Poder

O debate lateral

Por Abdon Marinho

Abdon Marinho.

Abdon Marinho.

Nos meus tempos de menino tinha um ditado que dizia mais ou menos assim: “Quanto mais rezo, mais assombração me aparece”. Lembrei-me disso hoje. Se tem algo que me incomoda profundamente é esse hábito que tomou conta do Brasil de só se fazer o debate lateral, de acordo com a conveniência de cada um.
Alguém já se deu conta disso?

Vejamos alguns exemplos:

A questão da reforma política. Chegou-se ao consenso que se o Brasil não fizer uma reforma política o país vai acabar, só os ladrões salafrários serão eleitos. Ora, todo mundo sabe que a reforma política é importante e necessária, entretanto não será o contribuinte pagando para votar e não podendo escolher que iremos mudar esse país. Não é jogando mais recursos públicos no processo e na mão dos políticos que o Brasil vai melhorar.

A questão da importação de médicos. Não conheço a realidade de outros estados, mas no Maranhão temos necessidade de aumentarmos o número de médicos. Os municípios não conseguem médicos para atuarem como devem nos municípios com a disponibilidade dos recursos que têm. Médico nenhum quer cumprir a carga horária de 40 horas semanais para receber 5, 6 mil. Querem é fazer um plantão e receber 1.200 por ele. Mais, ainda pagando bem, pelo menos para os nossos padrões, não temos médicos suficiente para atender a demanda. Entretanto isso não quer dizer que as condições de trabalho são boas ou dignas. Estou dizendo com isso apenas que precisamos de médicos e de mais condições de trabalho. O debate lateral que travam é como se uma coisa excluísse a outra.

A questão dos médicos cubanos. Quem no Brasil é contra qualquer pessoa de outra nacionalidade? Nunca vi isso no Brasil. Aqui se recebe bem americano, inglês, angolano, alemão, etc., porque se seria contra o povo cubano, um povo que a maioria do povo brasileiro tem até um especial carinho? Pois é, de uns dias para cá começaram com essa invenção de que o povo brasileiro é xenófobo, intolerante. O pior de tudo é que a patuscada, a ideia de denegrir o povo brasileiro parte de onde não deveria partir: o nosso governo. O governo sem ter como justificar sua política desastrosa e na intenção de ganhar alguns seguimentos sociais e outros inocentes inúteis passam a ideia de que os protestos contra os médicos cubanos partem de brasileiros xenófobos, fascistas, nazistas, etc., quando na verdade não é nada disso. Os que protestam contra a importação dos médicos, salvo algumas exceções (sempre tem maluco no meio de tudo), querem apenas que estes médicos, como todos os demais façam teste para aferir sua capacidade, o chamado revalida. Teste aliás que deve se exigir de qualquer profissional, pois se trata de uma garantia da sociedade, um atestado do governo de que aquele profissional está habilitado para trabalhar. A outra questão é o modelo de remuneração. Como é possível que o governo pague, para os originários de outros país, seu salário diretamente e use outro modelo para os cubanos? Porque os outros podem vir com suas famílias ou constituir famílias aqui, se quiserem e os cubanos se quiserem arranjar uma namorada ou namorados estão passíveis de deportação? Porque o governo brasileiro acha lícito o governo cubano se apropriar do salário de seus trabalhadores contrariando toda legislação nacional? O debate lateral ao invés de discutir essas questões e as outras que tratei em post anteriores, trata é de ofender quem levanta esses questionamentos.

A questão da segurança pública no Maranhão. Hoje lendo o jornal me deparei com um exemplo de debate lateral tupininquim. O nosso secretário de segurança, por ocasião da apresentação dos assassinos de um empresário, manifestou-se sobre a questão da maioridade penal. Protesto enfático, diga-se de passagem e com o qual concordo. Entretanto a argumentação dele é mais para fazer coro ao debate lateral. Vejam até agora já tivemos 600 homicídios dolosos (se não chegou a esse número, falta um ou dois para fechar), logo não é cabível que o secretário venha falar em maioridade penal. Não sei se ele é do Maranhão, se é deve saber que que um dos nossos hábitos, seja na cidade, nos bairros e no interior é ficar nas portas jogando conversa fora, hoje quando o relógio marca 7:00 horas, todos correm para de trancar em casa. Isso no estado todo. O efetivo policial maranhense tem se mostrado insuficiente e ineficiente no combate a criminalidade. No interior as drogas se alastram e não há qualquer política de combate. Ninguém mais pode deixar uma roupa no varal, criar uma galinha, um pato, um porco que os meliantes vão lá e roubam. Os adolescentes, em determinadas horas e determinados lugares, não podem mais andarem de bicicleta, porque se fizerem isso perdem suas “bikes” e talvez a vida. E por ai vai.

Ora, senhor secretário, o fato de haverem elucidado um homicídio dentre os 600 que permanecem em aberto, não o credencia a vir opinar sobre a política estabelecida pelo E.C.A. para as crianças e adolescentes. Embora reconheça e concorde com o senhor em relação a necessidade de se fazer algo com relação aos chamados “de menor” e já disse isso mais de uma vez, o senhor ainda precisa comer “muito tutano”, como dizia meu pai, para querer “professorar” sobre o tema.

Nestas ligeiras palavras vimos que mais fácil o Brasil se livrar da saúva (a formiga) do que da praga do debate lateral.


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