Artigo

Injusta indignação

Por Abdon Marinho

Vi o presidente da Câmara dos Deputados manifestar profunda indignação e informar representação contra o juiz maranhense Marlon Reis por ter o mesmo criado num livro um deputado fictício chamado, se não me falha a memória, Cândido Peçanha, especializado na arte da da corrupção eleitoral.

Sua excelência, o presidente da Câmara dos Deputados e não o deputado Peçanha achou um acinte a existência de tal personagem. Segundo ele, a casa que preside possui os mais legítimos, probos e honestos cidadãos que se tem notícia. Trata-se de uma assertiva a merecer consideração. Justamente hoje quando o Parlamento é tão mal visto se tenha esse tipo de reação a um personagem fictício em um livro.

Como ainda não li o livro, não posso precisar o que mais no texto poderia conter e que fosse capaz de suscitar tanta inquietação, a ponto de merecer o desagravo público da honra dos parlamentares. O que haveria de novo no Peçanha a o distinguir do personagem Justo Veríssimo do saudoso Chico Anysio e que nos encantou por décadas com arquétipo de deputado corrupto e que odiava pobre? Não sei. Talvez, palpite meu, o fato do personagem da globo ser apenas de humor escrachado naqueles dias de Parlamento menos desmoralizado e que ficção não estava tão perto da realidade quanto agora. Isso é que acho que incomodou e incomoda. Saberem que o personagem fictício é a expressão acabada da realidade e não uma mera coincidência.

Infelizmente, o Brasil tem um Congresso Nacional em que grande parte de seus integrantes devem satisfação à justiça pelos mais diversos crimes. Essa é a realidade incontornável. A corrupção eleitoral deve ser o menor dos delitos.

A injusta indignação do presidente da Câmara dos Deputados não responde a diversas inquietações dos cidadãos brasileiros como por exemplo, o fato de seus pares entrarem na vida pública pobres como Jó ou como pouco recursos e com pouco tempo estarem ricos. Será que sabem explicar como se dá a mágica? Decerto que não é por conta do salário, que apesar de alto, não faz face ao fausto que levam.

O discurso do presidente reflete a total desconexão da casa que preside com a realidade brasileira. Será que desconhecem o que se murmura em todos cantos do país sobre o tráfico de influência, sobre as negociatas com as ementas que inserem nos orçamentos públicos? Quantas vezes não já ouviu falar de deputado que cobra percentuais por suas emendas? Quantos não são os que se ocupam de atuarem como despachantes de empresas fantasmas ou reais em negócios com o governo?

Se o presidente da Câmara dos Deputados fosse mais atento perceberia que o lugar ao seu lado na mesa até bem pouco tempo foi ocupado por alguém envolvido em negócios assim, alguém que usava o mandato para garantir sua independência financeira, segundo suas próprias conversas mantidas com o doleiro, hoje preso. Pois é, o mesmo André Vargas que o governo e o partido do governo tenta salvar da cassação. Seria o único a fazer isso? Claro que não. Temos um parlamento que não cansa de ser pego nos malfeitos da vida, na corrupção desenfreada ou do favorecimento explícito. O presidente não deve ter se dado conta da ausência do ex-vice-presidente, os motivos que levaram a não mais está lá. E aí, vem se dizer injustiçado e indignado com personagem fictício se a realidade grita ao lado e em quase todo do plenário? Não faz sentido.

Se usam de métodos corruptos que usam para se elegerem – e isso infelizmente, todos sabem –, é apenas o começo de uma carreira mais voltada para o crime que para o interesse público. Pior é que quando se pensa que isso é o mais grave, vem a certeza que não é, trata-se apenas da ponta o iceberg. O crime organizado se prepara ocupar o Estado eleger seus representantes. Na verdade já vem fazendo isso, a diferença é que farão isso de forma mais explícita. Assim como os agiotas já elegem dezenas de prefeitos no Maranhão e no Brasil para ficarem com as principais secretarias e ficarem casa vez mais ricos, as demais modalidades de crimes também o farão. Alguém dúvida da ação do PCC em São Paulo com alguns deputados? Investigações revelam essa proximidade, inclusive em algumas atividades criminosas como incêndio a ônibus (das empresas rivais, claro), lavagem de dinheiro, etc. Há uma relação promiscua cristalina entre políticos e criminosos.

Não faz muito tempo o ministro do STF Gilmar Mendes alertava para inserção do crime organizado na política. Já havia falado disso há muito tempo. Trata-se um alerta que chega tarde.

O deputado corrupto retratado no livro talvez não faça jus a grave situação que atravessa o país. Cândido Peçanha, assim como Justo Veríssimo, jamais chegarão, em audácia e desfaçatez onde chegaram os nossos deputados reais. A arte, a ficção não tem, neste caso, o condão de imitar a vida. A realidade é bem mais cruel do que ousam imaginar escritores e roteiristas.

Abdon Marinho é advogado.eleitoral.


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