Artigo

Um não gesto

Por Abdon Marinho

Abdon Marinho.

Abdon Marinho.

Segunda, quando da recepção ao papa Francisco, o ministro Barbosa, ao cumprimentá-lo, deixou de cumprimentar a presidente Dilma, que estava ao lado de sua santidade. O assunto foi muito comentado e o vídeo com as imagens bastante acessado. Talvez tenha sido apenas um lapso, uma gafe. Qualquer pessoa que cumprimenta uma pessoa, ainda que num momento de forte emoção, como sempre é o cumprimento a um papa, não deixaria de cumprimentar a pessoa ao lado, muito menos quando essa pessoa é uma mulher que coincidentemente está investida no cargo de mandatária maior da nação.

Assim, o não cumprimento do ministro à presidente, tratou-se de um não gesto. Um lapso movido pela forte emoção ou ainda uma gafe involuntária.
Digo isso porque ainda na semana passada o chefe do Poder Judiciário e a chefe do Poder Executivo estiveram juntos numa audiência em palácio, e até onde se soube, bastante amistosa.
Entre a audiência e a recepção ao papa nada aconteceu envolvendo os dois. Aliás, o único fato distoante no curto período foi a revelação da aquisição de um apartamento, no estrangeiro, como se dizia, pelo ministro que se valeu de uma empresa criada com esse único propósito. Uma operação, segundo ele, absolutamente dentro das balizas legais. Pelo menos foi isso que lhes garantiram os advogados e os corretores que intermediaram o negócio.
Caso não se trate de um não gesto e tenha sido a atitude do ministro deliberada, estaremos diante da situação para qual alertávamos em um texto anterior ou seja, que teriam armado para cima do ministro. Mais que isso, que a armação fora tramada por alguém bem próximo ao poder e a presidente, daí o fato dele não a ter cumprimentado, deixando-a praticamente com a mão estendida e passado direto.
Aqui devemos ressaltar e reafirmar que a trama do envolvimento do ministro na negociação imobiliária não teria “vingado” se não tivesse concorrido com a mesma. Coisa que ele já admitiu que fez ao dizer à reportagem que o negócio obedeceu à legislação que trata da matéria. Embora existam opiniões divergentes, esse é um fato.

Não lembro de ter lido qualquer explicação do ministro para que ignorasse a presidente, é até possível que tenha sido só descuido, entretanto, diante dos últimos acontecimentos o fato não deixa de suscitar questionamentos. Estaria o ministro atribuindo a alguém do governo responsabilidade pela trama que o enredou? Teria ele caído num golpe de espertos que trabalham para desacreditá-lo?

Outro dia uma pessoa amiga caiu em golpe tradicional aqui na província, o golpe do bilhete premiado. Ela mesma disse que concorreu com o delito ao querer levar uma vantagem no negócio, o resultado foi o prejuízo. Estelionatários geralmente contam com a participação das vítimas em seus golpes. Não faz tempo uma amiga me ligou, dizendo que recebera uma ligação do Rio ou São Paulo, onde o interlocutor dizia que ela deveria resgatar umas ações da Petrobrás e que era muito dinheiro, para isso ela teria que depositar uma certa quantia. Antes de fazer qualquer coisa ela me ligou. Perguntei-lhe: a senhora alguma vez comprou ações de alguma empresa? Respondeu que não. Completei como a senhora quer resgatar algo que nunca comprou. Embora ache que ela seguiu meu conselho e não tenha depositado nada, ela não gostou do fato de tê-la impedido de fazer o negócio. É verdade. Ela pareceu se zangar por que não deixei que transferisse o dinheiro para os criminosos. Acho que ainda hoje acredita que poderia ter se dado bem no negócio.

Digo isso, como disse no texto anterior, porque acho, sinceramente, que o ministro caiu na conversa do “bom negócio”, do dinheiro perdido na “calçada alta” a altura da mão. Venderam-lhe a ideia que o negócio estava perfeitamente dentro lei, que “todo mundo” faz assim, que “todo mundo” tem uma empresa só para isso, que dezenas de figuras ilustres fizeram e fazem o que fez todos os dias, e por aí vai. É verdade. É possível que existam milhares de casos idênticos. Só que nenhum envolvendo o ministro que relatou o processo do mensalão. Essa é a diferença. O ministro envolto na conversa bonita dos cidadãos não se deu conta de sua condição particular. Ignorou a campanha existente para desmoralizá-lo.

Caso o não gesto tenha sido um gesto deliberado, o ministro caiu em si e percebeu que comprou gato por lebre, além de um imenso problema que terá que explicar por muito tempo. É o preço da imprevidência.

Abdon Marinho é advogado eleitoral.


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