Artigo

O Brasil e a nova arena

Outrora nossos estádios eram só estádios, passamos a vida inteira chamando-os assim, de repente, por algum modismo, alguma influência externa.

Por Abdon Marinho

Advogado Abdon Marinho.

Advogado Abdon Marinho.

As vezes acho que o Brasil se parece aquele cachorro que roda em círculo tentando morder o próprio rabo.

Os maus costumes, as atitudes mais repudiáveis, por aqui, encontram um terreno fértil, as tolices, as fanfarronices são por aqui atitudes da moda.

Outrora nossos estádios eram só estádios, passamos a vida inteira chamando-os assim, de repente, por algum modismo, alguma influência externa, entenderam que devemos chamá-los de arenas. E assim, todos viraram arenas. É um tal de Arena Pantanal, Arena das Dunas, Arena da Amazônia, Arena da Baixada, etc. Alguém sabe a razão para essa tolice? Talvez numa analogia subliminar dos horrendos espetáculos romanos em que escravos ou inimigos de Roma eram obrigados a lutarem até a morte ou simplesmente jogados as feras para lhes servir de alimento. Talvez por conta disso o comportamento das próprias plateias tenham descambado para os mais abomináveis atos de violência ou de racismo ou os dois juntos. Se traçamos uma linha histórica veremos que o fenômeno de guerras entre torcidas, as agressões racistas aos nossos jogadores, se presentes, eram algo bem restrito, praticamente não existiam, ao que me lembre, em território nacional. Não tenho lembrança de ouvir torcidas inteiras imitando macacos em nossos estádios quando algum jogador negro pegava a bola, ou agressões a juízes por conta da cor de sua pele. Esse racismo odioso é novo, mesmo porque o Brasil é uma nação negra, somos todos negros, mulatos, pardos. Somos todos mistura.
IEssa odienta prática é importada.

Vendo esse modismo, a babaquice de chamar estádios de arenas, lembrou-me outra coisa, o quanto o atual partido hoje no poder está parecido com a ARENA – Aliança Renovadora Nacional, tristemente conhecido como o partido da ditadura, criada pelo AI-2 em 1965 para dar-lhe sustentação política, sendo extinta com o advento do multipartidarismo implementado em 1979.

Outro dia, uma pesquisa sobre as preferências eleitorais da população, tornou mais emblemática a semelhança entre os dois projetos políticos, assim com a Arena, a aceitação dos atuais governantes, que tiveram sua origem política nos setores médios da sociedade, entre os intelectuais, estudantes e trabalhadores urbanos, agora é maior naqueles lugares mais atrasados, entre as pessoas mais pobres, entre os que necessitam da infinidade de bolsas governamentais para poderem viver, os chamados “grotões”.

Quando vi o resultado da pesquisa fiquei pensando no quanto a vida nos prega peças. Se pegarmos a linha sucessória dos chamados “grotões”, território onde reinou absoluto o modelo político mais atrasado, teremos: Arena, PDS, PFL e PT. Não é hilário? Ouvi dizer que um grupo de jovens pretende recriar a velha Arena, terão que buscar outro público. Aquele público cativo que a sustentou nos de chumbo migrou para a nova arena, os atuais donos do poder.
As semelhanças são inúmeras. A começar pelo viés autoritário, as tentativas de silenciar ou aniquilar a mídia independente, o cerceamento da liberdade de expressão, o apoio as últimas ditaduras, o aparelhamento do estado, etc.

