Artigo

Muito além da riqueza e desenvolvimento

Advogado Abdon Marinho.

Advogado Abdon Marinho.

O Maranhão continua mostrando ao Brasil e ao mundo o quando está desenvolvido e rico. Os amigos que acessaram blogues e outros meios de comunicação devem ter visto a profusão de eventos e solenidades no interior estado, são autênticos comícios, uns mais afoitos, os reforçam com carretas, passeatas, etc. Quando vejo as notícias, os pedidos de votos, explícitos e implícitos, nestes eventos me pergunto pelo nosso diligente Ministério Público. Não me perguntem a razão.

A razão destes eventos apoteóticos? Simples. Assinatura de Ordens de Serviços para construção de uma estrada aqui, um asfaltamento ali, uma obra qualquer acolá. Me digam, existe maior prova de desenvolvimento e riqueza do esta? Uma população inteira ou grande parte dela, ser arregimentada por prefeitos, vereadores, cabos e os que os valha, para testemunhar assinatura de ordens de serviços que poderiam ser perfeitamente assinadas nos gabinetes dos secretários sem maiores consequências e sem maiores alardes?

Estes eventos, provas maiores do nosso desenvolvimento e riqueza, têm sido vistos com mais intensidade neste momento. Os possíveis candidatos como terão que sair dos cargos que ocupam por força lei eleitoral, por conta disso brindam a sociedade com inaugurações de ordens de serviço”, é isso mesmo, não pensei que veria esse tipo de coisa, estão inaugurando ordens de serviço. Eis um sinal do nosso extraordinário sucesso econômico.

Como os amigos podem perceber, a ironia que tento imprimir no texto, não tem sentido de ser, pois é uma ironia triste, não tem nenhuma graça.

Esta mobilização popular que se assiste e que fazem questão de impor aos nossos olhos, é fruto do sentimento de gratidão de quem anseia há muitos anos por uma obra e pensa que os governantes estão lhes fazendo um favor, que estão sendo bondosos com os povo.

O povo não sabe, infelizmente, que os governantes não fazem nada além do seu dever. Que as obras públicas não favores de governantes e sim um direito do povo, que os recursos empregados em tais empreendimentos são oriundos dos impostos de todos os cidadãos, que os governantes são meros administradores – e maus administradores – dos nossos recursos, dos recursos de todos.

O povo não sabe, porque desde sempre lhe foi negado o acesso as coisas mais elementares, como saúde, educação, justiça e até o direito de ir e vir. Nada demais, só o essencial. Por conta disso hoje, em pleno século 21, o povo festeja assinaturas em ordens de serviço. Pois é, contrariando o que dizem os nossos governantes, o nosso estado é tão rico, está tão bem financeiramente, que acham uma grande vantagem e fazem com orgulho, verdadeiros comícios, festas, para testemunharem a assinatura de uma singela ordem de serviço. Não se trata de inauguração de uma obra, uma escola, uma estrada, um posto médico, a desesperança chegou ao ponto do povo festejar a notícia que o governo fará isso ou aquilo.

A mídia oficial, os jornalistas amigos através de seus blogues ou colunas, noticiam estes fatos com tanto alarde que chegam a cometer um abuso dentro de outro abuso. Não se dão conta do quanto isso é vergonhoso, do quanto isso é triste para o nosso estado, do quanto de atraso esse tipo de festejo embute de atraso. Será que acham esse tipo de coisa normal? Será que tem mesmo coragem, de além da fronteiras do Maranhão, espalharem os maravilhosos festins que fazem para comemorar a uma assinatura? A excesso na comemoração de uma obra que os governantes ainda farão? Talvez sim. Vivemos aquela situação em que se perdeu o limite e compostura diante da realidade dos fatos.

O povo festeja essas pequenas conquistas por que não tem conhecimento do seja seus direitos. direitos sempre negados ao longo dos anos. É aceitável que o cidadão simples lá do São João do Carú, que amargava horas em um barco durante o inverno, igual tempo durante o verão em estradas inexistentes; que o cidadão simples de Lagoa Grande, comemore a promessa de que, finalmente, irão afastar sua estrada e não terão mais que se aventurar em paus-de-araras; que os cidadãos de Afonso Cunha, Duque Barcelar e Coelho Neto, festejem. Muitos destes cidadãos nunca tiveram acesso a nada, principalmente a educação. É natural que o neto do senhor que aparece no comercial do governo do estado, narre com especial felicidade, ter visto uma estrada asfaltada, que diga tratar-se da coisa mais bonita que já viu, “uma estradinha brilhosa”, como bem definiu. Só que isso isso não é vantagem, isso é a comprovação da situação de extrema pobreza que vive o nosso povo a ponto de encantar-se com uma estrada asfaltada, na maioria das vezes, tão malfeitas, tão frágeis, que não duram dois invernos. E ainda assim, o nosso povo, tomado pelo encantamento, agradeça. E eu compreendo perfeitamente isso, fui um daqueles meninos que moram nos povoados, na beira da estrada, cujo o maior acontecimento era ver um carro passar.

O que não dá para aceitar – e não é normal que se aceite – é que pessoas esclarecidas, formadoras de opinião vejam vantagem e endossem que se façam eventos públicos, que se arregimente centenas, milhares de pessoas, para testemunharem assinatura em ordens de serviço.

Esta é, de fato, uma forma muito peculiar de demonstrar o quanto o Maranhão cresceu, ficou rico e se desenvolveu.


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