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Roubo a caixas eletrônicos: o incômodo e permanente desafio à inteligência policial

Por Milton Corrêa da Costa

Quem viu as cenas transmitidas na quinta-feira, 15/03, pela televisão, geradas pela gravação do circuito interno, durante o assalto ao caixa eletrônico de uma agência do Banco Itaú, na última terça-feira (13/03), na capital de São Paulo, numa autêntica ação de guerrilha urbana, com bandidos (15 criminosos fortemente armados) usando toucas ninja, obrigando – vejam a tamanha ousadia- um motorista de ônibus a deixar o veículo “atravessado” na rua, enquanto com pés-de-cabra arrombavam os caixas para em seguida, explodirem cinco caixas eletrônicos, numa ação típica de filme policial americano (todos fugiram com o dinheiro), não tem mais dúvida do tamanho do desafio que a polícia de muitos estados têm encarado nos últimos anos na tentativa de conter tal preocupante prática criminosa onde assaltantes descobriram que, excluídos os casos em que não fecham ruas com barreiras, é possível em até cinco minutos concluir a ousada ação criminosa e fugir com o dinheiro roubado. Registre-se que no Rio de Janeiro, comparado a outros estados da federação, apesar do duro combate ao narcotráfico, tal prática criminosa tem sido diminuta. Em realidade não se sabe realmente o porquê.

O que se sabe e preocupa sobremodo a s autoridades policiais é que na grande São Paulo, somente este ano, chega a 30 o número de caixas eletrônicos roubados, a maioria com uso de explosivos. O uso do maçarico, que demanda mais tempo para a concretização da ção criminosa, vai se tornado obsoleto. No ano passado, em todo o Estado, aproximou-se de 150 o número de roubos. Na mesma terça-feira (13/03), do ousado assalto ao caixa do Banco Itaú, um professor de Itapevi, na Grande São Paulo, foi preso com dois potentes explosivos caseiros para serem usados em roubos a caixas eletrônicos. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, o material era mantido escondido em uma casa no Jardim Rute. Com os suspeitos também foram apreendidos um revólver e munições. De acordo com a PM, os policiais foram acionados para atender uma denúncia de que o professor Thiago Gomes da Costa, 21 anos, guardava armas em casa.

O suspeito explicou que havia fabricado as duas bombas para “explodir caixas eletrônicos”. Para montar os artefatos ele comprou seis bananas do explosivo TNT, instalando três em cada bomba, para dar mais poder explosivo. As “superbombas” estavam acopladas a fios e detonadores, prontas para serem usadas. A pergunta é óbvia. Onde e com quem comprou a carga explosiva e quem é o contato do grupo criminoso? Se o preso, em flagrante de crime inafiançável, não avocar o direito constitucional de manter-se calado, a linha de investigação não será tão dificultosa assim para a polícia chegar a toda quadrilhae desvendar o crime nesse caso.

O fato é que em um ano, entre 2009 e 2010, o roubo de explosivos no Brasil cresceu 170%. A quantidade de emulsão e dinamite levada pelos criminosos em 2010 ultrapassou uma tonelada . Em 2009, foram furtados ou roubados 392quilos. Os dados, segundo o Centro de Comunicação Social da instituição, provém de relatório da Diretoria de Fiscalização de Produtos Controlados, órgão subordinado ao Comando de Logística do Exército Brasileiro, num total de 1,06 tonelada de emulsão de nitrato de amônia e de dinamite roubada ou furtada de pedreiras e obras em sete estados em 2010 e não recuperada. São estes explosivos, segundo delegados da Polícia Civil de São Paulo, que estão sendo usados para explodir caixas eletrônicos em todo o país.

Conforme o relatório do Exército, além da tonelada de emulsão e dinamite, outros 11,7 quilômetros de cordel detonante também foram furtados em 2010, além de 568 espoletas ou detonadores. Para se ter uma ideia do que representa a quantidade de explosivos em poder dos criminosos, para implodir em 2002 o prédio que abrigava a penitenciária do Carandiru, na Zona Norte de São Paulo, o governo divulgou ter usado 250 quilos de emulsão. As maiores quantidades foram furtadas nos estados de Rio Grande do Sul(373 kg de emulsão) e Alagoas (300 kg) naquele ano. Os criminosos levaram dinamite, emulsão, nitrocarbonitrato, detonadores e pavios do tipo espoleta, cordel, espoletim e retardos. O levantamento não inclui as duas toneladas de emulsão roubadas em uma rodovia da capital paulista em setembro de 2010, pois a carga foi recuperada pela polícia. Um total de 323 quilos de explosivos foi furtado em todo o Brasil, de janeiro a outubro de 2011, segundo relatório do Exército Brasileiro.

Na região Nordeste, nos últimos anos, os assaltos a caixa eletrônicos também viraram preocupante rotina. Na Região Sul, somente em Santa Catarina, este ano de 2012 já foram registrados cerca de 20 roubos a caixas eletrônicos onde o apelo da polícia catarinense aos bancos de esvaziar os caixas eletrônicos à noite como alternativa para reduzir a onda de ataques com explosivos no Estado parece inviável operacionalmente. Além disso, os carros-fortes passariam a ser grandes atrativos para as quadrilhas. A avaliação é da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), com sede em São Paulo, dada ao Diário Catarinense. Segundo noticiado, a Febraban afirmou que não há logística operacional para retirar os valores dos caixas eletrônicos à noite. Principalmente no horário da meia-noite às 4 horas da madrugada, o período crítico dos ataques- desde janeiro do ano passado até hoje houve em 57 ações dos bandidos que utilizam dinamite para explodir os terminais.

