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Tragédia comprova: ônibus, no Rio de Janeiro, são bombas-relógio em circulação

Por Milton Corrêa da Costa

A irresponsabilidade e a imprudência, em parte do setor de transporte de ônibus na cidade do Rio de Janeiro– há empresários e motoristas ainda responsáveis- ficaram evidenciadas no grave acidente ocorrido na noite da última terça-feira (12/06), na Avenida Brasil, uma via de trânsito rápido, onde um ônibus desgovernado subiu a calçada, invadiu um ponto de parada (no local haviam cerca de 100 pessoas), deixando um impressionante rastro de 5 mortos e mais de 20 feridos, só parando após arrancar as vigas de um muro existente no local.

Duas das vítimas fatais tinham 14 anos e a mãe de uma delas, incrédula, ao ver o corpo da filha mutilado e sem vida, desmaiou no local. De acordo com testemunhas o motorista dirigia em alta velocidade ( o tacógrafo apontava 80km/h) e com uma só das mãos. A força do impacto do ônibus desgovernado ,sobre os corpos das vítimas, arrastadas ou imprensadas contra o muro, foi de cerca de 350 toneladas. “É como se uma pedra de 300 a 350 toneladas fosse arremessada contra uma pessoa”,comparou o professor de Física Bruno Feldens.

Registre-se que no dia seguinte ao grave acidente, nas imediações do local da tragédia, um outro motorista foi fotografado ao volante de um ônibus falando ao celular. O histórico do motorista André Martins Navarro, 34 anos, que dirigia o veículo envolvido na tragédia (já responde a dois processos por acidentes com vítimas), segundo noticiado, mostra que ele não tem sido um bom exemplo no trânsito. Multas por excesso de velocidade foram cometidas em ônibus da empresa onde trabalha há três meses. Em julho de 2010, foi penalizado por dirigir veículo particular sem carteira. Outras duas multas, por estacionar em local proibido e avançar sinal, foram em 2008, quando era funcionário de outra empresa.

Este é o cenário, de um verdadeiro filme permanente de terror, que passageiros e transeuntes estão sujeitos na cidade do Rio de Janeiro e em suas cercanias, onde são submetidos diariamente ao risco de acidentes envolvendo ônibus, além dos grandes congestionamentos gerados pela imprudência e irresponsabilidade. Parece que há pouco ou nada mais a fazer a não ser levantar questionamentos.

De que adianta submeter motoristas de ônibus a cursos de qualificação profissional se não são monitorados no exercício extramuros da função? Quantos executam a dupla função, de motoristas e também de cobradores, colocando em risco os cuidados com a direção veicular? Quantos são submetidos a jornadas excessivas de trabalho? Quanto as empresas lucram com tais medidas? Quantos ônibus circulam em mau estado de conservação? Qual é a idade média da frota de ônibus do Rio de Janeiro? Quantos ônibus transportam passageiros, em excesso de lotação, como se fossem sardinhas em lata?

Os questionamentos prosseguem. Por que apenas parte das empresas ( somente em cerca de 60% das infrações) cumprem o disposto no Artigo 257, parágrafo sétimo, do Código de Trânsito Brasileiro, na indicação dos reais infratores nas notificações de autuação de trânsito? Por que tais empresas preferem encobrir infratores fazendo-os simplesmente pagar o valor das multas e não submetê-los à penalidade de suspensão do direito de dirigir e ao curso de reciclagem de motoristas infratores?Será melhor encobrir maus motoristas, assassinos em potencial, que poderão trazer possíveis prejuízos às empresas a qualquer momento? Qual é o percentual de motoristas de ônibus no Rio de Janeiro portadores de hipertensãoou com elevado grau de estresse? Há dignidade de salários, compatíveis com a importante missão de transportar com segurança seres humanos? Quantos, fora dos horários de trabalho, fazem uso permanente de álcool? Como são monitorados, pelo setor de psicologia, nas empresas? Que tipo de acompanhamento é feito? São submetidos periodicamente a testes psicológicos? Ao assumirem o serviço, onde irão transportar centenas de pessoas, são submetidos a algum tipo de avaliação?

Com a palavra os empresários, os sindicatos de motoristas de ônibus e os órgãos responsáveis pela fiscalização de trânsito. Até quando vítimas inocentes e seus familiares pagarão o preço d irresponsabilidade, da negligência e da imprudência? Ate´quando vamos conviver com bombas- relógio e homens- bomba em circulação? É o que a sociedade, vítima do descaso, deseja urgentemente saber.

Milton Corrêa da Costa é coronel da reserva da PM do Rio de Janeiro


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