aqui sempre é possível piorar. Mas nem num delírio se seria capaz de se imaginar que a política nacional descesse ao ponto de termos uma presidente da República alterando ministério para atender interesses de prisioneiros, só para acrescentar uns poucos minutos no horário eleitoral. Aliás, não se imaginaria isso em hipótese nenhuma.

Chega a ser surreal. E ninguém acha que isso seja um despropósito, uma lástima. Pelo contrário, aprovam a ideia de que vale é contar com os minutos no horário eleitoral, independente de se ter que obedecer as orientações da Papuda.

Essa é a mesma lógica que faz com que um cidadão procurado pela polícia internacional, a interpol, seja figura de destaque nos festins do poder como é o caso do Sr. Paulo Maluf, agora chamado pelos próceres do PT de Dr. Paulo, ao momento em que dizem ser uma honra tê-lo ao seu lado. Assim como é honrrosso ter todos os demais já referidos.

É essa falta de ética, de vergonha na cara daqueles estão no poder, que torna a política dessestimulante, que não convida as pessoas de bem a participar, a se omitirem dos destinos do país. As pessoas de bem, aquelas que ainda não estão entorpecidas, que não acham tudo normal, sentem é asco, vergonha e pavor da política nacional.

Ao ser ‘renunciado’ da política nacional o senador Sarney está correto no diagnóstico. É fato que a política não convida, que não estimula. Erra, entretanto, ao não fazer a mea-culpa, ao não reconhecer que essa política é parte de sua herança para o país, a sua e dos demais que fazem parte deste consórcio de poder e que são capazes de tudo, até de sacrificar o próprio país para mantê-lo. Capazes de tornar o ambiente impróprio até para aqueles que nasceram e cresceram nas suas entranhas.

Quantas gerações não foram e estão sendo sacrificadas por conta deste legado? Qual o interstício de gerações que há entre o senador e os postulantes ao governo do Maranhão, apenas para citar um exemplo? Que foi feito das gerações intermediárias? Quais as razoes que as impediram de participar da vida política do estado e do país? O capital político de uma nação se forma com a participação de todos, cada um contribuindo com o que pode. Se o mal exemplo e a degeneração ética se torna uma política de estado, como estamos vivendo na atualidade, é lógico que a derrocada seja certa.

Ao ser ‘renunciado’ da política, pelas mãos dos nossos irmãos do norte, o senador, que preza pelos valores da cultura e da intelectualidade, talvez devesse refletir sobre essas coisas.

Abdon Marinho é advogado eleitoral.


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