Política

Um incessante ataque à memoria

Por Abdon Marinho

Advogado Abdon Marinho.

Advogado Abdon Marinho.

 

Uma das frases mais belas e cortantes dos últimos dias, na minha opinião, foi a proferida pelo vereador e advogado João Damasceno, disse ele: ”Não temos o direito de sermos cínicos”. Disse isso a propósito da efusiva declaração de bem querença do pré-candidato Flávio Dino ao antigo desafeto João Castelo, a quem, em eleições ainda frescas na memória do povo, qualificou com os piores adjetivos. Se justo ou injustos à época ou agora, é um fato que não me cabe julgar. Entretanto, a mudança de posição e o espaço de tempo entre elas se deu de forma tão abrupta que, com razão, há de se indagar sobre o excesso de pragmatismo político dos nosso dias. Sobre esse excesso de pragmatismo, não apenas deste, mas também de outros candidatos, cidadãos e de políticos de maneira geral, já havia me manifestado num texto escrito não faz um tempo intitulado: “O VALE TUDO, VALE A PENA?”.

Acho que os historiadores precisam ficar atentos para esses fatos. Todos os dias aparece um e outro querendo rescrever a historia do país e a sua própria história.

Hoje mesmo, ao olhar os jornais locais, lá está em O EMA, o ex-presidente da República, senador José Sarney, vendendo-se como o maior ativista da causa negra do Brasil. Como defensor intransigente da causa anti-apartheid da África do Sul, até mesmo antes de Mandela, dizendo que sua luta contra a causa racista remonta o ano de 1961. Com os instrumentos que possuo não foi possível verificar esse ativismo do nosso ex-presidente. Busco na memória e não o vejo em movimentos defendendo a causa dos negros, nem os daqui, nem de lugar nenhum do mundo. Não tive como ver a relação do seu secretariado de 1965, mas na relação dos ministros do seu governo não encontrei nenhum ministro negro, talvez um ou outro, devido a miscigenação brasileira, até tivesse ascendência negra, mas nenhum era negro. Nenhum entrou no ministério como expressão deste apreço que o hoje senador diz sentir pela raça negra. Como se justifica dizer que “sempre fui ligado às causas da raça negra”, se nenhum dos quase setenta ministros que passaram por seu governo era negro?

Embora fosse bem jovem durante o governo Sarney, um adolescente, na acepção da palavra, não me recordo de suas políticas promocionais das causas populares, dentre as quais a causa negra ou igualdade de gênero, que tanto se fala hoje.

Apenas para se ter uma ideia, da relação de ministros do governo Sarney, a que já nos referimos e que contou com quase setenta, apenas uma era mulher.

A condenação ao regime racista da África do Sul pelo governo brasileiro é fato histórico, entretanto essa condenação veio no contexto de um maior alinhamento com os demais países do ocidente, que já condenavam o regime racista e que cobravam uma posição do Brasil com relação ao mesmo.

O Brasil, “foi na onda” e na pressão, pois queria manter melhores relações com outros países africanos e com outras mações ocidentais e dá continuidade a sua política de se tornar líder do que se chamou na época de ‘atlântico sul’. Atribuir a decisão de condenar o ‘apartheid’ à pessoa do presidente, como quer fazer crer o artigo do senador, vai uma grande distância.

O governo Sarney ficou conhecido como o governo da era perdida. Apenas para se ter uma ideia em 1985 a principal meta do governo era combater a inflação que naquele ano chegara a 235% ao ano. Infelizmente, em que pese os diversos planos econômicos lançados (Plano Cruzado, Plano Cruzado II, Plano Bresser e Plano Verão), nenhum apresentou resultados. A economia do país foi à lona, e em

março de 1990 a inflação alcançou o recorde de 84,23% ao mês e um índice acumulado nos doze meses anteriores de 4.853,90% (alguém consegue imaginar hoje o que é uma inflação nestes níveis? Não. Ninguém consegue).

Sobre esses fatos nenhum artigo, nenhum comentário. É como se quisessem (e querem) que esqueçamos o desespero que era para as famílias receberem os salários e correrem para os supermercados na esperança de quando chegarem lá o salário ainda desse para comprar a mercearia do mês.

Nada contra que as pessoas esclareçam o que fizeram ou que mudem de opinião sobre coisas, causas, situações ou sobre pessoas. Temos esse direito. O que não temos é o direito de tentar mudar os fatos passados, as palavras ditas, as ideais escritas.

Causa-me estupor ver como alguns políticos tentam colocar uma pá de cal na história tentando rescrever a mesma conforme suas conveniências.

Como bem disse o Dr. João Damasceno, “não temos o direito de sermos cínicos”, a estas sábias palavras acrescento: “os cidadãos de bem têm o dever de não consentirem com o cinismo.”


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