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Guerra do Rio: a hora e a vez da pacificação da Rocinha

Por Milton Corrêa da Costa
 
A Favela da Rocinha, situada na Zona Sul do Rio, entre os bairros da Gávea e São Conrado, considerada  a maior favela da América Latina, é o principal  centro de refino da pasta básica de coca no Rio, transformando-a em cocaína, uma droga cujo uso  traz comprovadamente, segundo estudos científicos, graves prejuízos ao cérebro. Já se perdeu a conta dos laboratórios de refino da droga encontrados pela polícia naquela localidade nos últimos anos. Tempos atrás, uma casa ali situada, usada como laboratório de refino, inclusive do crack, explodiu indo pelos ares em razão do material de insumo de fácil combustão ali encontrado. Alguns traficantes caíram nas mãos da polícia ao procurarem socorro nos hospitais, gravemente feridos. Se o Complexo do Alemão e suas cercanias, hoje ocupado por tropas do Exército, foi, até bem pouco tempo, o ‘quartel general’ do poderio bélico do tráfico e do homízio de perigosos narcoterroristas, pode-se dizer que a Rocinha, chefiada pelo traficante Nem, é o ‘quartel general”do poder econômico do narcotráfico no Rio.

Ressalte-se que o local foi escolhido estrategicamente, há tempos,  pelo comando da facção criminosa que ali atua, objetivando o refino e o comércio de cocaína. A Rocinha situa-se na passagem entre a Zona Sul e a Barra da Tijuca, isto significa dizer que usuário de cocaína é clientela de maior poder aquisiitivo. Cocaína não é droga consumida por jovens de classes menos favorecidas. Em relação à maconha e ao crack seu preço é bem mais caro. Um ex-chefe de polícia do Rio, numa memorável frase, definiu bem a relação do consumo da cocaína com a clientela de alto poder aquisitivo de uma bairro da Zona Sul. O Delegado Hélio Luz disse na ocasião: ” Ipanema brilha à noite”. Brilho é o termo usado para identificar a droga, cheirada aos borbotões, até hoje, nos banheiros das boates e outras casas noturnas mais requintadas e famosas da cidade, associada ao uso de álcool, enrgéticos e também ao  ecstasy, uma droga sintética produzida na Europa e muito usada nas chamadas festas ‘rave’.

Chegou a hora e vez de dar à Rocinha, portanto, apesar de toda a sua complexidade específica (uma favela-bairro) de grande extensão terrItorial, um terreno acidentado e de difícil acesso, o mesmo tratamento de sucesso dado ao Complexo do Alemão, sem que, obviamente, se desrespeite direitos civis de seus moradores. É o progressivo caminho da pacificação e da possibilidade do resgate da cidadania e definitiva inclusão social dos que ali vivem há longos anos oprimidos pelo terror das armas de guerra, apesar da necessidade óbvia de grande efetivo policial para a ocupação definitiva e obviamante do apoio de blindados das Forças Armadas na tomada inicial do terreno como ação desestimulante à uma possível resistência marginal. A superioridade bélica e numérica das forças legais de intervenção tem sido uma estratégia intimidatória de sucesso na tomada de tais localidades, como ocorreu  na Vila Cruzeiro, no Complexo do Alemão e no Morro da Mangueira. Urge, portanto, a implantação, assim como no Vidigal, favela próxima, de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na Favela da Rocinha no processo de enfraquecimento do poder paralelo no Rio.
 
Frise-se que a pasta básica de coca, que chega à Rocinha, provem da Bolívia, do Peru e da Colômbia, o que comprova a ligação com cartéis internacionais de drogas e também com o contrabando de armas. O traficante Marcelinho Niterói, morto recentemente numa favela do Rio em confronto com a Polícia Federal, um dos braços-direitos de Fernandinho Beira-Mar e procurado há anos pela polícia brasileira, era o principal intermediário dos carregamentos de maconha e armas provenientes do Paraguai. Sua morte foi  sem dúvida um duro golpe na estrutura hierárquica do narcoterrorismo.
 
Dados da inteligência policial dão conta inclusive que traficantes brasileiros, daqui fugitivos, controlam hoje boa parte das áreas de plantio de maconha naquele país vizinho, onde dias atrás foi preso o ex-chefe do tráfico do Morro da Mangueira no Rio, o traficante conhecido como ‘Polegar’.Registre-se ainda que o Brasil é hoje a terceira principal rota do tráfico de cocaína para a Europa, atrás apenas de Venezuela e Equador. Vale lembrar que a polícia apurou, tempos atrás, uma denúncia de que alguns comerciantes da Favela da Rocinha possivelmente encobriam seus negócios  lavando dinheiro com envolvimento com o tráfico local. Pelo sim e pelo não a ousadia de traficantes da Rocinha, sob o comando de Nem, passou dos limites.
 
Segundo noticiado na edição de ‘O GLOBO’, desta quarta-feira, 09/11/11, Nem recebe uma espécie de “pedágio” de vans e motos- obviamente que de outros serviços- que circulam naquela favela, além de cobrar taxas de uma clínica de aborto, interditada na semana passada, e de uma casa de prostituição. Há informações, segundo a matéria, que Nem teria determinado a antecipação da eleição para escolha dos presidentes de entidades e associações do local, deixando pessoas de sua confiança à frente de tais entidades e de seus negócios ilícitos, mesmo após a ocupação policial da favela. Nem costuma usar inúmeros traficantes, fortemente armados, atuando em sua segurança pessoal. Uma ousadia a toda prova.

A consolidação de uma UPP na Favela da Rocinha- a polícia vem fazendo incursões precursoras no local- será, portanto, o mais duro golpe até hoje desferido na estrutura econômica do narcotráfico no Rio e uma vitória para a sociedade. Mais que uma política de governo, o processo de pacificação de favelas do Rio, um remédio atípico para uma criminalidade atípica, tem que se tornar, a partir de agora, uma política de estado. Se assim for a paz social um dia será viável no Rio.

Para os que consomem a droga e alimentam a violência, financiando indiretamente os fuzis do tráfico, fica a reflexão de que drogas não agregam valores sociais positivos. Um caminho, muitas vezes sem retorno, para a destruição humana. Não custa lembrar que o consumo do crack já se tornou hoje  uma calamidade para a maioria das cidades brasileiras sobrecarregando os sistemas municipais de saúde pública. Uma epidemia social de dificílimo controle. Estamos perdendo muitos de nossos jovens para as drogas. Triste e preocupante realidade.

Milton Corrêa da Costa
Coronel da reserva da PM do Rio de Janeiro
 


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Sem comentários em “Guerra do Rio: a hora e a vez da pacificação da Rocinha”

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  1. VANESSA

    MUITO ESCLARECEDORA SUA MATÉRIA , GOSTEI E CONCORDO COM VC

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