Poder

Anjos e demônios

Por Abdon Marinho

Todo progresso do Maranhao é devido a Sarney. Toda desgraça do Maranhão é devida a Sarney. Assim inicio esse texto sobre o fechamento do ciclo político comandado pelo senador “maranho-amapaense” José Sarney (neologismo criado pelo saudoso jornalista Walter Rodrigues).

Agora e pelos próximos anos esse será o discurso dos aliados e adversários do grupo Sarney. Embora um e outro não reconheçam, ambos os argumentos, com os seus “senões”, estarão certos, conforme a ótica de quem vê e interpreta os fatos no Maranhão, cada um puxando a brasa para a sua sardinha.

Artigos do próprio ex-presidente, dos seus inúmeros aliados e todo seu aparato midiático (incluindo jornais, TV’s, rádios, canais de internet, blogues), já faz tempo, tentam vender o legado do sarneysmo como de méritos e bonanças, creditando-lhe grandes obras de infra-estrutura como o Porto do Itaqui, rodovias, ferrovias; desenvolvimento econômico, empresas instaladas; situação financeira, etc.

Os adversários valem-se dos números africanos dos indicadores sociais para mostrar o atraso a que foi submetido o estado em quase 50 anos de dominação de um mesmo grupo.

O Maranhão é campeão entre os que recebem bolsa-família, com quase 50% (cinquenta por cento) de sua população como beneficiaria, ocupa as últimas posições em desenvolvimento humano, últimas posições entre os estados onde ocorre mais óbitos infantis, a educação na rabeira em toda pesquisa do ENEM, do PISA, da Prova Brasil e de qualquer outra avaliação que se faça; a violência, representada pela matança indiscriminada, pelo tráfico de drogas, assaltos, tornou o estado um dos lugares mais perigosos do mundo para se viver; menor per capita de policial, de médico a desigualdade social mostra o estado vivendo seu apogeu da Idade Média.

Ambos os lados, na incapacidade de enxergarem o quadro como um todo, olharão e difundirão a versão que for mais conveniente.

Faz parte da política maranhense a visão maniqueísta das coisas. O bordão mais comum por aqui é: “do meu lado até o que não presta é bom, do outro lado até o que é bom não presta”.

Assim, com verdades convenientes, meias verdades e mentiras inteiras, os grupos políticos continuarão a sua busca incansável, para manter, conquistar ou retornar ao poder. Veremos e torçamos para que façam isso em sintonia com os anseios e as necessidades dos cidadãos.

Embora ache prematuro dizer-se que o grupo que deixa o poder não tem chance de retorno, enfrenta suas dificuldades, das quais, a principal é a falta de um líder sagaz e com conhecimento político do estado. Prova maior disso é o candidato que escolheram para disputar a última eleição que a muitos pareceu uma piada de mau gosto e que causou mais afastamento do que união.

Outro ponto em desfavor é o modelo de “desenvolvimento” que dizem ter implantado no estado. Não esqueço uma declaração do senador, acompanhando a filha governadora, numa inauguração de uma empresa privada, em que saudava a industrialização que chegava ao Maranhão. Atribui a um ato falho.

Como é possível saudar a industrialização do Maranhão depois de tanto tempo no poder? O Brasil se industrializou para valer já nos anos cinquenta.

Como que só agora, em pleno 2014, estamos saudando este advento no Maranhão? Só posso atribuir a u lapso de memória.
Se estes são pontos negativos, por outro lado, os favorecem a comparação.
Em um texto anterior (bem antes das eleições), discorria sobre as dificuldades de um futuro governo de sucessão ao grupo Sarney.

Explicava o motivo. Em política, uma das formas de combate é a comparação entre o legado de realizações dos grupos. No caso do Maranhão não se terá, por um bom tempo, como fazer a comparação: após tanto tanto tempo de poder, não há qualquer parâmetro para comparar o que fez o grupo que deixa o poder com qualquer outro grupo que já esteve.

O Sarneysmo manda e desmanda no Maranhão há meio século. Em termos de longevidade, só é possível comparar com o Segundo Reinado. Nestes anos a realidade econômica do Brasil sofreu enormes modificações. O país deixou de ser eminentemente rural para urbano.

Tivemos um surto desenvolvimentista do período militar estimulando a colonização da região amazônica, os grandes projetos de integração, no qual o Maranhão foi “beneficiado”. Em termos de poder, nem se fala, o líder do grupo, está no cenário político nacional desde 1955, são sessenta anos acumulando poder, chegando a ocupar a Presidência da República por cinco anos.

O primeiro governo eleito no Maranhão desde os anos sessenta como oposição, foi o de Jackson Lago, que durou apenas dois anos , nos quais esteve sitiado nos Leões, não servindo de baliza para qualquer comparação.

Os desacertos do curto mandato, embora tenham contato com a participação efetiva de auxiliares sem compromisso, incapazes e corruptos, devem-se também à imensa sabotagem que sofreu tanto de dentro do aparelho do próprio governo – com suas engrenagens montadas e azeitadas pelos adversários –, à mídia inclemente, dominada pelos opositores, quanto ao domínio da política pelo senador Sarney no cenário nacional. Cabendo registrar, neste último, a decisiva participação dos líderes maiores do governo federal.

O próximo governo terá, pela primeira vez, em meio século, melhores condições para fazer uma efetiva mudança política no estado. Condições que, os que viraram oposição no governo, tiveram e que o único governo eleito na oposição, não teve. Em que pese ainda deter parcela de poder considerável na máquina federal, através do seu partido e influência junto aos tribunais, não resta dúvida que essa ingerência será bem menor a partir de agora do que foi até aqui.

O futuro governo terá a seu favor o fato de ter sido eleito com uma acachapante vitória, portanto, sem temer qualquer questionamento de mandato na justiça eleitoral, ter eleito senador e diversos deputados federais, contar com uma boa e talvez majoritária bancada na Assembleia Legislativa, possuir bom trânsito no governo federal e não contar com a oposição do grupo que perdeu o mando como menos influência nas hostes do poder federal.

O ineditismo possibilita que faça as mudanças que o povo que o elegeu tanto anseia.

Essa é a nossa torcida. Que o ano novo, que o governo novo, faça o Maranhão avançar e conquistar seu lugar no cenário nacional. Potencial para isso possui de sobra.

Um bom ano, um bom recomeço com paz e esperança para todos.

Abdon Marinho é advogado eleitoral.


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