O que torna mais preocupante essa nova ARENA, é que diferente da primeira que exerceu o poder de forma acanhada, intimidada pela ausência de legitimidade eleitoral – alcançou o poder na esteira do golpe e as eleições que suas lideranças participaram estiveram sempre sob o manto da suspeição –, esta nova ARENA possui legitimidade eleitoral, ainda que conquistada através da compra de votos nos chamados “grotões”. A compra vem se dando de mascarada sob o manto distribuição de renda, dos programas sociais, bolsas disso, programa daquilo. Por trás de tudo o projeto eleitoral. A conquista do voto dos menos esclarecidos que temem perder as “conquistas” , que nada mais são que esmolas, ainda que para isso o país esqueça os postulados básicos do que seja democracia.
A lógica do benefício direto, pessoal e instantâneo está em toda e qualquer ação. Ante as críticas sobre a exploração dos médicos cubanos que trabalham no Brasil em condições de desigualdade aos demais trabalhares, com setenta por cento de seus vencimentos sendo repassado ao governo de Cuba, vi um escrito de um dos ideólogos do poder na qual dizia não interessar as condições de trabalho dos médicos (se eram escravos ou não) o que interessava era agradar a população brasileira desassistida. Vejam onde chegamos. A massa eleitoral estando satisfeita que vai ligar para as condições abjetas de exploração dos trabalhadores estrangeiros? Há diferença entre esse conceito e os fundamentos da escravidão do século XIX? Claro que não.

Assim como as nossas velhas oligarquias, não interessa aos atuais governantes não promover o salto de qualidade, têm interesse em manter essa massa dependente, sustentada. Muitos nunca foram estimulados a deixar a condição de bolsista, a geraram seu próprio sustento, pelo contrário, o cadastro dos dependentes só aumenta. Os que deixaram os programas por estímulo do governo, se existem são bem poucos. Tudo faz parte da estratégia de poder. mantém os menos favorecidos como eleitorado cativo, adoça a boca de grandes capitalistas, banqueiros, etc e se domina a máquina estatal. Tudo isso dentro do jogo democrático. Dentro das regras da democracia que usam contra a mesma.

Essa estratégia lhes rendem mandatos nos executivos e legislativos, já a infiltração no judiciário vai se dando como as indicações, cujo o primeiro atributo é o alinhamento as teses da nova arena.

O pior de tudo é que diferente da velha Arena, cujo os dirigentes encaravam os mandatos como missão e não buscavam a perpetuação do poder, os atuais dirigentes buscam a perpetuação no poder por isso mesmo tudo que fazem tem esse objetivo a manutenção e a perpetuação no poder que passa a ser um meio e um fim em si. O Estado passa a servir aos interesses partidários e pessoais dos donos do poder e seus aliados que se servem e enricam a cada dia que passa. Assim vão tomando conta do país de suas instituições. A máquina estatal com a sua infinidade de cargos de confiança já foi tomada de assalto desde que chegaram ao poder.

Alguém tem dúvida que se servem pessoalmente do poder? Que enricam a cada dia que passa? Que auferem lucros exorbitantes com a traficância de influência? Que os dirigentes partidários e políticos aliados usam a máquina pública para turbinar seus negócios privados? Que no Brasil, segundo eles próprios reconhecem, a corrupção tornou-se endêmica?

Como a história, como dizem, só se repete como farsa, talvez a única diferença existente entre a Arena do passado e a Arena do presente, seja a corrupção que passou a tomar conta da sociedade e do estado brasileiro. Os presidente-militares, símbolo maior daquela época, deixaram o poder e foram viver modestamente de suas aposentadorias os novos donatários do poder vivem no fausto, ninguém sabe a fortuna que possuem, os negócios que têm pois tudo é feito no mundo clandestino dos paraísos fiscais. O que se sabe é pelo que deixam escapar, os sinais exteriores de riqueza, os negócios panamenhos, as consultorias milionárias, os negócios africanos.

O país não consegue sair do atoleiro por conta da lógica eleitoral, do toma lá dá cá, da falta de projeto de desenvolvimento, da falta de investimentos sérios em infraestrutura. Quantos bilhões não são desviados todos os anos? Recursos que deveriam está ajudando o país a crescer. Na outra ponta os políticos que entram nos mandatos “puxando a cachorrinha” e saem deles, quando saem ricos.
Temos uma nação onde grande parcela de sua população vive de esmolar migalhas do poder e que não consegue ou não busca ganhar seu próprio sustento.

Uma nação andando em círculos, tão sem propósito quando o cachorro que roda tentando morder o próprio rabo.

Abdon Marinho é advogado eleitoral.


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