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Bebida alcoólica em estádios: o compromisso, os patrocínios e a ameaça à ordem pública

Milton Corrêa da Costa

Após 64 anos da frustrante tarde de 16 de julho de 1950, episódio conhecido no mundo do futebol como ‘maracanazo’, onde a seleção uruguaia, de virada, nos derrotou num Maracanã repleto, com um gol do ponta Ghiggia, aos 34 minutos do segundo tempo –o goleiro Barbosa foi crucificado até o último minuto de sua vida- causando um silêncio ensurdecedor em cerca de 200 mil torcedores (fui poupado de testemunha da tragédia por ter nascido em 1948), tendo presenciado, no entanto, pela televisão, a desgraça do Estádio Sarriá, na Copa da Espanha em 1982, na tarde em que ( 05 de julho) tudo deu certo para o italiano Paolo Rossi, o Brasil sediará, em 2014, a XX Copa do Mundo de Futebol e um ano antes a Copa das Confederações.

De 1950 e 1982 para cá as coisas mudaram muito no mundo do futebol. Uma Copa do Mundo, assistida ao vivo hoje por bilhões de espectadores no planeta, gera importantes divisas para todos os segmentos envolvidos, além do legado deixado, inclusive no setor turístico -vejam o exemplo da áfrica do Sul- para o país sede que precisa, portanto, preparar-se adequadamente em obras de infraestrutura de transportes, telecomunicações, aeroportos, rodovias em bom estado, rede hoteleira suficiente e de bom nível, medidas preventivas e repressivas de segurança pública, inclusive de defesa antiterrorismo, além da oportunidade do reaparelhamento das forças de segurança estaduais, da Polícia Federal e das próprias Forças Armadas, sem falar na geração de milhares de empregos pré-evento, para que se possa assim cumprir a contento o estabelecido no caderno de obrigações firmado com a entidade máxima do futebol, a FIFA. Enfim, o mundo estará de olho voltado, entre12 de junho e 13 de julho de 2014, para o Brasil. “Teremos pois a chance -disse a presidente Dilma Rousseff- de realizar a melhor Copa do Mundo e a melhor Olimpíadas porque a realidade do país está mudando”. Temos capacidade de sobra para isso, ninguém duvida.

Ocorre, no entanto, que o Brasil, numa complexa sinuca de bico, entre um país soberano, o protocolo firmado com a FIFA, a competência concorrente para legislar entre a União e os Estados-Membros e a ameaça à ordem pública, terá que decidir, o quanto antes, sobre a permissão ou não da venda de bebidas alcoólicas nos estádios onde serão realizados jogos da Copa. O acordo firmado pelo Brasil com a FIFA prevê a venda nos estádios, porém ela é proibida hoje em sete dos estados da federação onde os jogos serão realizados.

Para se ter uma ideia da importância da medida de proibição, adotada de tempos para cá no Rio de Janeiro, sobre a venda de bebida alcoólica no interior de estádios de futebol, inclusive em suas cercanias, horas antes da realização das partidas, basta observar a queda substancial nos registros de ocorrência e flagrantes delito na circunscrição da área de jurisdição da 18ªDelegacia Policial e na própria sede do Juizado de Instrução montado no Estádio do Maracanã, relativamente a conflitos entre torcedores no interior do estádio e em suas proximidades e ocorrências que envolvem rixas e lesões corporais, além da redução dos números das infrações de competência da Secretaria Municipal da Ordem Pública.

É só analisar e comparar o antes e depois, tomando por base os números registrados e um determinado período de observação, para deixar comprovado, mis uma vez, que o uso excessivo de álcool é inegavelmente fonte geradora de incentivo à violência e causa permanente de tragédias, dentro e fora do mundo do futebol. Vejam a violência familiar, os trágicos acidentes de trânsito, os homicídios e lesões corporais causados pelo uso imoderado de bebida alcoólica, cuja propaganda midiática bombardeia, a todo instante, e influencia os mais jovens apresentando-o como uma ‘fonte irresistível de prazer’. Os males do uso desregrado do álcool são, pois, evidentes para a sociedade.

Registre-se que nesse contexto nevrálgico de jogo de interesses, quanto a proibição ou não da venda de bebida alcoólica em jogos da futura Copa, que envolvem obviamente bilhões de reais, dólares e euros, tem-se notícia que a Budweiser, patrocinadora da FIFA, perderá pouco, em vendas, se proibirem cerveja nos estádios. Neles, comenta o jornalista Ancelmo Gois em sua coluna de 22 de março ( ‘O GLOBO’), telões exibem jogos, com muita música, suor e…. cerveja. A nota informa ainda que estima-se que na Copa de 2006, na Alemanha, cerca de 18 milhões de pessoas tenham passados pelos Fan Fest em 12 cidades daquele país. Quantos festivais da cerveja poderíamos promover, pois,durante a Copa, num país muito mais populoso como no caso o Brasil?

Aí está mais um argumento, além da questão da necessária preservação da ordem pública, para que parlamentares e autoridades, contrários ao dispositivo do caderno de compromisso da FIFA que libera a autorização de venda de bebidas alcoólicas nos estádios, possam se valer. Por mais que as torcidas de jogos de Copa do Mundo sejam diferentes de violentas torcidas organizadas domésticas, até mesmo no poder aquisitivo e diferenças culturais, o uso de bebida alcoólica em campos de futebol é uma evidente ameaça à ordem pública e à paz social. O álcool não difere, ao penetrar na corrente sanguínea e no cérebro humano, poder aquisitivo, nível cultural ou educacional, ele transforma sim, e muitas das vezes, pacatos seres humanos em homicidas em potencial, quanto mais quando contagiados pelo anonimato da turba agressiva e a paixão futebolística onde a emoção acaba sobrepujando a razão, dando causa permanente a grandes tragédias na história do mundo apaixonante da bola. Tudo deve ser feito, portanto, pela paz social e pelo divertimento seguro em estádios de futebol e a bebida alcoólica é uma grave ameaça a tal pressuposto. Não há dúvida.

No, entanto, também não resta dúvida, que no país do samba, do pagode, do churrasco e do futebol os lucros das empresas de bebidas alcoólicas é retorno garantido. O carnaval fora de época, a cada jogo de nossa seleção, ocorrerá como sempre. Espera-se que desta vez ,sobretudo, com nossa vitória no último confronto da final a ser realizado no lendário Estádio do Maracanã. Evitar, porém, o uso do álcool em estádios de futebol e em suas cercanias, permanentemente, ainda que o pacto tenha sido assinado e assumido, provando à entidade máxima do futebol mundial que há formas sugestivas de obter lucros com a venda de bebidas alcoólicas fora dos estádios, será tarefa difícil e hercúlea -não impossível- para os que se posicionam contra a discutível permissividade da FIFA. Que se posicionem também as organizações não governamentais de combate ao uso de drogas em todo o país e no mundo. Está em jogo uma intrigada questão que envolve segurança publica, soberania nacional, patrocínio do evento, compromisso com a FIFA e acima de tudo bom senso.

Milton Corrêa da Costa é coronel da reserva da PM do Rio de Janeiro


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