Maranhão

O Natal e meus natais

Por Abdon Marinho

Abdon Marinho.

Abdon Marinho.

Um amigo indaga: “– por que não escreves sobre o natal? Nunca vi um texto seu sobre esse tema”. Disse que iria pensar. Na verdade, nunca me senti à vontade com o tema. O natal sempre foi uma data a me remeter às minhas maiores perdas, à saudade dos dias não vividos. Nunca gostei de falar sobre o natal e demorei muito tempo para me acostumar com ele. Se faço agora é motivado pelo sentimento de ajudar outras pessoas, que como eu, tiveram ou tem dificuldades com a data. Quando escrevi o texto “Sou deficiente. E daí?”, fui abordado por muitos amigos que disseram que aquele texto ajudou a se compreenderem ou a aceitar suas dificuldades físicas ou íntimas, de aceitação e a se amarem mais.

Não me recordo de quando se deu minha dificuldade com o natal. Acho que tem relação com a minha orfandade materna. Quando minha mãe faleceu, no parto do meu irmão caçula, tudo mudou em nossas vidas, na minha, dos meus irmãos. Éramos nove irmãos órfãos de mãe (tivemos uma irmã que morrera ainda bebê, bem antes do meu nascimento). Minha irmã mais velha, embora já casada, era, para os padrões de hoje, uma adolescente, tinha 22 anos de idade, o mais novo, um dia, a irmã depois de mim, 2 anos, eu 5, os demais distribuídos a cada dois anos, nos demais interstícios. Órfãos e pobres, nos separamos, nos distanciamos, nunca mais ficamos todos os irmãos no mesmo ambiente, cada um cuidando da sua vida. Um morando com um irmão mais velho aqui, outro, com outro ali ou com meu pai. Foi a nossa diáspora particular. Mas a ausência da nossa mãe sempre esteve mais presente que a presença do nosso pai, que sempre fez o que pôde por todos, diga-se, apesar das dificuldades, da rudeza e de sua simplicidade. Assim, nunca tivemos um natal, como deveria, com toda a família reunida, já faltava nossa mãe, os irmãos cada um para um lado, cada um vivendo seus próprios dramas pessoais. Costumo dizer que fomos criados como Deus cria batatas na beira do rio, sem festas, sem presentes. Eu, em que pese já ter meus cinco anos, o que era uma vantagem em relação aos menores tinha a desvantagem da deficiência, causada pela pólio anos antes.

Quantas não foram as vezes em que o que mais queria era um abraço de um irmão ou suas simples presenças? Um natal já seria estarmos juntos. Porque o natal é da família. E família é uma coisa que quem não há tem ali, toda hora, sabe o valor que tem.

Apesar disso tudo, sempre fui mais forte que minhas fraquezas. Aliás, fomos, eu, meus irmãos. Quando me perguntam: “–Você não tem medo dizer isso, falar aquilo, de vir a sofrer alguma represália?” Respondo: “– Quem ficou órfão na infância aprende a não ter medo de nada”.

Foi assim a nossa vida, apesar das dificuldades, nunca nenhum se desviou para mal caminho. Nunca perdemos contato e deixamos de nos tratar como irmãos e, principalmente, nunca nenhum fez nada que envergonhasse o outro. Todos pessoas de bem, sob um código de conduta não escrito e não combinado de que nada faríamos que causasse constrangimento aos demais, pelo contrário, só temos é motivo para orgulho. Continuamos pobres – nunca buscamos fortunas –, porém dignos.

No início de novembro, no aniversário de 60 anos de meu irmão, o mais velho dos homens, conseguimos reunir todos sob o mesmo teto (e ainda um dois filhos de meu pai do segundo casamento), depois de 40 anos. Foi a festa mais emocionante que participei e prova definitiva que tudo que vivemos valeu a pena. Todos juntos, felizes, rindo e contando piadas e sorrindo. Foi o meu natal antecipado que Deus, com imensa generosidade, nos concedeu.

O natal sempre me remeteu a essa saudade doída, essas ausências sentidas. Mas o tempo cura tudo. Com o passar do anos superei a tristeza que o natal me remetia. Embora restasse é resta alguns senões. Ainda hoje tenho uma imensa dificuldade de conviver com a hipocrisia que impera no período natalino. Não consigo conviver e achar normal que pessoas que passaram o ano inteiro se agredindo, puxando o tapete um do outro, no natal troquem afagos, presentes, se desejem felicidades mútuas e já no dia 26 de dezembro, estejam de volta aos jogos de falsidade, as traições, as sordidez. Prefiro o distanciamento. Nunca consegui ser cínico.

Outra coisa que sempre me causou e causa mal-estar e que está mais presente que nunca nos nossos dias é esse consumismo desenfreado. Muitos ao invés de fazerem do natal um momento para o auto conhecimento, para ai menos tentar fazer aflorar um sentimento mínimo de humanidade, fazem deste um momento para consumir, consumir, consumir. Sempre é cada vez mais. Será esse o famoso espírito natalino? E a solidariedade? O amor ao próximo? A fraternidade? Como ficam? Tantos sem nada e poucos preocupados em comprar mais belas das roupas, os mais caros luxos, os vinhos e os champanhe mais finos. Não, não pode ser natal. Não o natal que tanto desejei na minha infância e acalentei por todos os meus dias.

Já faz tempo que decidi que o meu natal seria diferente. Assim, todos os anos pego todo o dinheiro que poderia gastar com o consumo de supérfluo, com festa ou com presentes para quem não precisa e, contando com a ajuda de alguns amigos, converto esse dinheiro em cestas básicas e brinquedos para crianças carentes. Pessoas que talvez não tivessem o que comer neste dia recebem uma cesta. Crianças, uma lembrancinha, nada de luxo, apenas para que lembrem do espírito do natal. É o que chamamos de o natal da solidariedade. Já no começo de dezembro, as pessoas que trabalham comigo são indagadas, se este ano terá distribuição de cestas e brinquedos. Já contam com isso. É pouco, quase nada, mas é importante para alguém. Fazemos a festa aqui em casa na manhã do dia 24. Esse é o meu natal, o melhor natal.

Que Deus nos conceda a graça de sermos cada vez mais generosos.

Um feliz natal para todos.


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