A entidade que representa os bancos observou que os carros-fortes podem transitar das 8h às 20h e que para além desse horário seria necessário o acompanhamento por funcionário da agência. No caso de estabelecimentos comerciais, como área de supermercado por exemplo, a federação lembra que também precisaria da autorização do proprietário para a operação. “Uma movimentação de numerário neste horário por carro forte (repleto de dinheiro) faria uma sequência de desabastecimento a meia-noite, e um reabastecimento por volta das 06h torna-se um grande atrativo para as quadrilhas. Ao invés de explodirem terminais passarão a promover assaltos nos embarques e desembarques de numerário dos carros fortes”, diz a Febraban.

Blindar os caixas eletrônicos, a outra medida sugerida pela polícia para frear os ataques, também não é a solução, conforme os bancos. A Febraban considera que todo acesso ao terminal precisa de porta de acesso e que com um simples pé de cabra seria possível quebrá-la. Sobre a instalação de portas giratórias, entende que haveria a necessidade de manter vigilante no local, o que esbarraria em restrições legais. A Febraban defende estudos técnicos mais aprofundados, legais e com condições operacionais para o assunto. As sugestões da polícia foram apresentadas recentemente em reunião da cúpula da segurança com o sindicato dos bancários, os bancos Bradesco e Banco do Brasil, em Florianópolis. A polícia disse que as medidas seriam apenas enquanto durarem as investigações sobre as quadrilhas, que ainda não foram presas. Para o vice-presidente da comissão de segurança da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, deputado sargento Amauri Soares, os crimes só vão cessar quando a polícia prender os criminosos e o Estado investir em efetivo policial e inteligência.

Sabe-se também que os explosivos usados nos ataques são roubados de pedreiras e obras. Alguns criminosos usam sem ter conhecimento e acabam destruindo os caixas eletrônicos. “Outros pesquisam na internet e vão testando a quantidade até acertar”, afirmam as autoridades policiais. Nos três primeiros meses de 2011, só no Nordeste, foram mais de 40 casos. Segundo a Polícia Federal,há criminosos especialistas em aliciar funcionários de pedreiras de onde os explosivos são desviados ou roubados e também em ensinar e estabelecer as quantidades de cargas detonadoras nos caixas eletrônicos. Recentemente um caixa eletrônico foi explodido em um posto de combustível de Araraquara, em São Paulo. O uso excessivo de carga destruiu a loja de conveniência onde o equipamento estava instalado e feriu uma pessoa.

Para restringir o risco de mais roubo de cargas, o Exército impôs regras mais rígidas aos fabricantes de explosivos para dar maior segurança no transporte. Por sua vez Maurício Guimarães, do setor de Comunicação do Deic/SP, diz que na maioria dos arrombamentos de caixas eletrônicos são encontrados vestígios de explosivo encartuchado gelatinoso. No Estado de São Paulo, mais de 90 suspeitos foram presos, segundo a polícia.“Esta foi a primeira vez que usaram explosivo para abrir caixa eletrônico em Araraquara, por isto, vamos analisar com muito cuidado o caso para entender quem são estes assaltantes.” Já o Sindicato da Indústria de Explosivos de São Paulo (Sindex) defende a colocação de código de barras nos explosivos para criar um sistema de rastreamento do produto. Mesmo após a explosão, seria possível identificar nos resíduos informações que levem ao lote de fabricação e origem da venda.O engenheiro de minas Wilson Assunção, especialista em explosivo, diz que a preferência dos bandidos pelo tipo encartuchado gelatinoso demonstra um grau de conhecimento deles sobre o assunto por que, separadamente, oferece menor risco de explosões acidentais, como ocorre com as dinamites. “As falhas nas explosões acontecem porque nem sempre eles sabem acionar os detonadores”, diz.

O pior de tudo é que as quadrilhas de assaltantes de caixas eletrônicos inclui muitas vezes agentes ou ex-agentes do próprio estado. A Polícia Militar de São Paulo informou, em 31/05/11, que apurava o envolvimento de 26 policiais em roubos e furtos de caixas eletrônicos em São Paulo. Em 28/05/11, dois policiais militares foram presos dentro de uma agência bancária no Jabaquara, na Zona Sul de São Paulo, suspeitos de tentativa de roubo a caixa eletrônico. Eles foram alertados por um colega sobre a chegada do Grupo de Operações Especiais (GOE). Uma mensagem via celular, que dizia “sai fora que sujou”, levou a Polícia Civil ao terceiro envolvido, que, fardado, ajudava os soldados do lado de fora da agência. Esse terceiro policial também foi detido. Uma operação da Polícia Civil de São Paulo deteve recentemente quatro pessoas suspeitas de fazerem parte de uma quadrilha de roubo a caixas eletrônicos na Grande São Paulo. Entre os detidos estão dois PMs e um ex-policial militar, segundo informações do Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic).

Chega-se a conclusão que falta muito ao aparelho policial no país para detectar e prender as quadrilhas de assaltantes de caixas eletrônicos, num tipo de delito que requer, para o combate eficaz, o investimento maciço e permanente dO governo na área de inteligência e investigação criminal, tanto na qualificação de recursos humanos como na moderna tecnologia, objetivando minimizar e desencorajar tal prática criminosa. Por enquanto, como medida preventiva, para frear o avanço de tal inquietante delito, que a Febraban continue providenciando dispositivos para que durante as explosões dos caixas as notas se incendeiem ou saiam manchadas. Investir em tais medida preventivas é fundamental. Que se unam, portanto, autoridades policiais e entidades privadas afins na descoberta de mais medidas estratégicas de prevenção e repressão. Até aqui o banditismo, através da ousadia e do elemento surpresa, venceu essa guerra.

Milton Corrêa da Costa é coronel da reserva da PM do Rio de Janeiro


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