Maranhão

A Ilha do Cirurgião

O valente conquistador Jerônimo de Albuquerque, em 13 de dezembro de 1614, do Forte de Santa Maria.

Por Antonio Noberto

O quadricentenário de São Luís poderá não ser o mega evento que os maranhenses esperavam, mas com certeza será um momento de muitas descobertas e revelações sobre a história do Maranhão. E isto, como era de se esperar, muito mais por conta do vírus da curiosidade que acomete o bom pesquisador, do que da burocrática disposição governamental.

Não faz dez anos o ator francês e apaixonado pela história do nosso Estado, Jean Marie Collin, nos apresentou o brasão do fundador de São Luís, Daniel de La Touche, Senhor de La Ravardière, encontrado um ano antes gravado na pedra de uma igreja na cidade natal deste, Berthegon, na região do Poitou. Collin mandou refazer o símbolo heráldico e presenteou o governo do estado, cerimônia que tive o privilégio de participar. A historiadora francesa Claudine Doreau também nos ofertou uma importante obra de sua autoria: Daniel de La Touche: grand navigateur, son histoire, trabalho que conta com uma modesta contribuição nossa e, por outro lado, uma grande homenagem a minha pessoa. Esta obra, que entre outras coisas mostra o local de nascimento, sepultamento e toda a trajetória do nosso ilustre navegador, deverá ser lançada no Maranhão, em português, até o final deste ano. Tudo por esforço particular, não governamental. Uma exposição sobre a França Equinocial também deverá ser realizada próximo ao oito de setembro deste ano. Temos visto o interesse das emissoras de televisão em produzir extensas matérias sobre o assunto que, certamente, nos trarão muitas novidades. A título de informação, sabemos que a Mirante, afiliada da Rede Globo, e a TV Praia Grande, ligada ao Grupo Bandeirantes, por exemplo, já iniciaram faz tempo os preparativos das suas respectivas matérias.

E nós continuamos com nosso arsenal de informações sobre este belo, porém, ainda obnubilado, primeiro capítulo da história do Maranhão. Não raro enfrentando a crítica injusta e pouco fundada dos galófobos e, por outro lado, agradecendo aos incentivos daqueles – a imensa maioria – que, lúcidos, entenderam que a história dos franceses no Maranhão é, além de uma questão de justiça, uma maiúscula oportunidade de incremento da economia local através da atividade turística. E com isto fazem coro comigo e com o estimado ator global Paulo Autran, que certa vez disse: “Sempre haverá discordância entre quem faz e quem critica. Eu, todavia, prefiro quem faz.”. E vamos continuar fazendo, tentando desmistificar aquilo que a história do vencedor luso, motivada pelos interesses políticos e econômicos, promoveu nestes quatro séculos contra brasileiros e estrangeiros, mostrando este singular capítulo da nossa história, que traz consigo um pouco do sonho e da história de cada um de nós.

Falemos então sobre a Ilha do Cirurgião.

O valente conquistador Jerônimo de Albuquerque, em 13 de dezembro de 1614, do Forte de Santa Maria, do outro lado da Baía de São José, enviou seu parente, Gregório Fragoso de Albuquerque, a Paris, levando ao embaixador da Espanha na França, um relato infernal dos franceses no Maranhão. Entre as muitas denúncias dizia ele “Que o Senhor de La Ravardière tem dado terras, e índios a fidalgos e soldados seus, os quaes vivem fazendo fazendas, e as possuem como suas nas terras de El-Rei de Hespanha…”. E não é sem razão este relato do capitão, líder dos portugueses na batalha de Guaxenduba, vez que observamos consideráveis doações na Ilha Grande e no continente. Uma destas é a atual Ilha do Curupu, então batizada de Ilha Daniel de La Touche. E outra, tão importante quanto, é a Ilha do Cajual – que atualmente pertence ao município de Alcântara –, então cedida ao primeiro médico e cirurgião do Maranhão, Tomas de Lastre. Alguns historiadores o consideraram o primeiro cirurgião do Brasil (nessa época a população branca no país era diminuta, estimada em menos de trinta mil. Albuquerque nesta mesma carta diz que “tem mais de três mil portugueses”), fato aparentemente pouco crível. Verifica-se, inclusive, que, antes de De Lastre, o Maranhão já recebera outra visita ilustre de um médico francês, o boticário do rei Henrique IV, Jean Mocquet, o “guardão do gabinete das singularidades” do rei de França, que viera com La Ravardière em sua viagem à Guiana e ao Maranhão em 1604. Talvez tenha sido a primeira viagem destes dois últimos ao Maranhão. Mocquet, em sua última viagem oficial (ele fez ao menos cinco), desta feita à Palestina, trouxe mudas que foram plantadas no Jardim do Palácio do Louvre, hoje museu.

