Maranhão

Assim como atrás da cortina de ferro

Abdon Marinho.

Abdon Marinho.

Assistindo aos acontecimentos do Maranhão fico com uma sensação de já haver assistido a esses fatos tempos atrás, como se arremetido, por uma máquina do tempo aos anos oitenta. Não sei se há ainda os que se recordam daqueles anos em que os países do leste europeu tentavam se libertar do jugo da URSS (União da Repúblicas Socialistas Soviéticas), do seu modelo político e os seus governos – a grande maioria fantoches de Moscou – insistiam em dizer que estava tudo bem, que a sociedade estava feliz, que havia pleno emprego, desenvolvimento. As notícias que chegavam ao ocidente eram poucas mas ficávamos com a aquela sensação que tentavam esconder a dura realidade que aqueles povos viviam. Os governos dia sim e no outro também, faziam de tudo para difundir que eram as foças capitalistas ocidentais que estavam tentando derrubar os governos e que o seu povo estava era sofrendo a influência da decadência capitalista ocidental. Os mais velhos devem lembrar.

O Maranhão vive praticamente a mesma situação – resguardadas as devidas proporções – temos o grupo que está no poder insistindo que estamos todos muito bem, que vivemos um reino de prosperidade e que até as nossas mais graves mazelas, como a violência é conseqüência do sucesso econômico que alcançamos, do nosso desenvolvimento, que os problemas mostrados pela imprensa faz parte de uma grande campanha imprensa sulista, não agem não contra os governantes, na verdade estão agindo contra o próprio Maranhão, contra todo o povo, querendo que deixem de usufruir essa prosperidade toda conquista por obra e graça dos governantes.

A propaganda do governo aqui nunca foi tão presente, insistente, incessante, como naqueles dias dos anos oitenta, não para de divulgar os grandes feitos do governo e de seus governantes. A prosperidade chegou, nunca se avançou tanto como agora. Principalmente no horário nobre, não tem um intervalo em que a propaganda não esteja lá em todos os canais. Uma diferença com aqueles países é que aqui são vários canais divulgando a propaganda oficial, lá só haviam os canais oficiais.

Campanhas são feitas para despertar o sentimento nacionalista (no caso “estadista”), o povo precisa apoiar os governantes contra essa campanha insidiosa contra o nosso estado. Vamos mostrar para todos que amamos a nossa terra. Tudo que dizem é mentira e ainda tem uns agentes infiltrados no meio da nossa sociedade que ficam passando essas informações mentirosas contra o nosso governo que é o próprio estado. Esses infiltrados não amam nosso estado, não gosta do nosso povo.

Assim como outrora, a máquina de propaganda escalou todos os meios, rádios, TV’s, jornais, mídia eletrônica, as penas dos escribas que cercam e se beneficiam do do poder, ninguém pode deixar de contribuir com causa, a ordem é dizer até onde não mais poder que tudo isso que acontece, inclusive as mazelas é coisa do adversário. É ele que está por trás de tudo. Tem o dedo do “tinhoso” em toda a campanha contra o “povo do Maranhão”.
Deve se ressaltar o máximo os defeitos dos adversários, como forma de desviar a atenção para os problemas para os quais são questionados, mas também para colocar na cabeça da patuleia que todos são iguais, que nunca será nada diferente, que são até piores que o poder que pretendem substituir. É assim que, por via oblíqua, se tenta até inculpar o gestor municipal de São Luís pelas mortes que ocorreram durante todo o ano que passou. Não digo com isso que o sistema de saúde municipal está atendendo como deveria a população, nada disso, muito pelo contrário, o sistema de saúde deixa muito a desejar, muito mesmo. Exige uma providência emergencial por parte da administração municipal para fazer cessar a espécie de acampamento de guerra que se tornou os socorrões, uma situação grave, vexatória e humilhante para a população. Agora, daí, insinuar que o gestor é tão ou mais perigoso que os líderes das facções criminosas que determinaram a imolação de vítimas inocentes, vai uma grande distância. Não lembro de ter visto isso antes, nem naqueles dias em que ruíam aqueles regimes.

O ambiente de informação é tão contaminado pela política que a mídia externa, jornais, TV’s, sites, etc., mandam seus correspondentes. Não confiam na isenção dos profissionais daqui ou querem, eles mesmos, sentir o “clima” do estado. As vezes, assistindo a esses noticiários, fico pensando: “vão já chamar o enviado especial, diretamente do Maranhão”, lembram? Naqueles dias os chamados enviados ou correspondentes especiais entrevistavam o povo daqueles países como se fosse um povo de outro planeta. Há alguma diferença entre o que acontece hoje? Mostravam os palácios suntuosos dos governantes e as palafitas ou as favelas miseráveis onde viviam a maioria da população. Alguma semelhança?

Tudo. Até quando governo, diz que as forças externas fazem tudo para desetabilizar um governo que está fazendo o certo e são essas forças do “mal” que querem levar o nosso povo para um modelo “decadente” que se vive além da cortina, já houve até quem dissesse que casa de pau-a-pique, com cobertura de palha era um traço de nossa cultura, que é uma opção do povo morar assim, palafitas não passam de um estilo de vida.
Além do que já se disse acima, outros sinais visíveis do dèjá vu são os que tentam minimizar os nossos problemas, dizendo que é igual a todos os lugares e que fora daqui tudo é muito mais grave, tudo muito pior. Aqui é que estamos bem e que não devemos nos deixar influenciar pelo assédio da mídia burguesa sulista.

As semelhanças vão além, enquanto escalam os escalões intermediários para tentar sustentar o regime, os mais espertos começam a fazer o governo de terra arrasada, muitos já buscam se precaver para a eventualidade de surgirem alguns contratempos.
O discurso e a prática são os mesmos daqueles dias é a história se repetindo mais uma vez, desta, como diria aquele barbudo, como farsa.
Abdon Marinho é advogado.


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