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Martírio maranhense

Por Abdon Marinho

Abdon Marinho.

Abdon Marinho.

Como sabem de sexta a domingo estive na parte do Maranhão conhecida como região Tocantina. No sábado pela manhã participei da audiência pública promovida pelo COMEFC no município de Vila Nova dos Martírios.
Este município fica a cerca de 660 km de São Luís e o acesso se dá pela BR 222. Fica na região do “bico do papagaio”, fazendo limites com os estados do Pará e Tocantins, com o município de São Pedro da Água, o último município do
Maranhão na região. Com pouco mais de 12 mil habitantes é pobre como tantos outros do Maranhão, no ranking do IDHM de 2010 passou a ocupar a posição 4614. Um dos problemas da sede do município é a falta d’água. Há quase dez anos o municípios perfurou um poço com quase 200 metros, construiu caixa e até hoje não conseguiu recursos para fazer a água chegar aos munícipes.

Como dizia, na audiência de sábado pela manhã perguntei ao auditório lotado: “qual o melhor lugar do mundo para vocês viverem?” O auditório respondeu em coro: “Vila Nova dos Martírios!”

Repeti a pergunta em Cidelância, na audiência da tarde, novamente a mesma resposta, desta vez disseram Cidelândia, claro.

O nome do município sempre me seduziu. Sempre imaginei: Porque colocar o nome do município de Vila Nova dos Martírios? Qual a razão do martírio? Martírio na definição dos dicionaristas significa “sofrimento ou suplício de mártir”, “tormento ou grande sofrimento”, algo como Vila Nova do sofrimento, tormento, suplício…

Motivou-me fazer a pergunta aos vila-novenses uma afirmativa feita na audiência do dia anterior pela prefeita do Itinga, município que é um dos grandes pólos moveleiros do Maranhão e dos poucos com IDHM acima da média, sendo o sétimo do estado. Dizia a prefeita do seu desalento ao ver naquele município, outrora tão promissor, seu povo deixando suas famílias, seus amigos para irem ganhar a vida noutros lugares. Foi isso que me motivou.

A resposta já sabia, ainda num município que trás o sofrimento no próprio nome, seus munícipes o considera o melhor lugar do mundo para se viver. E dizem isso com razão, o melhor lugar do mundo para vivermos é lugar onde estão nossos amigos, nossos familiares, nossos laços.

Explorar novos lugares é saudável, quantos não foram os que vieram para o nosso estado em busca de melhores condições de vida? Milhões, inclusive minha família.

O Maranhão já foi a terra prometida para muitos, o lugar da prosperidade para onde todos corriam, mineiros, gaúchos, norte-riograndense, cearenses, etc. Hoje são os maranhenses que buscam outras terras, melhores condições. Deixam o estado não por vontade própria, não para exercitar o espírito aventureiro, deixam tangidos pela miséria, pela precisão.

A maioria saem do estado, dos seus municípios na esperança que a despedida seja apenas um até breve. Querem manter os laços, querem voltar a sua terra, alguns conseguem voltar, outros não.

Li outro dia que grande parte do eleitorado maranhense ainda não fez o cadastramento biométrico, poucos sabem ou fingem não saber que muitos não estão mais por aqui, estão trabalhando noutros estados. É tão presente o desejo de voltar a sua terra que o cidadão mantém o domicílio eleitoral, toda eleição tenta ir para votar, se não consegue, vai justificando. Só muda o domicílio quando perde totalmente a esperança de voltar ao seu torrão. Isso as estatísticas não mostram, ignoram.

Poucos se deram contas que no acidente que vitimaram dez operários em São Paulo, nove eram maranhenses (já falei disso noutro post). Eram pessoas que foram buscar melhores dias noutras terras pela falta de oportunidades aqui. Não adianta se tentar mascarar esses fatos.Os maranhenses estão saindo do estado. Será que sairiam, nos números que saem hoje se tivessem condições de trabalho por aqui? Certo que não.

A mesma realidade em números absoluto que se ver em relação o estado e reproduzida nos municípios. Em todos esses anos, nunca tinha visto um quadro de tamanha pobreza para os nossos municípios. A capacidade de arrecadação, na maioria, é próxima do zero principalmente porque a produção vai se reduzindo ano após ano, os repasses constitucionais que mantém os municípios também. Hoje a maioria dos municípios não tem como honrar os compromissos de gestão conforme estabelece a legislação.

É esta realidade que precisa mudar. Precisamos acabar com esse martírio maranhense, que divide famílias e que só trás infelicidade para todos, os que ficam e os que partem.

Abdon Marinho é advogado eleitoral.


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