Em tempos tão primitivos, ainda com forte influência medieval, ter um cirurgião experiente em uma expedição era algo um tanto raro. A marca de De Lastre, por sua vez, não ficou apenas na competência na arte de curar, destacou-se também no profissionalismo e na humanidade, vez que, recomendado por La Ravardière, não julgou por usurpação socorrer o próprio filho de Jerônimo de Albuquerque, na conhecida Batalha de Guaxenduba, ao se deslocar às trincheiras inimigas a fim de tratá-lo de ferimentos provocados por tiros de arcabuz. Foram atitudes nobres desta natureza que fizeram com que o papa Paulo V, em audiência ao Reverendo Padre Provincial dos capuchinhos de Paris, em 1631, chamasse a missão francesa no Maranhão de “tão santa empresa” (si sainte enterprise). O bom exemplo dos franceses foi referendado pelos próprios portugueses que ficaram no Maranhão, que não pouparam elogios aos gauleses. As poucas vozes dissonantes eram aquelas de motivação política dos vencedores que, algumas vezes, tentaram pinchar de piratas e ambiciosos os colonos da França Equinocial.

Depois da saída de De lastre, o pajé e a rica flora continuariam sendo os únicos salvadores nos momentos de enfermidades de índios e brancos, além, é claro, dos saberes femininos que preparavam as alquimias, que, por consequência, muitas mundo afora foram levadas para fogueira sob a injusta acusação de bruxaria. Na segunda metade daquele século, no Maranhão, o Padre Antonio Vieira reclamava que “existia muita falta de medicamentos, como de médicos, que não havia”.

A Ilha do Cirurgião aparece como uma incógnita na obra de Simão Estácio da Silveira, Relação sumária das cousas do Maranhão, dirigida aos pobres deste Reino de Portugal, publicada em Lisboa em 1624, onde descreve o céu saudável, as águas puras e o chão fértil da terra. Nela encontramos a descrição do território do Maranhão e de suas principais ilhas, onde se lê: “a Ilha de São Luís tem vinte e duas léguas de comprido, (…) a de Santa Ana, (…) a de La Touche, (…) [e] uma que se deu a um cirurgião, que terá quatro léguas” e outra chamada das Pacas, de que Sua Majestade me fez mercê, que será de até duas léguas (2001: p. 38). A Ilha do Cirurgião Tomas de Lastre aparece claramente no mapa dado por La Ravardière a Diogo de Campos Moreno, depois repassado ao cosmógrafo do rei de Portugal, João Teixeira Albernás, que o arrematou de forma cirúrgica (sem querer fazer alusão ao título deste texto). O mapa, publicado pela primeira vez na obra Livro que dá razão do Estado do Brasil, por volta de 1616, de autoria creditada a Diogo de Campos Moreno – aliada às descrições feitas por Estácio da Silveira na citada obra –, não deixa dúvidas quanto a Ilha do Cirurgião. Mas o que levaria De Lastre a optar por aquele pedaço terra (esquecido até aos dias de hoje)? Conversando com dois amigos arqueólogos, eles afirmaram que, entre os achados paleontológicos, encontraram ossos de animais pré-históricos “à flor da terra”. Será que os nativos o avisaram da existência de tais achados? Ou será que a escolha se deu apenas pela exuberante riqueza da fauna e da flora do lugar? Talvez a revoada dos milhares de guarás tenha favorecido na escolha do nosso primeiro médico, cirurgião e cientista do Brasil setentrional.

A população da Ilha do Cajual ainda vive no medievalismo, não obstante a proximidade com a capital maranhense. Lá não existe comércio. A população é reduzidíssima e isolada a ponto de existir muitas pessoas com deficiência física, provavelmente pela inexistência de novos moradores, o que desfavoreçe a circulação de novos genes.  A população de Santana dos Pretos (comunidade remanescente de quilombo) parece ainda viver o medo do “homem branco”, que raramente vai lá. O acesso até à Ilha é muito complicado.

O bom de toda essa história é que tanto a Ilha do cirurgião, com seus muitos guarás e descobertas paleontológicas, quanto a própria cidade de Alcântara continuam seduzindo muitos turistas e visitantes a descobrir um pouco mais da história e da natureza do município. O turismo pode sim reverter o medievalismo da Ilha do Cajual, aliás, do Cirurgião!

A gente se vê!

Bacharel e consultor em turismo, pesquisador e sócio efetivo do IHGM


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